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Vocalista do Gota d’Água, ela fala ao JC sobre a infância musical ao lado do pai, carreira e família |
Quem ouve sua voz rouca, marcante e singular encanta-se. E quem a conhece, no mínimo se diverte com seu alto astral e bom humor. A Entrevista da Semana de hoje pincela alguns dos principais momentos da vida pessoal e profissional da cantora bauruense Neusa Maria Vieira de Sousa, vocalista do grupo Gota d’Água.
Ela cresceu em rodas de samba e choro de fundo de quintal ao lado do pai e mestre, Zé Vieira, mas também canta como ninguém jazz, pop, boleros... E é apaixonada por MPB, principalmente pelas canções românticas. Casada com o músico Ademir Tavares de Sousa, Neusa Maria tem duas filhas e dois netos.
No final de 2011, a entrevistada de hoje gravou o CD “Aconteceu”, trabalho que ela considera um presente divino pela qualidade da produção. Gravado pela Trattore, distribuidora de artistas independentes para o Brasil e Exterior, seu trabalho já chegou até mesmo ao Japão, na loja Taiko Record de Tókio. Confira estas e outras histórias a seguir.
Jornal da Cidade - Quando você cantou pela primeira vez?
Neusa Maria Vieira de Sousa - Eu era bem criança, devia ter uns 10 anos, no máximo. Eu cresci no meio da música porque o meu pai, José Vieira, foi um músico brilhante, muito conhecido pelo seu talento. Ele tocava violão de sete cordas e acompanhou muitos artistas. Ensaios e músicos eram frequentes em nossa casa. E um belo dia, na casa de amigos ou parentes, não me lembro, o meu pai virou para mim e disse: Neusa Maria, cante uma música que eu gosto muito e que eu sei que você aprendeu! Era uma música da Isaura Garcia chamada “Como dói”. E todo mundo achou uma maravilha (risos).
JC - Eu nem preciso perguntar como foi a sua infância (risos).
Neusa Maria- Foi uma infância musical. Faço parte de uma família de seis irmãos, mas só eu segui esse caminho. E acho que meu pai já percebia essa minha tendência, que é um dom divino. Hoje eu digo que a música, o meu canto, são presentes de Deus em minha vida. Em casa, havia muitas rodas de samba e eu ficava ouvindo as músicas da década de 1930, aprendi todas elas e ainda gosto muito. São músicas atuais, ou melhor, atemporais, como as canções de Dalva de Oliveira...
JC - Profissionalmente, quando você estreou no palco?
Neusa Maria- Uma coisa foi puxando a outra. Eu comecei cantando em festas e, quando vi, já estava com registro profissional e com o Grupo Gota d’Água. Hoje somos Gota d’Água somente, eu e o Ademir, meu marido, ao lado de alguns músicos que nos apoiam em algumas apresentações. Muitos e ótimos músicos já passaram pelo grupo.
JC - A história do casal se funde com a do grupo?
Neusa Maria- Na verdade, o Gota d’Água, que já tem quase 30 anos, nasceu quando já estávamos casados. Minha família se mudou para São Paulo quando eu tinha 4 anos de idade e voltou anos depois. Eu fiquei até conseguir a transferência do Banco Itaú, onde eu trabalhava. Bem, naquelas minhas vindas para visitar meus pais, eu fui a um salão de beleza fazer as unhas e ouvi um tocar de violão. Perguntei para a manicure quem era e ela me disse que era o seu irmão. Foi amor à primeira vista. Não resisti. Eu era ousada para a época (década de 70) e quando a minha cunhada pediu para ele tocar para a gente, eu comecei a cantar... Eu era diferente mesmo, um pouco “atiradinha” e fazia o que eu tinha vontade (risos). Acho até que ele ficou assustado comigo.
JC - Filha de músico que se apaixonou (também) por um músico...
Neusa Maria- Pois é (risos). A gente se conheceu e eu o convidei para ir até a minha casa conhecer o meu pai. Ele não levou muito a sério o talento do sogro até que o ouviu tocar. Ficou babando e sem graça de tocar em seguida (risos). Todas as manhãs de domingo havia saraus em minha casa. Meu marido costuma dizer que nunca viu um carisma como o do meu pai em outro ser humano. Vinha gente de tudo quanto é canto para essas festas musicais em casa.
JC - E foi assim que o Gota d’Água nasceu?
Neusa Maria- Eu e Ademir moramos com meus pais por uns dois anos até construirmos nossa casa. Ademir era músico de rock, pop, outro estilo. E ele ganhou um cavaquinho do meu pai, que o ensinou o chorinho. Ele aprendeu e, um dia, foi chamado para tocar. Tocou e foi a glória para ele, segundo ele mesmo diz (risos). Gostou tanto que quis fazer daqueles encontros uma coisa profissional, e foi assim que surgiu o Grupo Gota d’Água: nesse ambiente e nessa condição: violão, cavaquinho, pandeiro... Inclusive com meu pai na primeira formação.
JC - Você gravou um CD no final de 2011, o “Aconteceu”.
Neusa Maria- Tem uma música inédita, que dá nome ao disco, de um compositor bauruense, Júlio Furtado, com a composição do paulistano Flávio Franco Araújo, produtor do disco de São Paulo. Para mim, esse CD é um presente de Deus. Eu acredito que Ele usou uma pessoa maravilhosa, a Isabel Catarina de Melo Sena, para me ajudar. Ela é uma amiga de muitos anos que eu reencontrei depois de muito tempo. Ela disse que gravaríamos um CD e investiu nisso. Deu-me esse presente gravado pela Trattore, distribuidora de artistas independentes para o Brasil e Exterior, que já chegou até mesmo ao Japão, na loja Taiko Record de Tókio. O repertório, composto por 14 faixas com o melhor da MPB, foi feito para emocionar. Levou mais de um ano para ficar pronto e traz canções de aristas como Noel Rosa, Vinicius de Moraes e Toquinho, Tom Jobim, João Bosco...
JC - A sua voz é inconfundível. Isso já deve ter rendido boas histórias...
Neusa Maria- Sim. Inclusive eu tenho uma passagem pitoresca sobre a minha rouquidão. Fui fazer um curso de técnica vocal, há alguns anos, e quando chegou a minha vez de soltar a voz, ouvi que não era para eu fazer porque eu devia ter um galo enorme nas cordas vocais por causa da minha rouquidão. Imediatamente marcaram fonoaudiólogo e otorrinolaringologista para checar isso e eu continuar com as aulas e os testes. Bem, fiz tudo e mostrei para eles que nunca tive nada de errado nas cordas vocais e que a minha voz é diferente assim mesmo.
JC - Como foi para um casal que trabalha principalmente na noite criar duas filhas?
Neusa Maria- Nós já trabalhamos muito mesmo e foi muito difícil criar as meninas por causa dos inúmeros compromissos. Mas eu tive uma sogra maravilhosa, que ficava com as crianças até a gente chegar em casa. Nós já temos dois netos lindos.
JC - Uma mania.
Neusa Maria- Cortar, pintar, modificar... Enfim, adoro ir ao espelho e mexer no cabelo. Tenho um arsenal no banheiro, parece um camarim. Para você ter ideia, eu vou a cabeleireiros, mas somente eu tenho as “manhas” de deixar o meu cabelo do jeito que eu gosto (risos). Eu mudei o dia das fotos para o CD porque não gostei do resultado do meu cabelo no salão. Fui para casa, fiz do jeito que eu queria e remarquei o dia das fotos.
JC - Projetos futuros?
Neusa Maria- Desaceleramos o ritmo dos shows porque estou dando um apoio para a minha filha com as crianças, que ainda são muito pequenas. Mas, para 2014, o nosso foco será voltado para a nossa carreira e o nosso disco, que é feito sobre clássicos da música brasileira.