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Aceituno Jr. |
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Os cemitérios ficaram floridos com inúmeras homenagens no Dia de Finados |
O homem que ‘buscou’ Mara Lúcia
Não são apenas as homenagens a familiares e amigos mortos que levam homens e mulheres aos cemitérios no Dia de Finados. Enterrados em Bauru, padres, benzedeiras, parteiras e outros personagens atraem a seus túmulos centenas de pessoas que acreditam em milagres e graças alcançadas por intercessão dos que já partiram. A sepultura mais visitada do Cemitério da Saudade ainda é a da garota Mara Lúcia Vieira, estuprada e assassinada em 1971. Um dos frequentadores assíduos do local, inclusive, tem motivos especiais para se emocionar por lá.
Desde 1972, Luiz Cláudio Valverde vai anualmente ao túmulo da menina, cujo corpo ajudou a procurar. Na época do crime brutal, ele integrava o Tiro de Guerra de Bauru e foi escalado para atuar nas buscas da criança, vítima da atrocidade ainda não esclarecida quando tinha apenas 9 anos de idade.
“Demoramos quatro dias para encontrar o corpo. Estava em uma casa abandonada lá na (avenida) Duque de Caxias, perto do vaso sanitário. Uma dor que eu sinto é por, até hoje, não ter acontecido nada com quem fez aquilo com ela. Dizem que foi gente de dinheiro”, lembra.
A tradição de Luiz Cláudio é hereditária. Ontem, ele levou a neta Lívia Valverde, de apenas 6 anos, para conhecer o túmulo da menina Mara Lúcia pela primeira vez. Um pouco mais velha, sua prima Gabriela, de 15, já acompanha o avô há algum tempo.
“Eu gosto de vir. Todos os anos eu faço alguns pedidos para ela, principalmente pela minha saúde e pela minha segurança”, explica a adolescente.
Outro túmulo muito visitado é de dona Benta, famosa benzedeira que viveu em Bauru. A sepultura é repleta de santos, flores, velas e placas de agradecimento por bênçãos alcançadas. No toco da árvore que dá sombra ao local, hoje tomado por cupins, dizem já ter aparecido a imagem de Nossa Senhora.
Mesmo batizada na igreja evangélica, Sílvia Santiago, 49 anos, acredita que no poder dos túmulos milagreiros. Pela primeira vez, neste Finados, resolveu pedir ajuda a dona Benta. “Preciso muito de um emprego, não só pela questão de dinheiro. Acho que esse seria o caminho para eu me livrar da depressão e das crises de ansiedade. Eu sofro muito com isso”, conta.
O padre que cura
No Cemitério do Redentor, Wilson Aparecido Gabriel, 45 anos, garante que o finado padre Inácio curou sua cunhada de uma grave doença. “Ela estava desacreditada. Tem até uma placa de agradecimento dela lá”.
Depois do milagre alcançado na família, há uma década, Wilson cumpre o rito anual de visitar a sepultura do padre no Dia de Finados. Ele, no entanto, prefere manter em segredo a graça que pediu a Inácio ontem.
O religioso teria atuado na paróquia São Benedito e morreu por volta dos 30 anos. No entanto, informações mais precisas sobre os anos em que viveu não estão disponíveis em seu túmulo, por conta das placas de bronze furtadas.
Esmeralda Turoli, de 77 anos, espera que o padre lhe conceda a cura para fortes dores na coluna e para a hipertensão. Ela também tem o hábito de, todos os anos, acender velas pelas almas esquecidas.
Pelas grávidas
Também no Cemitério da Saudade está enterrada a parteira Maria Nunes, em 1917. Atualmente, mulheres grávidas em gestações de risco procuram seu túmulo em busca de uma boa hora. Ela era conhecida por ajudar as pessoas mais pobres. Há quem diga que teria trabalhado como prostituta.
Outro túmulo muito visitado é o de João Henrique Diz, o primeiro “morador” do Cemitério da Saúde. Segundo memorialistas, ele doou o terreno para a construção do local, inaugurado em 1908. Um dia depois da solenidade, teria cometido suicídio com um tiro no coração para que fosse o primeiro sepultado de lá.
Oração e flores para quem busca a luz
“Oferecer sufrágios aos nossos irmãos que já partiram e ainda não chegaram até Deus, que ainda não estavam preparados para isso, que ainda não tiveram tempo suficiente para estarem perto do Senhor”. Vigário da paróquia São Judas Tadeu e reitor do Seminário da Diocese de Bauru, padre Gustavo Natividade explica o sentido do Dia de Finados, que levou, neste sábado, milhares de pessoas aos cemitérios públicos e particulares da cidade.
Na manhã de ontem, ele celebrou missa na capela do Jardim dos Lírios e contou que a data nasceu dentro da Igreja Católica e foi escolhida para o dia seguinte ao que se comemora, em todo o mundo, o Dia de Todos os Santos.
“Em todos os países, essa celebração acontece em 1º de novembro e é uma homenagem a todos aqueles que já estão com Deus, independentemente de já terem ou não sido reconhecidos como santos pela Igreja. É o que chamamos de Comunhão dos Santos. No dia seguinte, portanto, a gente se lembra de todos aqueles que amamos em vida, mas ainda não chegaram ao Senhor”, diz o padre.
Natividade observa, contudo, que, no Brasil, o Dia de Todos os Santos é comemorado no primeiro domingo do mês; no caso, hoje.
Católicos e ministros da Eucaristia, Maria Elizabeth Martinez, 48 anos, e José Martinez, 49 anos, contam que a fé os manteve de pé após a morte da filha Juliana, no ano passado.
Apegada ao terço, Maria assistiu à missa após acender velas e orar diante do túmulo da filha no Jardim dos Lírios. “É uma data muito especial. As flores que deixamos e todas as nossas preces são elevadas ao céu para que as almas alcancem a luz eterna”, acredita o pai da jovem que partiu aos 25 anos de idade.
Muitos comprovaram, ontem, a tradição da visita ao cemitério em família no Dia de Finados.
Este foi o terceiro ano em que parentes de Maria Paschoalina de Sousa, que morreu em janeiro de 2010, se reuniram em volta do túmulo e oraram por sua alma no Jardim dos Lírios. O marido Jairo, o filho Leonardo, o neto João Vitor, a nora Jovana, os cunhados João, José e Maria, e os sobrinhos Paulo, Ana Cláudia e Lilian não contiveram a emoção na manhã de ontem.
Primeira vez
Débora Bernardini Caversan, 20 anos, também não segurou as lágrimas e dedicou muitos minutos de orações à tia avó falecida há dois anos. Ontem, foi a primeira vez em que a jovem visitou o túmulo onde também está enterrado seu avô, que não chegou a conhecer, além de tataravós, bisavós e tios.
“Foi muito difícil dar adeus e vir aqui, me lembrar de tudo, dá um aperto no coração muito forte”, conta a moça, acompanhada da avó Maria da Glória Lopes Bernardini, 65 anos, e do “vodrasto” Braz Ferreira Ferro, 61.
Já o casal Iraí Leôncio, 43 anos, e Marco Aurélio Souza, 34, cumpriu o ritual de limpar, com bucha, água e detergente, o túmulo onde estão enterrados seus familiares. “Meu irmão e minha mãe estão aqui. Ela adorava limpeza em vida. Então, faço isso sempre”, contou Iraí, na manhã deste sábado (02), no Redentor.
As flores
O Dia de Finados também aquece o mercado das flores. Todos os anos, Ray Alves Couto expõe algumas delas na frente do Cemitério do Redentor. Ele que tem uma loja na Ceagesp, relata que as vendas aumentam 50% às vésperas de 2 de novembro.
Ray explica que, em razão da maior durabilidade, os crisântemos grandes e médios são a espécie mais procurada por aqueles que querem homenagear seus familiares e amigos. No entanto, a violeta e a kalanchoe também são bastante vendidas para os cemitérios.
Com música
Uma novidade no Jardim dos Lírios chamou a atenção e emocionou muitos familiares e amigos de pessoas enterradas no cemitério. Após a realização da missa, a Orquestra da Igreja Evangélica Assembleia de Deus - Ministério Belém executou canções religiosas.
Sem parentes no local, Dorival Cury, 85 anos, foi ao cemitério quando soube da apresentação musical. “Vim à missa também. Isso aqui é muito lindo, ainda mais embaixo de uma frondosa árvore como essa. O lugar transmite paz e tranquilidade”, disse.