Há dias o JC publicou em seu espaço Opinião matéria intitulada "Alameda dos sonhos despedaçados", de autoria do ilustre colega Otavio Augusto Calmon Borges, por sinal muito interessante, rica, oportuna e, a meu ver, de muita profundidade, pois traduzindo a realidade contém ponderações que são irrefutáveis, preocupantes, com muita razão motivos do seu inconformismo do qual compartilho. Dentre as muitas colocações feitas com muito discernimento e coberto de razões que certamente ninguém ousará contestar, mas procurará justificar assim como "os tempos mudaram, são outros, temos que acompanhar o progresso...", afirmou que as crianças já não sonham e não querem mais ser crianças, querem crescer e se tornar adultos depressa, enfim, de que a infância, passou a ser a parte inicial de um ciclo da vida humana, não possuindo mais devaneios para imaginar e futuro para buscar. Entendo que são colocações reais e facilmente observáveis por qualquer educador, cidadão ou pai.
Hoje, de modo geral, a criança não brinca mais com boneca, de caminhãozinho, de fazendinha, de amamentar como sua mãe faz com o irmão que nasceu, de professora, de dona de casa ou de ser dono de uma venda, de vender produtos que ela fez ou elaborou para outras crianças, para os amiguinhos, na calçada em frente à sua casa, de folhear livros infantis, de imaginar, de observar, resumidamente, de criar, que é um dom inato na criança. Enfim, hoje a criança não tem mais amiguinhos que brinquem em sua casa ou que brinque na casa deles a não ser os que encontra na escola; fora dela está se tornando uma pessoa solitária que se comunica mesmo com outra ou amigo que se encontra na própria casa, através do celular, ipad, facebook. Hoje a criança, ao comemorar o seu segundo aniversário, já ganha do pai um similar de celular com joguinhos eletrônicos que fará com que ela fique quieta, "dando sossego", ou para mostrar sua habilidade como as outras crianças, sua genialidade ou precocidade. E, a partir desse momento, exigirá outros melhores e mais sofisticados produzidos por terceiros, indústria e não por ela. Com isso, sua capacidade criadora passa a ser anestesiada.
A propósito dessa defasagem da infância, o caderno Ciência e Saúde, da Folha de São Paulo, edição de 27 último, domingo, traz excelente artigo que vem completar o que o autor bauruense afirmou e eu ratifico, sob o título "Toda criança nasce cientista", escrito por Marcelo Gleiser, professor de física teórica no Dartmouth College, Hanover (EUA), autor do livro "Criação imperfeita". Autoridade em física e em educação principalmente por ser pai de cinco filhos que fazem as diabruras naturais próprias da idade, ressalta em seu artigo: "Para as crianças, a vida é um grande experimento; até entrarem na escola ou serem ?pegas? pelos pais". "E o melhor de tudo é que ao ensinarmos também aprendemos."
E complementa ainda: "O grande físico Isidor Rabi, vencedor de prêmio Nobel costumava dizer que os cientistas são os Peter Pan da sociedade, aqueles que não querem crescer, que passam a vida perguntando ?por que?". Concluindo sobre as duas matérias, também como educador, avô e bisavô, recomendo aos pais: deixem seus filhos brincarem e retardem ao máximo a entrega do primeiro joguinho digital como presente. Sei muito bem que não é fácil, mas necessário para o futuro. Porque é bem provável que estejam sufocando um futuro cientista.
O autor, professor Joaquim Eliseo Mendes, é membro efetivo da Academia Bauruense de Letras