08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Cangaço moderno


| Tempo de leitura: 3 min

Por uma curiosidade, comprei já faz um bom tempo um livro, queria saber na realidade o que se passou no sertão nordestino mostrado por uma pessoa que conheceu e sentiu na carne tal flagelo, além de muito culto. Era ele o dr. Ranulfo Prata, médico sergipano, que inclusive exerceu sua profissão aqui bem perto, na cidade de Mirassol, não sei se ainda vive, mas sua obra é para ser lida com olhos de um estudioso, e não por simples curiosos. Independentemente da descrição dos horrores praticados pelos facínoras e seus asseclas, ele também relatou com fatos momentos inacreditáveis que aconteceram naquela época. Como hoje, os bandidos estavam bem mais providos de bom armamento do que os policiais que lhes foram postos no encalço.

Os fazendeiros temiam os bandidos, e nunca negavam os pedidos de dinheiro que lhes eram feitos, a troco de não fazerem nada a eles e terem uma suposta proteção. Como hoje, mentes iluminadas faziam os mais estranhos planos de acabar com o cangaço, o dinheiro do governo era pouco e também mal empregado com as volantes, que sempre iam para o sul quando sabiam que eles iam para o norte. Mas um gênio mais evoluído ordenou que os sertanejos largassem tudo ou quase nada que tinham, alguns animais, uma pequena roça, os poucos utensílios domésticos, a ideia era esvaziar o sertão. Houve o grande êxodo de mil novecentos e trinta e dois, saíram de suas propriedades sem rumo e sem destino arrastando o sofrimento e a miséria. É lógico que a ideia não funcionou só aumentou o sofrimento do sertanejo.

A selvageria foi da turma que chacinou os cangaceiros, quem foi mais bárbaro? Os caçadores de cangaceiros tinham a promessa de ficarem com o tesouro dos que matavam, e as cabeças deveriam ser cortadas, para provar que era verdade e que o homem não tinha o corpo fechado, e que não outro dos mais de mil boatos que ele estava morto. Houve entre eles até brigas e mortes pela divisão do dinheiro, ouro, muitas jóias e até dólares. Foi feito um festim macabro com as cabeças dos bandidos.

Mas eu estou citando estes fatos para ter uma resposta da justiça, do governo, das autoridades competentes ou sei lá de quem, só que é preciso que ela apareça de algum modo.

Estes dias bandidos bateram no carro de uma jovem que ia para a faculdade, ela desceu e simplesmente recebeu vários tiros, e está agonizando num leito de hospital, isto às dezenove horas. No Rio de Janeiro, mataram um comerciante, que era marido de uma policial, cortaram a cabeça, puseram numa sacola e mandaram para a esposa dele. Agora eu pergunto: o que é que está acontecendo? Na época do cangaço, nos anos vinte e trinta, era o analfabetismo, a pobreza, o coronelismo, e hoje? A vida do cidadão não vale nada,ou as leis estão pra lá de atrasadas.

Quando o Pelé marcou o seu histórico milésimo gol, fez talvez o pronunciamento mais importante de sua vida, sobre as crianças, mas é como se diz: "as palavras o vento leva". Hoje a sociedade está pagando muito caro por não ter feito nada sobre o tal comentário, até ironizaram. Infelizmente os políticos não acordaram, estão no árduo trabalho e caro para o progresso dos seus bolsos e o que importa é que a Copa do Mundo está chegando.

Flávio Reis