08 de julho de 2026
Articulistas

Brasil e empresas com farol baixo

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 4 min

O Brasil e as empresas andam de farol baixo, essa é a razão por que não deslancham. Na sua coluna semanal na Folha de 25/10, a ex-senadora Marina Silva diz: "Devo insistir: o Brasil sente falta de um olhar estratégico. Ver em prazos longos, vislumbrar cenários futuros, traçar o caminho para as metas, pactuar responsabilidades, compartilhar confiança". No mesmo jornal, o engenheiro José Roberto Boisson de Marca, presidente do Instituto de Engenheiros Elétricos e Eletrônicos (IEEE), comenta em entrevista: "O foco no curto prazo representado pelo esforço para dar ao mercado bons resultados trimestrais, impactando positivamente o valor das ações da empresa, pode se chocar com o desenvolvimento tecnológico, cujos frutos são mais lentos". Governo e empresário dirigem de farol baixo para vencer as condições adversas, um de olho na próxima eleição e outro no valor das ações.

A preocupação com a próxima eleição leva o governo a agir só no curto prazo ou a criar projetos de longo prazo que, ou ficam só no papel ou são apenas iniciados e nunca terminam. Qualquer pessoa desapaixonada e esclarecida sabe que o programa "Mais Médico" não vai representar nenhum avanço no problema da saúde pública. É verdade que poderá trazer alguma melhoria na condição de saúde de populações que não contam com quase nada, orientando para medidas preventivas, realizando pequenas intervenções e receitando remédios tradicionais. Quando terminar será como o motorista que viu um obstáculo próximo, desviou, prosseguiu a viagem e o obstáculo continuou. Se fizesse parte de um plano de longo prazo, fruto de uma estratégia para dotar o país de um sistema abrangente de saúde pública, aí sim, estaria correto e poderia ter continuidade em outras administrações. Dizemos ?poderia?, porque os nossos governos têm sido avessos aos projetos de longo prazo. A rodovia transamazônica, do governo militar, até hoje não terminou. O mesmo está acontecendo com o fabuloso projeto de transposição do Rio São Francisco. Está em situação de abandono, após ter consumido alguns bilhões de reais. O custo previsto de 5 bilhões já passa dos 8 bilhões de reais. Está empacado, como a maioria dos projetos do PAC. E cavalo empacado anda para trás.

Em meados do século passado, o presidente da Freudenberg veio ao Brasil, comprou uma grande área de terras em Agudos, plantou pinus e aguardou 15 anos para construir a fábrica de chapas de madeira, às margens da Rondon. Hoje está bastante modernizada e ampliada pela Duratex, enriquecendo o parque industrial de Agudos. Ozires Silva sonhava em ser piloto e em fabricar aviões. Tornou-se aviador e foi piloto do Correio Aéreo. Continuava sonhando em fabricar aviões quando lhe disseram que era preciso ser engenheiro da Aeronáutica e que ele teria créditos para cursar o ITA. E foi o que ele fez. Formado engenheiro aeronáutico pode criar o projeto do seu sonho e saiu a convencer brigadeiros e ministros até que fundou a Embraer, que hoje ombreia com as maiores do mundo. É assim que se produz riqueza. Infelizmente, as revolucionárias mudanças tecnológicas e no mercado financeiro, proporcionando ganhos extraordinários em pouco tempo, estão dando aos negócios o fascínio dos jogos e afastando o esforço para produzir riquezas.

O desejo de ganhar eleições, para assumir e se perpetuar no poder e o desejo de riqueza fácil e rápida, vêm prejudicando o nosso país. Plantar soja e extrair minério são interessantes para os que querem retorno rápido, mas desinteressante para o país, porque exaure as riquezas naturais e ajuda outros países que agregam valor, industrializando-os e vendendo para o Brasil. Usar a engenharia reversa, isto é, desmontar máquinas importadas para fazer iguais aqui é uma prática bastante difundida, permitindo um retorno rápido sem precisar investir em pesquisa, mas atrapalha o desenvolvimento, porque ficamos sempre na rabeira e sem nenhuma capacidade de competir. Para o governo é mais cômodo dar incentivos em forma de renúncia fiscal e de financiamento com juros subsidiados, o que, de igual forma, em vez de contribuir, atrapalha o desenvolvimento, porque para o empresário é mais interessante investir o dinheiro do governo na empresa e aplicar o dinheiro ganho na produção, jogando na bolsa ou em investimento imobiliário. Com a arrecadação sempre aumentando, para o governo é mais fácil e de maior impacto eleitoral, soltar dinheiro aos montes, como a Dilma vem fazendo agora, do que o desgastante esforço de elaborar e conduzir projetos de educação, de saúde, de saneamento básico, de transporte e de segurança, de longo tempo de preparo e de realização, que devem abranger gerações.

O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru e membro da ABLetras