Depois de vinte anos de chicanas dos advogados o Tribunal de Justiça de São Paulo conseguiu condenar o ex-prefeito e ex-governador Paulo Maluf por superfaturamento de obras. O Túnel Ayrton Senna que passa sob o Parque do Ibirapuera estava orçado em R$ 147 milhões, em 1993; custou R$ 728 milhões, ou R$ 2,2 bilhões em valores de hoje. Maluf foi condenado com as empreiteiras a devolver as verbas aos cofres públicos. Mesmo os mais otimistas sabem que ele e os corruptores não vão devolver nada do que saquearam à prefeitura. E, além disso, podem continuar impunes, se as instâncias superiores demorarem a apreciar os recursos. O ex-prefeito paulistano deixou de ser sinônimo de corrupção no Brasil. Ele é exemplo de impunidade. Este sentimento de ineficácia das leis é que encorajou os responsáveis pela arrecadação da prefeitura de São Paulo ao golpe de mais de R$ 500 milhões sonegados em impostos por incorporadores imobiliários.
Os réus poderosos se valem de recursos protelatórios não acessíveis às pessoas comuns, para adiar o cumprimento de penas até a prescrição. Todo mundo sabe que o problema não é do juiz, mas da legislação processual brasileira, que não tem paralelo no mundo em matéria das possibilidades infinitas de recursos. E ninguém faz nada para corrigir esse excesso prejudicial aos interesses da sociedade. O próprio ministro-chefe da Controladoria Geral da União, Jorge Hage confessa que "processo no Brasil contra criminoso de colarinho branco endinheirado só termina em menos de 20 anos se ele quiser". E se sabe disso, por que não age? - com o perdão pelo trocadilho.
Os fundadores da nossa República, Floriano Peixoto e Benjamin Constant tiveram o cuidado de tirar a palavra amor da frase de Augusto Comte que está inscrita na bandeira nacional. Não por desamor, mas para que os brasileiros se sentissem seguros de que ao Estado competiria garantir "ordem e progresso". O amor seria cultivado espontaneamente pelos cidadãos, e dedicado no altar da Pátria em louvor à grande dama republicana. Ainda vão deixar a ilustre senhora só com as roupas de baixo. A impunidade leva à descrença. Corrupção vira esperteza. Os brasileiros não acreditam em mais nada. "Locupletemo-nos todos" - clamava a flor dos Ponte Preta, o humorista Sérgio Porto. Pesquisas da Fundação Getúlio Vargas mostram que 95,1% da população não confiam em partidos políticos. O Congresso Nacional é rechaçado por 81,5%. As Forças Armadas, a Igreja Católica e o Judiciário dividem a opinião do povo e vêm perdendo terreno. Os brasileiros condenam as instituições corruptas ou ineficientes.
O lado positivo da pesquisa é que os habitantes da terra brasilis aumentaram a credibilidade nos valores da solidariedade e da liberdade para desfrutar a vida. O amor que deveriam tributar à República passou a ser praticado em benefício próprio, como esperado nas sociedades burguesas. Gostamos de todos os espaços de distensão, desde o bom papo, a música, o esporte, a balada, o churrasco com os amigos. Nisso consiste a felicidade, o que já não é pouco. A comunicação amplia a sua presença nas redes sociais. Religião? Qualquer uma serve. O brasileiro é capaz de dar culto a várias confissões ao mesmo tempo.
Observador arguto, o correspondente do jornal espanhol El País, Juan Arias, acha o brasileiro muito parecido com o italiano. Ambos votam em candidatos que possam obsequiá-los com mais favores. Para comprovar sua tese do padrinho político da vez, o jornalista lembra uma afirmação irônica do romancista João Ubaldo: no Brasil o movimento dos "indignados" não se sustenta porque o sonho dos brasileiros é "ter um político corrupto" na família para que este resolva todas as suas penas e problemas.
A valer o conceito do escritor baiano, vamos ainda conviver por muito tempo com a corrupção e a impunidade. Basta que os políticos continuem na ajuda pontual aos apadrinhados.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC