09 de julho de 2026
Articulistas

Finanças na adolescência

Reinaldo Cafeo
| Tempo de leitura: 3 min

Que vivemos a denominada sociedade de consumo não há dúvidas. Isso induz as famílias a conviverem com o que podemos chamar de verdadeira roda vida. Trabalho árduo para elevar ou manter a renda. Se a renda eleva, mais consumo, gerando um ciclo sem fim. Evidentemente que há o consumo dos bens essenciais, mas o que se observa é o crescimento de gastos nos chamados bens superfluos.

Isso tudo é potencializado quando analisamos o comportamento de consumo dos adolescentes. Esta geração tem um posicionamento diferente dos adolescentes do passado. Por inúmeras razões, inclusive de segurança, mudaram o comportamento no dia a dia. Frequentam mais shoppings (no passado os adolescentes tinham convivência em suas casas e até mesmo na rua), utilizam mais a internet, vivem com seus smarts fones e nasceram digitais, inclusive consumindo bens que possuem vida útil curta, portanto, descartando-os mais rapidamente. Entre outros rótulos podemos chamá-los de geração do descartável.

Como conviver com esta geração no tocante ao consumo? Os pais devem atender a todos os desejos? Como falar não? Faz parte da educação financeira mostrar o quanto é dificil conseguir uma renda que seja capaz de adquirir todos os bens desejados. O que não pode ocorrer é o sentimento de compensação, ou seja, como muitos dos pais não tiveram acesso a muitos bens, querem agora compensar, fazendo de tudo para atender a todos os desejos destes adolescentes. É preciso estabelecer limites e que sejam entendidos em todas as suas dimensões.

Para citar alguns exemplos, verifica-se que entre vários "sonhos" de consumo está a ditadura da moda que tem nos produtos de "marca" seus carros chefes. Além da moda há o salão de beleza, os ambientes "chics", o lanche da multinacional e uns cem números de outros desejos.

De um lado estes adolescentes se não ostentarem certas marcas de produtos terão um sentimento de exclusão do meio social. Se sentem até populares quando conseguem um produto caro, diferenciado. Muitas famílias estão se endividando por não estabelecerem limites neste comportamento. É legal possuir um bem diferenciado? Utilizar um produto com uma marca reconhecida? Um tênis de uma marca específica? As respostas podem até ser sim. Mas a pergunta que nao quer calar: há recursos para isso? Isso é mesmo importante?

Entre vários itens que compõem a educação financeira do adolescente certamente está o item valor, não no sentido de quanto vale o bem, mas sim nos valores que devem praticar, como humildade, sinceridade, amizade, companherismo e não ostentação, menosprezo e tantos outros itens que o dinheiro pode comprar.

Na prática os filhos são reflexos dos pais e educadores. Os responsáveis pelos filhos devem deste a infância estabelecer limites de consumo e demonstrar com clareza o quanto é difícil ganhar dinheiro e manter um patamar de consumo elevado. Evidentemente que há aqueles que nasceram em condições financeiras mais vantajosas, mas mesmo estes devem ser educados para vida financeira. É o que podemos chamar de dar valor às coisas.

Uma educação completa impõe limites, ensina que o equilíbrio da vida está em utilizar os bens materiais para melhorar a vida e que os verdadeiros valores não estão em possuir, ter coisas, mas sim em ter uma consciência coletiva, em forjar cidadãos que pratiquem a solidariedade e que sabem que o melhor é ser reconhecido pelo que efetivamente a pessoa é.

Não é tarefa fácil. Como já colocado, esta geração nasceu digital, se isola, pula etapas na vida, são sedutores desde cedo e cresceram com os descartáveis, com a falta de perenidade. A educação completa passa por ensinar os limites em cada etapa da vida. Se há adolescentes consumistas, muito de deve a permissão que os pais concederam. Nunca é tarde para rever essas questões. Isso vale tanto aos pais, como para os filhos adolescentes. Viver com mais simplicidade pode ser um primeiro indicativo.

O autor, Reinaldo Cafeo, é economista, diretor region al do Corecon e articulista do JC