A compulsão com o universo da linguagem pelos conteúdos sonoros arrebatou a conhecida, e consagrada, fertilidade artística dos arranjos melódicos do cantor, violonista e arranjador Celso Viáfora e o resultado está pronto para ir às bancas no livro “Amores Absurdos”, a estreia do autor pela narrativa literária. A despeito da humildade, Viáfora, apesar da trajetória que construiu sua reconhecida inscrição como uma das maiores expressões da música popular brasileira, arrebatou no romance a sensibilidade que costuma frequentar suas canções.
Lançado no mês passado, o processo de desvirginar a literatura em “Amores Absurdos” oferece a quem gosta de beber da água romanceada, com a mesma sede com que Viáfora empresta seu talento a harmonias musicais, a inusitada e não menos elaborada relação de capítulos com versos. Daí a produção ser lançada também no formato e-book, permitindo o sabor da leitura mergulhado às abstraídas canções produzidas por Viáfora para o elã com capítulos do livro.
“Devo este romance às letras de canções, cuja prática diária de tantos anos me encoraja a escrevê-lo”, revelou logo na primeira frase do livro. É a canção a empréstimo da literatura, esta produzida em primeira pessoa, e uma espécie de romance musicado, com o que se lê ou se ouve, via e-book, atento ao mundo à sua volta. Em entrevista ao JC, Celso Viáfora justificou que a estreia na literatura veio de um período de “recesso produtivo” a que artistas costumam ser submetidos em algum tempo de suas carreiras e por alguma razão. Recesso, que nada! Os nove meses dedicados a “Amores Absurdos”, entre julho de 2012 e março de 2013, se transformaram em uma produção quase compulsiva de histórias, reflexões, “por períodos de 18 horas ao dia na frente do computador em muitos momentos”, conta o autor. Assim, o compositor e escritor Celso Viáfora nos conta, em entrevista antes de show que realizou em Botucatu (SP), sobre sua estreia na literatura:
JC – Você estreia com um romance musicado. O projeto saiu de madrugadas, de um devaneio, de onde você bebeu nessa literatura?
Celso Viáfora – Na verdade o romance tem vida independente do CD e ele nasceu de um período de crise criativa musical. As coisas não aconteciam. E quando fico sem criar, fico tristonho. Então um dia acordei de madrugada e comecei a escrever algo que não sabia o que era. Isso me tomou completamente. E veja o acaso, dois dias depois eu quebrei o dedo e tive de ficar algum tempo parado e aí comecei a escrever 18 horas por dia e o romance foi tomando forma em minha cabeça. Não parei mais. Começou um pouco de uma história de uns sonhos.
JC – Que sonhos?
Viáfora – Eu fiquei um tempo antes sonhando seguidamente com algumas pessoas e fui um pouco além dessa história no romance. Mas basicamente, na vida real, é um cara que é um compositor que abandona a carreira para ser publicitário e é apaixonado por uma cantora de festivais na época. Essa história de festivais ia passar meio ao largo. Mas o Mauro Dias, uma vez, quando eu comecei a contar a ele que estava escrevendo sobre isso, me disse que era interessante que minha geração passou pelos festivais, o Lenine, Chico César, Nilson Chaves... uma série de pessoas. Ele achou legal escrever sobre isso para documentar um pouco esse período, porque não tem história abordada por dentro desse período. O livro é fictício, de personagens fictícios, mas coloquei algumas histórias reais que aconteceram em festivais.
JC – Mas foi só um exercício de escrita a partir de uma fase de abstinência musical?
Viáfora – Eu já havia escrito dois romances que joguei fora. Então pra mim seria, inicialmente, mais um desses períodos para não ficar sem essa chama de tentar riscar o fósforo. Essa vida paralela dos sonhos foram fazendo as histórias chegar na minha cabeça. E o curioso foi que eu fiz essa história de livro com trilha sonora e com e-book sem pensar muito, onde as pessoas podem ler o livro eletronicamente e ouvir a música sem parar de fazer a outra coisa. Foi absolutamente sem querer isso.
JC – O que a vivência musical proporcionou para o escritor de romance?
Viáfora – Eu leio muito e acho que tinha de ter um mínimo de confiança no que eu estava elaborando. Como compositor eu não faço mais nada que não sinta uma necessidade visceral de dizer algo. A canção sai quando eu preciso dizer algo por ela. Isso me ajudou no livro. Não pode ser só um exercício de linguagem, um exercício de escrita. Chegou um momento em que eu estava completamente apaixonado pelo personagem, como se eu fosse o próprio personagem. O livro é um elemento de procuras. É um romance de procuras, dos personagens entre si. Convido as pessoas a compartilharem desses sonhos e histórias comigo.