08 de julho de 2026
Bairros

F A V E L A com tijolo, led e celular

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 3 min

As paredes eminentemente de tapumes deram lugar a tijolos, o teto não é mais de arranjos do mato e a chuva já é ‘barrada’ por telhas, o fogão nem sempre é a lenha, a geladeira passa a ser eletrodoméstico possível - ainda que em longas prestações no crediário - e no cômodo que mistura quarto e sala, a TV de plasma já está presente em inúmeros imóveis. Em alguns, inclusive, com acesso a canais com sintonia por satélite.

Esta é a fase de transição na mutação do perfil da nova favela em Bauru, fenômeno que também atinge outras vielas e guetos da periferia brasileira ocupada de forma precária e irregular em nome da sobrevivência.   

O conceito de favelização mudou no Brasil e, por consequência, em Bauru. Não obstante as cerca de 2.300 moradias precárias da cidade ainda estejam sendo habitadas por brasileiros migrantes, em boa parte com baixa formação de ensino e vivendo em áreas ocupadas de forma irregular e com deficiências de serviços públicos e infraestrutura sanitária básica, o perfil do favelado não é mais o mesmo dos anos 80, década em que a formação de aglomerados em barracos ganhou densidade em Bauru.

A “nova favela” continua sendo habitada, em sua maioria, por moradores que precisam de ajuda do poder público para capacitação e, com isso, ampliar a possibilidade de ingresso no mercado de trabalho, permanece carecendo de rede de água e saneamento básico e, sobretudo, de cidadania transformada em escritura - a regularização fundiária para consolidar o conceito de moradia.

Mas, de outro lado, o reposicionamento do País diante da estabilidade econômica também permitiu que uma parte significativa desses brasileiros também tivesse acesso a bens duráveis antes concebidos apenas da espera generosa de campanhas solidárias de datas comemorativas, quando brasileiros com algum comprometimento social destinam geladeiras, fogão e brinquedos para quem mais precisa.

A identificação da mutação da favelização pode ser observada a olho nu. Ao ingressar em alguns dos aglomerados subnormais - nome que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) dá às favelas no Censo Demográfico de 2010 -, é visível o grande número de construções em curso. Não há uma rua em que moradias não estejam recebendo tijolo, cimento e azulejo.

Aliás, outra informação in loco é que os tapumes, antes regra para sustentar paredes dos barracos, agora estão sendo utilizados para delimitar território. Estão improvisados como muros. Ao definir prioridades, o morador das favelas aplica recurso primeiro em alvenaria.

Realizada a proteção do lar pelas paredes, os moradores dos aglomerados começam a dar vazão ao sonho de consumo. Neste caso, basta olhar acima das paredes. Primeiro: os tetos ganharam telhas e, sobre eles, lá estão espalhadas antenas de televisão para captação de sinal por satélite e, em alguns “barracos”, sistemas de sinal de internet.

Nos cômodos, ao percorrer moradias do gênero em localidades como o Jardim Niceia, Jardim Andorfato e Ferradura Mirim, não foi difícil encontrar aparelhos de televisor com tela plana (de led ou plasma) e geladeiras (acessório escasso nesses locais até pouco tempo).

É claro, muitos ainda moram em situação precária, convivem com falta de renda e condições de difícil habitabilidade. Mas é muito difícil encontrar, nos aglomerados, quem não tenha pelo menos um aparelho de telefone celular, apesar de tudo.