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Fotos/Divulgação |
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Casagrande ainda não leu a parte 'pesada' de sua biografia |
“Tranca as portas. Coloca o DVD do The Doors. Senta-se diante de uma mesa. Primeiro, cheira três carreiras de cocaína. Toma uns comprimidos pra dar barato. Prepara, aí sim, o néctar, a estrela de sua festinha particular, uma seringa com heroína. Faz um torniquete, procura uma das poucas veias que ainda aguentam o tranco de uma agulhada. Enquanto a droga injetada vagueia pelo corpo, ele enxuga meia garrafa de tequila e, para dar a liga final, fuma um baseado”.
Essa era a rotina dos últimos dias da viagem solitária de Walter Casagrande Júnior ao inferno, e que por muito pouco não foram seus últimos por aqui. A cena descrita acima é um de seus testemunhos ao amigo e escritor Marcelo Rubens Paiva, que assina o prefácio do livro “Casagrande e seus demônios”, uma obra escrita a quatro mãos pelo ex-jogador e agora comentarista, juntamente com o jornalista e amigo Gilvan Ribeiro, bauruense entrevistado pelo JC.
“Fiquei encurralado por minha própria história”, explicou Casão – como é chamado pelos amigos, em entrevista para a Revista Veja. “Então, decidi contar tudo para que ninguém mais fique me perguntando sobre esse período negro”. E põe negro nisso.
Mergulhado no vício, Casagrande foi salvo pela família, pelo amor dos próximos e pela perseverança de um filho. “Havia entrado em convulsão. Seu corpo se debatia e fazia uma tremenda barulheira ao se chocar com os ladrilhos e o vaso sanitário. Entretido no computador, Leonardo ouviu o som da queda e tomou um susto. Veio correndo e bateu na porta: ‘Pai, pai, o que está acontecendo? O que está acontecendo?’, repetia, aflito. Casagrande ainda conseguia responder: ‘Calma, não é nada’. Mas também falava palavras desconexas. Só uma coisa passava por sua cabeça naquele instante: ‘Eu não posso morrer aqui, com meu filho do lado de fora do banheiro. Não posso morrer’!”.
Em 2007, internado à força em uma clínica de recuperação de dependentes químicos em Itapecerica da Serra, ficou quase um ano sem ver ninguém. Isolado. Foi afastado da Rede Globo. E até hoje luta contra seus demônios. “Eu tinha visões horríveis. Via demônios pelo apartamento inteiro. Eram maiores do que eu, com dois ou três metros de altura. O formato era de homem, só que muito maior. Os olhos, vermelhos, brilhavam. Tinha as orelhas grandes, o nariz também, a boca com os dentes caninos saindo pra fora”. Sozinho no apartamento, o ídolo da Democracia Corintiana já não tinha mais forças. Não comia. “Isso durou um mês, sei lá, um mês e meio.”
A biografia não lida
Os relatos são pesados. As cenas mais fortes detalhadamente contadas. Apesar de seu gosto musical ir da MPB ao blues, com Casagrande as coisas estão mesmo no ritmo do rock, daquele bem paulera. E no último volume.
Mas encarar a verdade é algo difícil até mesmo para quem convive com ela. “Eu sempre pergunto e ele dá umas voltas. Diz que leu algumas partes. Eu pergunto quais, e ele responde: ‘As mais tranquilas’”, lembra Gilvan Ribeiro, autor da biografia de Casagrande que o craque ainda não reuniu forças para ler.
Lançado neste ano, o livro levou mais de uma década para se tornar realidade. Em 2000, Casagrande iniciou o projeto em dupla com o guitarrista dos Titãs, Marcelo Fromer – também seu amigo, mas que morreria no ano seguinte.
O trabalho só foi retomado oito anos mais tarde, já com o bauruense Gilvan Ribeiro, que conheceu Casagrande como repórter quando o atacante vestia a camisa do Corinthians. “Mas só em 2011 as negociações foram concretizadas. Passei dois anos discutindo o negócio. Era complicado. As psicólogas que o acompanhavam tinham medo que recordar o passado mais pesado fosse uma brecha muito grande para que ele caísse”, diz Ribeiro.
Fruto da mistura perfeita entre futebol e rock, Casagrande viu seus ídolos morrendo jovens, e de overdose: Jim Morrison, Janis Joplin, Jimi Hendrix... “E durante muito tempo, cultivou certa atração por aquele fim fatal, como se fosse seu destino cumprir a sina de viver intensamente e morrer até os 30 anos”, escreve Gilvan.
Da Democracia Corintiana às drogas
Com 234 páginas, “Casagrande e seus demônios” é como um contra-ataque que passa de pé em pé, de Biro-Biro para Zenon, daí para Sócrates até chegar em Casagrande. Rápido, cativante e difícil de largar. Começa com o pior. “Casagrande expõe as entranhas de seu inferno particular com raro despudor”, diz Gilvan.
s páginas mostram uma sinceridade mais desconcertante que qualquer drible que tenha aplicado nos gramados por Corinthians, Caldense, Seleção Brasileira, Porto, Ascoli, Torino, Flamengo ou São Paulo. Passado o inferno, o livro chega ao paraíso. Conta com detalhes a carreira do velho guerrilheiro da bola, com alma de roqueiro.
“Casão jamais gostou de imposições”. Tem três filhos: Vitor Hugo, o mais velho, é palmeirense; Leonardo Hugo, o do meio, são-paulino; e Symon, o caçula, é santista. Todos frutos de um casamento de 21 anos com Mônica, ex-jogadora de vôlei do Corinthians. “Não poderia ser mais democrático”, diverte-se Gilvan. Afinal, Casagrande não faz questão nenhuma de esconder suas paixões.
Foi no Parque São Jorge que Casão conheceu Sócrates. Sua relação com o Doutor é um capítulo a parte – literalmente. Mas foi no clube alvinegro também, em dezembro de 1982, num show de Peter Frampton, que foi apresentado à cocaína.
Idas e vindas e somos apresentados aos bastidores da Democracia Corintiana. Às rusgas com Leão (Emerson Leão, o goleiro e técnico). A ida à Europa. O retorno. A biografia que conta a história do Waltinho que virou Casagrande é um livro obrigatório para quem gosta ou não de futebol. Para quem gosta ou não de Casagrande.
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Gilvan Ribeiro dá detalhes sobre obra que narra quedas e superações de Casagrande |
Gilvan e suas ‘tabelinhas’ com a polêmica
Gilvan Ribeiro nasceu em Bauru, em 31 de dezembro de 1964. Não queria ser jornalista. “Na verdade não queria era ser engenheiro, como meu pai, e nem jornalista, como meu irmão (Gilson Ribeiro). Sempre fui rebelde”. Foi por isso que ingressou na faculdade de Psicologia. Durou pouco. Largou após o segundo ano.
“Deceparam a cabeça de um velho e colocaram em um vidro com formol pra analisar neurônios, sei lá. Não conseguia deixar de olhar aquele velho dentro do vidro. Sai da aula, comprei uma garrafa de vinho e sequei ela inteira na sacada do meu prédio. Ali, entre uma garrafa de vinho na cabeça e a imagem perturbadora daquele velho no formol, decidi fazer Jornalismo”.
Gilvan cursou na Faculdade Cásper Libero e iniciou a carreira de jornalista na Folha de S. Paulo, em 1987. Trabalhou como repórter da ESPN Brasil de 1994 a 1998, e de 1992 até o começo deste ano, trabalhou no Diário de S. Paulo (antes, Diário Popular) como editor do caderno de esportes. “Acabei demitido por cortes que aconteceram na Redação. Chegou o ponto que, numa empresa, você vira número. Não importa o resto”.
Repórter polêmico, protagonizou dois episódios que ficaram marcados – literalmente. Sempre deu a cara a tapa e foi agredido por Serginho Chulapa e Luiz Felipe Scolari, hoje técnico da Seleção Brasileira. Sua relação com Casagrande é de amizade. Ele, pode-se dizer, é o “culpado” pelo ingresso do ex-atacante na carreira de comentarista.
‘Porque você não vira comentarista?’
“O Casa fazia um jogo de despedida com amigos, após pendurar as chuteiras. Num determinado momento falou pra mim: ‘Pô Gilvan e agora? O que é que eu vou fazer da minha vida?’. Aí eu disse: ‘Porque você não vira comentarista? Você tem bagagem, se comunica bem...vou ver pra você ir falar com o Trajano (José Trajano, diretor do canal à cabo)”.
Cabeçada do Chulapa
“A história com o Chulapa foi muito louca. Não entendi e não entendo até hoje. Foi em 1994, num clássico entre Corinthians e Santos. Ele (técnico santista) havia sido expulso e se irritou. Eu só observava sua entrevista a uma emissora de rádio. Do nada começou a falar: ‘Tá olhando o que?’. Eu estava quieto, não havia falado nada. Ele dava entrevista e eu estava segurando uma mala de transmissão numa mão e fios em outra. De repente o cara veio pra cima de mim e me deu uma cabeçada. Veio louco querendo me pegar. Só sei que fui parar dentro do vestiário, todo ensanguentado. Na boa, foi de graça”.
Cruzado do Felipão
“Já com o Felipão eu retruquei. Quer dizer, mais ou menos né. O Palmeiras não vivia um bom momento em 1998. Durante um treino, fiz três vezes uma pergunta e ele não respondia. Já havia acabado a coletiva, eu estava sentado e ele veio me xingar: ‘E você, vai tomar no c...”, aí eu respondi: ‘Vai você’. Veja bem, não o xinguei, só devolvi o ‘vai você’. Mas isso bastou. Ele desferiu o golpe que pegou de raspão”.