O último dia 15 de novembro foi histórico. A data em que se comemora a Proclamação da República, este ano foi ainda incrementada pelo início das prisões dos réus de um dos maiores escândalos da nossa história política recente, o mensalão (finalmente). Para a surpresa de muitos, os condenados foram sim para a cadeia, entre eles duas figuras das mais emblemáticas na política nacional, Zé Dirceu e José Genoíno, que, por suas trajetórias, trazem uma simbologia e peso tão grandes que são capazes de ligar o presente episódio com os tempos da luta contra ditadura militar.
Dirceu foi líder estudantil, opositor do regime ditatorial, exilado, viveu ilegalmente no Brasil. Genoíno, por sua vez, também lutou contra a ditadura, participou ativamente da Guerrilha do Araguaia e acabou preso. Ambos foram fundadores do PT, presidentes do partido e ocuparam vários cargos públicos de relevante importância. Ao chegarem na sede da polícia federal, ergueram o braço, um símbolo mundial de lutas, colocando-se como perseguidos e presos políticos, apesar de condenados por corrupção. Tal postura contrasta com a vergonha e humilhação a qual, pelo menos em tese, deveriam sentir nos dias de hoje.
O gesto encontra respaldo em uma minoria que ainda defende o PT no mensalão e acredita na inocência de ambos, ou naqueles que colocam uma suposta "revolução social" acima inclusive das regras do Estado Democrático de Direito, onde é válido utilizar-se de "jogo sujo", de compra de apoio com dinheiro público, e toda sorte de manobras, legais ou não, desde que o fim seja o bem comum. Os fins justificam os meios, ao melhor estilo Maquiavel.
Mas não é esse o eco que se observa na sociedade, em sua maior parte. A maioria está sim estupefata com essas figuras, que, apesar de condenadas e presas, tem a "cara-de-pau" de erguer o braço e fingirem-se perseguidas em um país onde o seu partido está no poder há 11 anos, e que a oposição encontra-se despedaçada.
Porém, o mais triste de todo o episódio é a falta de esperança que ele nos traz e trará às gerações futuras. Condenados de hoje, no passado tiveram uma trajetória que, convenhamos, daria inveja a qualquer manifestante de junho, ou black bloc. Houve um dia em que pessoas tinham a esperança que figuras como aquelas governassem o país. Afinal, quem melhor para mudar o Brasil? Quem teria mais coragem? Mais amor à pátria?
O tempo passou e eles chegaram ao poder, porém, não da maneira como se imaginava. Ao invés de mudarem o sistema, foi o sistema que os mudou. Praticando o mesmo jogo político que criticaram, fazendo alianças outrora inimagináveis, o PT se vendeu para vencer. E daí em diante deleitou-se com as infinitas possibilidades de corrupção. O projeto petista de governar para sempre, a necessidade de governabilidade a qualquer custo e a corrupção para o acúmulo pessoal de riquezas foram inevitáveis, e a velha ideologia, pela qual o partido foi fundado, hoje serve apenas de pano de fundo para tentar amenizar a situação presente.
Se essa geração de políticos, com todos os méritos que teve, tem fracassado no comando do país, principalmente no campo ético, na lisura de conduta, na representação popular propriamente dita, justamente eles que, por suas trajetórias inspiravam maior confiança e esperança do que qualquer figura surgida nos dias de hoje, o que devemos ou podemos esperar para o amanhã?
Zé Dirceu e José Genoíno, ao se corromperem e corromperem a democracia, lesaram não só os cofres públicos, o Estado Democrático de Direito, lesaram a história política do Brasil e a esperança de milhões de pessoas, restando a eles apenas invocar a sombra ideológica do que foram um dia. Afinal, quem não tem presente, se contenta com o... passado (?).
Fábio Galazzo