10 de julho de 2026
Internacional

Manifestação no Egito recorda mortos há dois anos no país

Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

Centenas de egípcios opositores e partidários do exército saíram às ruas na terça-feira (19) no Cairo, dia do aniversário das manifestações contra os militares no poder que foram duramente reprimidas há dois anos.

A maioria dos manifestantes comemorou o 19 de novembro de 2011, primeiro dia de uma semana sangrenta durante a qual cerca de quarenta manifestantes hostis ao poder interino do exército após a queda de Hosni Mubarak foram mortos pelas forças de ordem nos arredores da praça Tahrir. Mais de três mil pessoas ficaram feridas.

Anteontem, o governo de transição, nomeado pelo exército em 3 de julho após a destituição e prisão do presidente islamita Mohammed Mursi, inaugurou com grande alarde um "Memorial dos mártires" na Praça Tahrir.

Na terça-feira (19) os manifestantes em Tahrir responderam a um apelo dos movimentos da juventude hostis ao exército e aos islamitas, e que consideram o Memorial erguido por um governo dirigido de fato pelos militares um "insulto" à memória dos mártires.

Desde ontem à noite, eles cobriram o memorial com pichações e tinta vermelha simbolizando o sangue das pessoas mortas."Festejar com cânticos à glória do exército é uma provocação", considerou Magda al-Masrya, uma manifestante de 50 anos, vestida de preto com o rosto coberto por um véu cinza. "Nós estamos aqui hoje em memória dos mártires, em luto", exclamou.

Alguns membros do governo atual estavam no poder na época dos acontecimentos de novembro de 2011, lembra Reni Rafat, uma jovem manifestante que se juntou a amigos. "Queremos que os responsáveis sejam levados à justiça, não queremos festas", disse revoltada.

Hisham Mahmoud, um estudante de 21 anos, afirma que "a revolução ainda não acabou". "Em três anos, tivemos três regimes e três traidores: Mubarak, o exército e a Irmandade Muçulmana", a confraria à qual pertence Mursi.

Em frente a eles, dezenas de partidários do exército e de seu comandante, o general Abdel Fattah al-Sisi, acenavam com retratos do novo homem forte do Egito.

Já os partidários de Mursi, primeiro presidente democraticamente eleito do Egito, alvos da repressão sangrenta desde a sua destituição, não organizaram manifestações para esta terça-feira como o fazem todos os dias desde o golpe militar.

A presença da polícia e de militares se manteve discreta em torno de Praça Tahrir, epicentro da revolta lançada no início de 2011, de acordo com jornalistas da AFP.

O ministério do Interior avisou que iria responder com firmeza a qualquer violência nesta terça-feira.


Instabilidade

A derrubada de Mubarak trouxe para os egípcios a esperança de que iriam ter mais liberdade política, após três décadas de regime linha-dura.

Mas o país tropeçou na transição. Durante seu conturbado ano no governo, Mursi desagradou boa parte dos egípcios, que o acusavam de tentar obter mais poderes e administrar mal a economia.

A tomada de poder pelo Exército levantou dúvidas sobre o comprometimento do país com a democracia.

As forças de segurança mataram centenas de integrantes da Irmandade Muçulmana desde a derrubada de Mursi, atraindo críticas de entidades de defesa dos direitos humanos. Milhares de pessoas foram presas, incluindo os principais líderes da Irmandade.

A incerteza vem prejudicando investimentos e o turismo no Egito, que é um importante aliado dos Estados Unidos e primeiro país do mundo árabe a assinar um acordo de paz com Israel. Além disso, o Egito controla o canal de Suez, a via marítima mais rápida entre a Ásia e a Europa.