10 de julho de 2026
Geral

Dimenstein faz palestra hoje em Bauru


| Tempo de leitura: 6 min

O jornalista Gilberto Dimenstein estará em Bauru hoje para ministrar a palestra “Cidadania e Sociedade – Novas Tendências”. O evento é gratuito, mas é preciso reservar vaga (leia mais abaixo).

Formado na Faculdade Cásper Líbero, Dimenstein ganhou os principais prêmios destinados a jornalistas e escritores e trabalha como colunista da Folha de S.Paulo e da rádio CBN. O jornalista criou o Catraca Livre, uma plataforma multimídia de jornalismo educativo que divulga atividades culturais gratuitas em São Paulo. Leia abaixo os principais trechos da entrevista concedida ao JC.

Jornal da Cidade: Puxando pelo gancho da palestra, o senhor acredita que estamos vivendo um avanço em cidadania no Brasil?

Gilberto Dimenstein: O Brasil não para de avançar nesta área, apesar da distância grande do que deveria ser. Os episódios recentes do mensalão e as manifestações mostram isso, mostram uma nação cada vez mais atenta, complexa, exigente com a saúde, educação. A democracia vai criando pessoas cada vez mais atentas.

JC: As condições para a prática de direitos são iguais para todos os brasileiros? Para algumas camadas o conceito de cidadania chega a ser um credo falacioso?

GD: Não são. Quando se tem amigos advogados e jornalistas é sempre diferente. O Brasil é ainda um país longe de ter uma cidadania para todos. Tem uma disparidade muito grande de renda, de conhecimento, de justiça, de educação.

JC: No livro “O Cidadão de Papel”, o senhor critica o assistencialismo. Acredita que ainda estamos presos a ele?

GD: Não faço critica não, ele é muito limitante. Não vou criticar uma creche, porque bem ou mal são pessoas que necessitam. Acho supervaloroso pessoas que estão ajudando ao outro. Muito importante também é criar situações que evitem as pessoas de cair em uma dependência. O mais importante para se investir em uma sociedade são saúde e educação. Especificamente educação, porque você dá às pessoas a capacidade de se defenderem e ter um bom emprego. Por isso eu acredito que, quando você começa trabalhar com a criança quando ela tem de 0 a 3 anos, depois dos 3 aos 6 anos, com uma família que apoia, tratamento de saúde, vida cultural, enfim, você vai fazer com que a pessoa não dependa de ninguém mais. Ela será autônoma, mas por enquanto temos várias pessoas vivendo em uma situação que, se não for assistencialismo, também morrem.

JC: Como a cidadania deveria ser estimulada?

GD: Tem várias formas, mas uma delas é a partir da escola. Desde criança as pessoas devem ser treinadas e ensinadas sobre quais são seus direitos e deveres e poder executar uma vida de cidadania dentro da escola, participando das decisões, podendo exigir, trabalhando em grupo, desenvolvendo projetos e fazendo trabalhos comunitários.

JC: Acha que as manifestações que eclodiram em junho deste ano tiveram (ou terão) algum efeito?      

GD: Eu acho que tiveram. A questão é um Brasil mais atento e uma agenda muito voltada à localidade que é uma novidade, em mobilidade, saúde e educação. Uma classe media crescente demandando melhores serviços e muito desconfiada da qualidade desses serviços. Teve efeito sim, um abalo enorme no País.

JC: Quais lições podemos tirar do mensalão?

GD: O mensalão é isso aí. Uma estrutura partidária que favorece esse tipo de negociação, e um momento em que o Brasil viu que o país não é tão de impunidade como se imaginava.

JC: Sem formação ou consciência política, aparentemente, as pessoas insatisfeitas com o estado das coisas se manifestam com ódio generalizado. De forma reducionista e sem entender o que realmente ocorre, xingam – principalmente nas redes sociais – a tudo e a todos. Como é possível avaliar essa postura?

GD: Uma coisa é o ódio generalizado, ressentimento e preconceito. E daí é ruim de qualquer forma: em jornal, rádio, televisão. É ruim a pessoa em praça pública fazer isso e a Internet deu espaço para fazer isso aí. Outra coisa é o lado positivo da Internet, que deu mais transparência e capacidade de comunicação. Esse lado me parece que foi mais forte, porque hoje o mundo é mais transparente graças à Internet. As pessoas têm mais acesso à informação e mais facilidade de se manifestar. 

JC: Em um texto recente, o senhor falou sobre o tal “Rei do Camarote”. O que embasa tanto destaque na imprensa?

GD: Uma situação complicada. O Brasil cresce pouco, os salários são baixos, a violência é alta, a educação pública é de qualidade ruim, saúde é de qualidade ruim, a mobilidade é péssima, a violência é disseminada e aí tem um grau de competência pública enorme, as pessoas pagam impostos gigantescos, há uma situação de desigualdade muito complexa. Aí quando vem um sujeito como esse, as pessoas descarregam em cima dele, mas ele é apenas um símbolo do que é uma espécie de sociedade desigual e desrespeitosa, porque a pessoa pode ser rica, o problema não é ser rico, o problema é quase você usar o dinheiro como uma forma de deboche, se exibir desse jeito.

JC: A Copa e as Olimpíadas são um grande engodo ou um avanço para o País?

GD: Não vejo nenhum avanço. Me comoveria ver uma Copa se soubesse que estaria tendo uma mudança das cidades, que os equipamentos serão usados, aumento da mobilidade urbana, talvez aí sim. Das Olimpíadas disseminar mais o culto ao esporte de qualidade. Mas não é o que estou vendo. O meu medo é virar um desperdício gigantesco de dinheiro.

JC: Qual a importância da mídia em meio a todo este contexto? Como ela se porta na promoção de cidadania? 

GD: A mídia fiscaliza os poderes, ela tem esse papel, te dá capacidade de saber como tomar as melhores decisões, optar por partidos, candidaturas, é um poder fiscalizador, e ao mesmo tempo também te forma como cidadão, já que você não consegue ser livre se não puder optar pelas coisas e a mídia te presta informação. O poder crítico da mídia te ajuda muito a ter uma cidade mais democrática.

JC: Como promover uma sociedade melhor?

GD: Melhorar a educação. É o principal motor para você melhorar uma sociedade. E quando falo em educação, não é só ligada à escola, é combinada com saúde, cultura, cria uma rede de aprendizagem, aí você forma melhores cidadãos, melhores trabalhadores, mais produtivos, é o investimento em capital humano.


Catraca Livre

O Catraca Livre foi eleito o melhor blog de cidadania em língua portuguesa pela emissora alemã Deutsche Welle. “Comecei a participar de um projeto em São Paulo há uns 15 anos em que a cidade fosse extensão da escola e a escola da cidade. Percebemos que a cidade oferecia muito mais coisas do que as pessoas usavam, aí comecei a desenvolver o Catraca Livre, mostrando tudo o que é acessível: teatro, música, educação”, conta Dimenstein.

Em 2011, o jornalista passou um ano em Harvard desenvolvendo essa experiência para depois disseminá-la.

“Ela reflete um pouco a visão que tenho de educação: educação é o que se aprende na escola, fora da escola, integração com a família, conteúdos digitais, presenciais e tem toda uma visão do que eu acho de como as pessoas aprendem. Na palestra vou mostrar como foi feita essa experiência e que a aprendizagem hoje é em tempo integral, sendo que a escola tem que ser um grande centro de curiosidade para as pessoas poderem fazer a associação de informações”, completa.

Serviço

O jornalista Gilberto Dimenstein ministra a palestra “Cidadania e Sociedade – Novas Tendências” hoje, às 19h30, na FourC Bilingual Academy, que fica na avenida Affonso Aiello, 12-50 – Vila Aviação. A entrada é franca, mas as vagas são limitadas. Interessados devem se inscrever pelo telefone (14) 3878-9600 ou pelo site www.escolafourc.com.br.