10 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Ex-aluno, colega, amigo Muricy Domingues


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Era ainda muito jovem quando fui convidada para ministrar aulas na então Fafil de Bauru, hoje transformada na poderosa USC. Naquela oportunidade, lecionei para as primeiras turmas de discentes, todas mais ou menos da minha faixa etária. Eram alunos excelentes, dedicados, companheiros. Foi assim que conheci uma juventude extraordinária, observadora, da qual fazia parte Muricy. Tornamo-nos logo amigos. Quem podia resistir ao bom papo desse entusiasta? Logo percebi nele uma referência e não me desiludi.

Muricy formou-se com garbo em História/Geografia, recebendo uma medalha de ouro de Honra ao Mérito, verdadeira menina de seus olhos, honraria conferida somente a uns poucos que se distinguiam entre os melhores. O tempo foi passando, Muricy enfrentou concurso para o magistério e passou com folga, tornando-se, jovem ainda, professor secundário. Com seu entusiasmo e competência, foi conquistando alunos e ganhando projeção logrando inúmeros convites para fazer parte do corpo docente de algumas faculdades da região, inclusive da própria Fafil, onde ficou por largos anos, sempre querido e destacado. Defendeu, nessa mesma instituição sua tese de doutorado, cerimônia da qual me coube a honra de fazer parte da banca examinadora.

Nessa ocasião, nossa amizade estreitou-se ainda mais, porque junto com outros colegas que começavam a despontar no cenário educacional, deslocavamo-nos juntos para as faculdades de Botucatu e Jaú, em viagens memoráveis onde a alegria era a tônica maior. Cada um era um, mas, juntos, nos transformávamos num bloco que chamávamos de nós. Muricy, sempre sonhador, queria viajar, conhecer novos mundos e incentivava-nos a movimentarmo-nos, porque a vida para ele sempre foi uma celebração. Uma festa de confraternização, de bom humor, de conversas inteligentes. A memória dele não tinha limites. Lembrava-se de pormenores de detalhes, de nomes, de rostos, de fatos pitorescos, nada escapava ao seu crivo de rapaz intelectual que, de cada palavra ou gesto tirava uma lição. Seus olhos viam o mundo de forma diferente da maioria das pessoas.

"Você ainda não foi ao leste da Europa? Precisa ir, não pode deixar de ir. É diferente de outros países que conhecemos", dizia-me, e contava coisas, passagens, fatos históricos e geográficos. Até que um dia, entusiasmada, dispus-me a acrescentar mais um tijolinho em nossos périplos pelo mundo. E lá fui eu para Hungria, República Tcheca, Áustria, Polônia, Alemanha, descobrindo cidades diferentes, novas culturas, gente diversa. A cada monumento, igreja, castelo, rio, praça, gueto que visitava, lembrava-me dele. E pensava, "não é que o danado tinha razão?" Era tudo muito diferente dos lugares que até então conhecíamos. E a vida ganhou um novo prisma, original, exótico como ele mesmo já advertira.

Muricy foi tudo isso que minha memória registra e muito mais. Descrevê-lo, é impossível. Ele era versátil demais, eclético, múltiplo, plural e ao mesmo tempo singular. Alguém já escreveu que o que gostamos no outro é o que sobra do nosso encontro. É o que se esparrama, o que esparge, o que não coube em nós. Nas amizades verdadeiras as pessoas extraem o que têm de melhor e parece que uma terceira entidade vai-se desprendendo e formando e fica para sempre rondando em torno de nós, com suas lembranças, com suas emoções, com seu perfume. O tempo passa, mas, a graça, o aroma, o sabor vão ficando pelo caminho.

Uma vez perguntaram a Chico Anysio se ele tinha medo de morrer. "Não", ele disse, "eu tenho é pena!" Acredito que Muricy também pensava do mesmo modo porque a forma como ele encarava este mundo era a de um admirador inconteste da obra divina. Tudo para ele era belo, tudo refulgente, tudo maravilhoso! Mas, a lei da vida, válida para todos nós, é a partida. Numa ponta a chegada, na outra ponta a despedida. Mas, a imagem de quem soube viver com dignidade jamais deixará de ser concreta. Muricy, que soube cativar pessoas, sempre receberá de seus alunos e de seus amigos o agradecimento por ter plantado em todos o desejo de sair das margens convencionais da razão e adentrar as ruelas complexas e controversas da sabedoria. Para você, grande amigo, minha mais sentida lágrima!

Maria da Glória De Rosa