As marcas no joelho de Iara Luiza Roberto Coelho Gomes, de 41 anos, remetem a uma história de vida no mínimo intrigante. Há pelo menos quatro anos, ela percorre diariamente, ajoelhada, as imediações e o interior dos cemitérios da Saudade e São Benedito, localizados nas avenidas Rodrigues Alves e Castelo Branco, respectivamente.
Mas qual o motivo para tanta devoção? Questionada pela reportagem, ela hesita em responder, minutos depois abre um sorriso e diz que é uma forma de agradecer sua vida e rezar pelos pais já falecidos.
Saia, lenços na cabeça e no corpo, pulseiras, bolsas com alimentos, sacola com garrafas de água, uma corrente com a fotografia dos pais e um saquinho plástico com imagens de santos, de Jesus e até do fundador da Igreja Messiânica. São vários os adereços que compõem o traje dela para a devoção diária.
“As pessoas ficam curiosas e sempre param para me perguntar o que estou fazendo e para quem estou rezando, mas eu não gosto de falar. Alguns acham que eu sou da umbanda, mas não sou”, pontua a devota, levantando-se e desamarrando a proteção de tecidos que diz ter resolvido usar depois de tantos machucados no joelho.
De fato, a curiosidade em torno da tal devoção desperta a atenção de vizinhos e até de funcionários dos cemitérios.
“Faz quatro anos que eu trabalho aqui e, faça chuva ou faça sol, ela sempre vem, de manhã ou à tarde. Ela não gosta que ninguém pergunte nada, por isso nós a respeitamos e a deixamos à vontade”, comenta uma ajudante geral do cemitério São Benedito que preferiu não se identificar.
Rotina
A rotina de Iara, que nasceu em Bauru e mora desde pequena em uma casa simples no bairro Vila Nova Paulista, região oeste da cidade, começa por volta das 7h.
Atualmente desempregada, ela conta que já trabalhou como auxiliar de contabilidade e como vendedora em uma loja de confecções e artesanato.
Logo pela manhã, após preparar o arroz e feijão – comida que era preferida dos pais –, ela amarra pequenas porções em sacolinhas e dá início a uma caminhada de mais de 30 minutos até o cemitério São Benedito.
No local, ela mostra o túmulo que abriga os restos mortais de seu padrasto, José Gomes, falecido em meados de 1994, que trabalhava na antiga estrada de ferro da Noroeste do Brasil.
“Ele era muito bom para mim, me registrou como sua filha e tudo. Venho para retribuir todo o amor que ele e minha mãe me deram”, afirma, emocionada. “Gosto de cemitério, sinto uma paz aqui. Acredito que as almas permanecem nesse ambiente depois que a pessoa morre”, completa a mulher.
Após algumas voltas de joelhos na calçada externa e interna do cemitério, ela encerra a visita.
Segundo cemitério
Em pé novamente, segue caminhada até o cemitério da Saudade, local onde o corpo de sua mãe, Raquel Roberto Coelho Gomes foi enterrado há aproximadamente seis anos.
“Vou até lá e faço a mesma coisa, dou várias voltas no cemitério, limpo o túmulo e coloco a comida que era a preferida dela em um cantinho”, detalha a mulher, sobre o destino das porções de arroz e feijão que carrega dentro de uma das bolsas. “Na Páscoa, compro um bacalhau mais baratinho e trago como oferenda também”, acrescenta.
Após completar o trajeto pelos dois cemitérios, a devota conta que costuma parar para rezar em igrejas de diferentes religiões, além de perambular pelo Centro.
O retorno para casa, segundo ela, ocorre por volta das 21h. “Almoço, janto, faço tudo no meio do caminho. No outro dia, acordo e faço tudo de novo. Gosto de passear”, finaliza Iara.