09 de julho de 2026
Articulistas

De médicos e detetives

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

O atendimento à saúde vive um momento de crise, não só no Brasil como nos países de economia mais forte, como os Estados Unidos. Os altos custos com os procedimentos oneram os orçamentos governamentais a níveis insuportáveis. O presidente Barack Obama, recentemente entrou em choque com a oposição ao pretender passar para a responsabilidade do estado o atendimento médico hospitalar dos mais pobres e desempregados. Seria a criação de uma espécie de SUS no país que já tem uma dívida de 17 trilhões de dólares. É claro que se o Tio Sam não se metesse em tantas guerras inúteis a milhares de milhas do seu território, sobraria dinheiro para eliminar a pobreza, não só na América do Norte, como em todo o mundo. O Brasil também não dá conta de cumprir o que está escrito na sua Constituição - "saúde, dever do estado, direito do cidadão". Falta dinheiro federal, estadual e municipal. Ninguém cumpre com o seu quinhão para fazer valer o dispositivo da lei maior. Falta dinheiro. Porque gasta-se mal. Só um grupelho de fiscais da Prefeitura de São Paulo desviou 500 milhões de reais em dois anos.

A remuneração defasada da tabela de serviços prestados ao SUS arrasta os hospitais públicos à indigência. Temos metade dos médicos que deveríamos ter porque o lobby da categoria barrou escolas de medicina - as boas e as ruins. Nem o seguro saúde privado dá conta de atender casos complexos devido aos altos custos. Sobrecarrega ainda mais o sistema público. Tratamentos de câncer, doenças crônicas preexistentes, uso de marca-passo, de órteses e próteses destroem previsões financeiras.

Cabe discutir se, para detecção de doenças na prática médica diária seriam indispensáveis as sofisticadas tecnologias de múltiplos exames laboratoriais, acrescidos de imagens radiológicas, ecográficas, tomográficas, cintilográficas, de ressonâncias magnéticas e tantas outras. Hoje não se faz mais médicos como os de antigamente, que batiam com o nó do dedo indicador para saber, pela ressonância, o estado dos órgãos internos. Como ainda muita gente faz para saber se a melancia está madura. Sob o ponto de vista do médico, a bateria de exames deve ser esclarecedora e confortável. Permite um diagnóstico quase seguro, em poucos minutos.

Se houver erro, é do laboratório. O paciente é que nem tem tempo de expressar suas angústias e dores para ser confortado, como faziam os médicos de família de outrora. E a queixa frequente é que "o médico nem olhou na minha cara. Leu os exames e passou a receita sem levantar a cabeça". Então, se a tecnologia diagnóstica é colocada prioritariamente como uma parede entre o médico e o paciente humano - este sim, fundamental no exercício da arte médica ou de qualquer outra profissão - alguma coisa está errada. Sofrem aqueles que não levam à consulta o talão de cheques ou o cartão de crédito e podem procurar clínicas particulares.

O médico Maimônides, que viveu há mais de 800 anos e deixou a marca da sua sabedoria ao longo dos séculos, ensinava aos seus discípulos: "Ao paciente deve-se dedicar uma hora: 15 minutos para examinar-lhe o corpo e 45 minutos para sondar-lhe a alma". Aqui em Bauru, os médicos das Unidades de Pronto Atendimento do município são muito mais expeditos que o sábio judeu: 7,5 minutos X 16 pacientes = 2 horas, e tchau. O contrato é de 4 horas de trabalho. O direito romano dispunha que somos escravos daquilo que pactuamos (pacta sunt servanda). Vale também no direito brasileiro e no de todos os países civilizados. Mas, isso já é outra história... O criador de Sherlock Holmes foi o médico inglês dr. Arthur Conan Doyle (1859-1930). Seu personagem desvendava intrincados crimes usando os mesmos métodos do diagnóstico médico de antigamente. A partir de sinais e sintomas chegava sempre ao autor do crime. Nem sempre era o mordomo. Munido apenas com uma lupa, ao detectar um fio de cabelo na poltrona, cinzas de charutos no tapete, uma palavra ou expressão facial do investigado, era tudo o que Sherlock necessitava para chegar às suas brilhantes e lógicas conclusões. Sem precisar arrombar portas, invadir domicílios e torturar suspeitos.

Já não se fazem médicos e detetives como antigamente. "Elementar, meu caro Watson".

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC