09 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana: Luis Fernando W. Improta

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 7 min

Quioshi Goto

Improtinha é dono do bar do Aeroclube há 18 anos

Conhecido como o brasileiro que já voou de planador nos céus dos cinco continentes, em uma conversa descontraída e cheia de histórias, o instrutor de voo Luis Fernando Weiser Improta (Improtinha) revela a sua paixão, profissionalismo e aventuras com o voo a vela, aviação desportiva praticada desde os primórdios da aviação.

“Tinha uns três ou quatro anos quando fiz um voo no colo do meu pai e tive a certeza do que queria para a vida”, lembra. Aos 17 anos, Improtinha já era instrutor e lá se vão 30 anos de experiências colecionadas ao redor do mundo.

Formado em administração e psicologia, ele tem MBA e pós-graduação, mas foi a bordo dos planadores que o entrevistado de hoje se encontrou e construiu a sua carreira. Ele conquistou cinco campeonatos brasileiros e boas participações em mundiais.

Entre os planos atuais, Improtinha destaca, a seguir, um projeto inédito no Brasil que pretende trazer para Bauru em 2014, em parceria com o Aeroclube da cidade e o Ministério do Esporte: Aves Raras, uma pós-graduação em planadores. 

 

Jornal da Cidade - Quando você ganhou os céus?

Luis Fernando Weiser Improta - Eu comecei a voar de planador muito cedo. Com uns três ou quatro anos eu fiz um voo no colo do meu pai e, quando decolou, eu tive a certeza de que era aquilo que eu queria fazer. Aos 15 anos eu voava sozinho, com 16 anos eu tirei o meu brevê e, aos 17 anos, já era instrutor de planador em Bauru. Eu ainda não tinha habilitação para dirigir, mas já era instrutor de voo, o que era permitido na época. 

 

JC - Já se imaginou fazendo outra coisa?

Improtinha - Nunca voei por dinheiro. Eu fiz faculdade de administração na Instituição Toledo de Ensino (ITE), psicologia na Universidade Estadual Paulista (Unesp), além de pós-graduação e MBA. Eu tinha duas opções: voar ou ganhar dinheiro. Decidi sair voando de planador pelo mundo. Foi minha opção de vida. Não tenho certeza se estou certo, mas é o que me faz feliz. Às vezes até bate uma vontade de desistir, porque este é um esporte amador e, no Brasil, não há incentivo algum. 

 

JC - Lá fora você encontrou condições

diferentes?

Improtinha - Sem dúvida alguma, até porque eu não fui para o exterior à toa. Fui para lugares considerados os melhores do mundo para o voo de planador, como a África do Sul. Também fui para o deserto do Arizona, nos Estados Unidos, onde eu fiz um curso de acrobacia específico para planador, coisa que não existe no Brasil. Na Nova Zelândia eu fui para voar entre as montanhas, onde vivi durante um ano. Passei duas temporadas no Chile, para voar nas Cordilheiras dos Andes. Eu me moldei para ir para esses lugares. Contei com o apoio do meu pai e da minha família, que é a coisa mais importante da minha vida. Não ganhei dinheiro algum, mas colecionei muitas histórias legais e uma grande experiência que eu trouxe para o Brasil e para os meus alunos de Bauru, principalmente. Apesar de ter nascido em São Paulo e ter vindo para cá aos 8 anos de idade, eu sou bauruense. O meu voo a vela tem o nome de Bauru. Eu sou Bauru!   

 

JC - Fez muitos amigos no exterior?

Improtinha - Muitos! Em 2005, fui para a Nova Zelândia, onde fiz uns amigos muito legais, uns italianos que me convidaram para trabalhar na equipe deles. Ajudei na parte técnica, dei instruções e eles ficaram em segundo lugar no mundial da Nova Zelândia. Também conheci um polonês e um alemão, supercampeões, e fiquei amigo de todo mundo. E quando foi em 2008, esse alemão, bom demais no voo a vela, convidou-me para ser o preparador do equipamento dele no Chile, uma etapa do mundial. E ele ganhou. Fiquei muito feliz por ter participado disso.    

 

JC - Abra a sua coleção de histórias inesquecíveis...

Improtinha - Quando você voa de planador, há momentos de apuro e de beleza, no mesmo voo. Tenho várias passagens. E quando você participa de campeonatos, precisa estar preparado para tudo. Em 1988, em Itápolis, pelo Campeonato Brasileiro, ocorreu um fato superdiferente, uma colisão em voo, o que mais mata na aviação esportiva, estatisticamente. E isso aconteceu comigo naquele ano, aos 20 anos de idade. Cheguei a achar que, se não morresse, teria a minha carreira encerrada. No Brasil, este foi o primeiro acidente do tipo com sobreviventes. E a coisa mais incrível é que, sob uma orientação de Heindrich Kurt, pioneiro da aviação em Bauru, continuei no campeonato. Eu queria ir para uma praia, olhar o horizonte, porque passei muito medo. Mas meu pai pegou um planador reserva, preparamos os equipamentos e decolei. Voltei para o campeonato (a meteorologia não era favorável) e venci. Eu estava em outra esfera, quase morri no dia anterior, mas fui o único a completar a prova.

 

JC - Outros campeonatos?

Improtinha - Muitos deles. Participei do meu primeiro Brasileiro em 1985, na Academia da Força Aérea. Fiquei em segundo lugar, aos 17 anos. Mas ganhei cinco campeonatos brasileiros e fui o 12º no Mundial que participei na Espanha, em 2001. 

 

JC - Uma história que viraria livro.

Improtinha - Tenho uma que virou artigo de revista. Estava na Nova Zelândia há apenas dois meses, não falava quase nada de inglês, e apareceu um senhor cego querendo fazer um voo panorâmico. Ele pediu para que eu descrevesse tudo a ele, a todo momento. É claro que tentei passar a bola para outro instrutor, mas eles não pegaram. Foi uma experiência sem igual para mim. Decolamos. E foi incrível. Mas antes disso, eu comecei a descrever as nuvens, o mar, as montanhas, os raios de sol... Percebi que não estava agradando. Ele era cego e eu quase não falava a língua dele. Tive uma ideia. Coloquei a mão direita dele no manche e os pés nos pedais. E falei para ele ouvir o barulho do vento e sentir a velocidade, a inclinação... E aí foi com ele. Eu não fiz mais nada e ele voou uma hora e meia. Fiz um texto sobre isso e ele foi publicado na melhor revista (mundial) do gênero como a história do cego que voou. Na Nova Zelândia, ninguém toca em ninguém, mas aquele homem desceu do planador e me abraçou.  

    

JC - Quais são as atividades que dividem o seu dia hoje?

Improtinha - Além de instrutor de voo, há 30 anos, e dono do bar do aeroporto, há 18 anos, eu cuido de motoplanadores. A história é a seguinte: alguns empresários brasileiros gostam da brincadeira de voar de planador e compraram os melhores planadores que há no mercado, e eu cuido desses planadores. O bom é que, além de conhecer pessoas muito especiais, eu tenho contato com os melhores equipamentos disponíveis no mundo, atualmente. Eles são conhecidos como motoplanadores. Além de custarem o triplo do preço, têm motores e, dessa forma, dispensam aviões rebocadores para subirem. Estou sempre pronto para viagens. É o que eu mais faço. Também sou examinador da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).

 

JC - Planos próximos?

Improtinha - Quando o assunto é planador, Bauru é um dos melhores lugares do Brasil. Temos uma das escolas mais tradicionais do País, inaugurada em 1939. E agora estamos desenvolvendo um projeto muito legal no Aeroclube, que só Bauru está fazendo. É o projeto “Aves Raras”, para ensinar quem já é piloto, ou seja, uma pós-graduação, algo que não existe no Brasil. Esperamos colocar isso em prática já em 2014, com a ajuda do Aeroclube e do Ministério do Esporte.  

 

JC - Qual é o seu sonho?

Improtinha - Meu sonho é ser preso em regime semiaberto e ter um emprego de gerente de hotel ganhando R$ 20 mil por mês, como o José Dirceu. Trabalho há mais de 30 anos com dignidade e não consigo um salário desse. Que vergonha! Morei muito tempo fora do Brasil e isso aqui é inacreditável. É o fim da picada. 

 

Perfil

Nome: Luis Fernando Weiser Improta 

Idade: 46 anos

Cidade: São Paulo

Hobby: Jogar tênis

Livro de cabeceira: Acabei de ler “Rafa: Minha história”, biografia do tenista Rafael Nadal

Filme preferido: “Intocáveis”

Estilo musical predileto: Rock

Time: Palmeiras

Para quem dá nota 10: Para o Improtão (pai) 

Para quem dá nota 0: Para a violência que toma conta do Brasil

E-mail: improta_67@yahoo.com.br