08 de julho de 2026
Cultura

?Vai ser classe A!?

Por Marcus Liborio | especial para o JC
| Tempo de leitura: 10 min

Melissa Hummel/Divulgação

A banda formada por Andreas, Derrick, Paulo e Eloy promete repertório para lembrar os 30 anos da trajetória do Sepultura

Não seria ousadia e nem mesmo pretensão dizer que uma das melhores bandas de heavy metal da atualidade é brasileira. Com quase 30 anos de história, 13 álbuns gravados e fãs espalhados pelo mundo todo, o Sepultura, considerado o grupo que melhor representa o Brasil no exterior, se apresenta hoje, a partir das 23h, no Jack Music Pub para divulgar o novo álbum - “The Mediator Between Head and Hands Must Be the Heart” (O Mediador Entre a Cabeça e as Mãos Deve Ser o Coração) -, lançado em outubro deste ano.

“Vai ser classe A”, promete o guitarrista e líder da banda, Andreas Kisser, em entrevista ao JC sobre a expectativa para o show em Bauru. Em um bate-papo descontraído, o músico fala da mensagem que o grupo pretende passar com o disco novo. A frase, tirada do filme Metrópoles, faz menção a uma sociedade “robotizada” e reflete o ponto de vista da banda sobre conceitos políticos e sociais. “Está faltando essa parte humana de contestar, protestar e argumentar. Esse poder que a gente tem de ser livre”.

Engajados com assuntos políticos, econômicos e sociais do Brasil e do mundo, os músicos do Sepultura procuram sempre inovar nas músicas, através de participações de outros artistas. Em muitos casos, a mistura foge do estilo heavy metal da banda. Um próximo desafio para o grupo seria uma parceria com a banda irlandesa U2. “As mensagens, as letras, as atitudes do Bono, tudo isso tem muito a ver com o Sepultura”, define Andreas. Sobre a possibilidade de juntar as duas bandas, o guitarrista dispara. “Eu acho que tudo é possível. Na história do Sepultura só tem coisas impossíveis que a gente conseguiu”.

Inseridos no cenário mundial, o próximo projeto dos músicos é o lançamento de um filme que conta os 30 anos da banda. A intenção é divulgar a obra cinematográfica a partir do dia 4 de dezembro de 2014, data do trigésimo aniversário do Sepultura. Confira a entrevista com um dos maiores guitarristas do Brasil:

JC: Quem é fã do Sepultura sabe que os álbuns sempre foram abordados a partir de um contexto histórico ou cultural. O novo álbum é inspirado no filme Metrópoles, que retrata uma sociedade que aceita tudo sem questionar nada. Qual a mensagem principal que vocês quiseram passar para os fãs?  

Andreas: É mais ou menos isso. Mais do que ter sido influenciado pelo filme, a gente foi influenciado pela frase. Tem um contexto ali que mostra uma sociedade “robotizada”. Muita gente trabalhando por igual sem lazer, sem diversão ou, realmente, pensando só no trabalho, para que poucas pessoas possam usufruir do Jardim do Éden. E a gente vê muito disso, das pessoas acreditando em tudo o que se vê ou o que se passa na televisão, nos jornais, etc. São conceitos políticos, religiosos e econômicos que as pessoas não sabem nem definir, mas que acreditam naquilo e agem de acordo com aquela crença. E a frase fala isso: o mediador entre a cabeça e as mãos deve ser o coração, ou seja, informação para a cabeça, direto para as mãos, sem ter o coração. Estão faltando essa parte humana de contestar, protestar e argumentar. Esse poder que a gente tem de ser livre. A Internet, hoje, abre muitas possibilidades de imprensa alternativa, de teoria da conspiração e nos dá a possibilidade de ter uma visão um pouco mais realista em relação às coisas que estão acontecendo. Tem pessoas com a mente preguiçosa de conversar e questionar os fatos. Eu acho que isso influenciou mais do que qualquer coisa do filme em si. A gente fez o Dante XXI, o Laranja Mecânica, influenciado pela cronologia do filme, capítulo a capítulo, os personagens e tudo. No novo álbum, a gente não ficou muito preso ao filme, mas pela frase e pelas coisas que a gente vê no dia a dia. O Sepultura tem o privilégio de viajar o mundo, ver outras culturas, outras religiões, outras políticas, etc. E a gente fala disso: do nosso ponto de vista sobre a sociedade.

JC: O fã do Sepultura sempre espera algo diferente da banda. Vocês mostraram isso com participação de Carlinhos Brow e, recentemente, do Zé Ramalho, no Rock in Rio. Tem alguém que você gostaria de fazer parceria e ainda não fez ou não teve a oportunidade?

Andreas: Pô, cara, é difícil falar. A gente já fez parceria com bastante gente. Como a gente tem essa possibilidade de viajar e tocar em muitos festivais, shows, acaba conhecendo muita gente. Mas um desafio para gente seria fazer alguma coisa com U2. Seria fantástico.

JC: U2 é uma banda que você não respeitava antes...

Andreas: Não é que eu não respeitava. Não curtia quando eu era moleque. Mas a partir do filme Rattle and Hum, que a gente assistiu no final da década de 80, realmente comecei a curtir o U2: as mensagens, as letras, as atitudes do Bono. Tem muito a ver com o Sepultura.

JC: É uma banda muito politizada...

Andreas: Sim. A gente fez o cover de Bullet The Blue Sky, no disco Revolusongs. A gente fez covers de várias bandas, não tão conectadas ao metal. E U2 foi uma delas. Foi uma música que a gente tocou muito. Fizemos um clipe dela também que foi premiado. A gente respeita muito a banda, sem dúvida.

JC: E você acha que é possível fazer essa parceria?

Andreas: Tudo é possível. Na história do Sepultura só tem coisas impossíveis que a gente conseguiu. É só se basear nas coisas impossíveis que a gente conquistou. Uma banda tocando death metal, vinda do Brasil, e conquistando tantos terrenos internacionais e está aqui até hoje! Quase 30 anos de história, fazendo shows relevantes. Um disco forte. Tocando em grandes festivais. Acho que é isso mesmo. O desafio é isso. A arte está aqui para quebrar essas regras. Imagina o mundo sem Salvador Dali, sem Beatles, sem Mozart. Seria um mundo completamente robotizado, realmente. A arte está aqui pra isso: quebrar essas ideias pré-concebidas e mostrar novas possibilidades. Eu acho que essa é a função do artista: mostrar um mundo mais possível e não cinzento e robótico.

JC: O novo disco é bem agressivo. Não que os outros também não sejam. A gente pode até usar a expressão “sujo”...

Andreas: Sim, exatamente.

JC: E como foi o processo de composição e gravação do álbum?

Andreas: Em todo disco do Sepultura, a gente procura colocar a intensidade e a energia que a gente tem ao vivo no palco. É difícil porque sempre quando a gente vai para o estúdio, tem aquela coisa de procurar o perfeito. E, na verdade, cada um vê o perfeito de uma maneira. E gente fica: faz isso, refaz aquilo, limpa aqui, limpa ali. E o disco acaba saindo não tão espontâneo. E acho que esse disco foi baseado na espontaneidade. É a primeira vez que a gente trabalha com o Eloy Casagrande.

JC: É a primeira vez que ele está no estúdio com vocês...

Andreas: Isso. Ele fez um trabalho fantástico. É um músico excepcional. Um moleque que tem 22 anos, mas, apesar da idade, tem uma experiência fantástica. Superprofissional e dedicado. Nesse álbum, nosso produtor foi a grande chave de conseguir essa espontaneidade no disco... Essa coisa agressiva, cheia de barulho, cheia de atmosferas. Ele deixa muito o lance do agora, da performance. E o disco reflete isso.

JC: Você acha que essa questão da agressividade no novo álbum tem a ver com o que o Eloy Casagrande trouxe na bagagem musical dele? Porque os estilos que ele tocou antes fogem um pouco do Sepultura...

Andreas: Sim, ele tocava com músicos diferentes: André Mattos, Glória. São coisas bem diferentes do que o Sepultura fez, mas o Eloy é mais Sepultura do que qualquer outra coisa. Ele é um fã da banda e nos acompanha desde sempre. Ele caiu como uma luva. Não teria um baterista melhor para representar o Sepultura hoje. Ele faz tudo aquilo que o Igor e o Jean Dolabella fizeram no Sepultura e muito mais. Realmente, ele trouxe novas possibilidades para a banda, ajudando a elevar o Sepultura em um novo patamar. E ele é metal. Ele tem essa pegada. Ele tá muito confortável na banda. E confesso que eu nunca vi o Eloy fazer essas coisas que ele está fazendo agora. Ele nunca tinha chegado num extremo assim, porque as músicas não davam essa condição pra ele. Então acho que casou muito bem.

JC: O Sepultura já se apresentou em Bauru. Você tem alguma lembrança da cidade?

Andreas: A gente conhece muito pouco. Geralmente, a gente chega, arruma as coisas, toca e vai embora. Mas cidade do interior paulista, no geral, é sempre fantástica. Têm grandes shows assim. Uma galera que curte pra c. Que, geralmente, é difícil vir para Capital curtir shows e tal. E a gente tem sempre um prazer, um tesão de tocar no interior paulista. E Bauru não é diferente. A gente tá muito feliz de ter essa oportunidade ainda nesse final de ano. Vamos fazer Bauru e Americana para fechar o ano. Vai ser classe A.

JC: Para o repertório em Bauru, vocês pretendem fazer um apanhado da carreira toda ou focar mais no último trabalho?

Andreas: Os dois. É lógico que a gente vai focar no novo trabalho, que já é a turnê nova que vamos apresentar pelo mundo nesses próximos dois anos. E claro, celebrando 30 anos. Vamos tocar um pouco de tudo que a gente já fez. Aliás, o Sepultura sempre faz isso. A gente faz um set list bem mais respeitoso em relação à história do Sepultura, independente da formação, da gravadora que a gente estava. Não importa isso. A gente toca desde o primeiro disco até o último. Tem fãs de tudo quanto é tipo do Sepultura. Uns gostam mais das coisas antigas, outros das coisas novas. A gente faz um som completo e, claro, baseado mais no disco novo. Mas não vão faltar todas as músicas mais conhecidas da banda.

JC: E quais são os próximos projetos? Existe alguma novidade prevista, além do filme?

Andreas: O filme tá rolando, cara. O produtor está indo atrás de depoimentos e a gente tem que fazer algumas entrevistas ainda, da banda mesmo. Já são três anos que ele está acompanhando a gente e espero que tudo esteja pronto até o final do ano que vem. Quatro de dezembro é, realmente, a data oficial dos 30 anos da banda. E espero que esteja tudo pronto para lançar o filme no ano que vem.

JC: Você lembra qual foi a primeira música que aprendeu na guitarra?

Andreas: Comecei a tocar violão aprendendo música popular brasileira. A primeira que comecei a aprender foi uma música do Guilherme Arantes: Planeta Água. Pô, aprendendo mi maior, ré maior. Aquela coisa bem básica. Mas a minha intenção mesmo era aprender tocar Stairway to Heaven, quando eu comecei a tocar violão.

JC: Clássico do Led...

Andreas: Clássico do Led, meu! E na guitarra elétrica, comecei meio que a desenvolver meu ouvido mesmo. Eu tinha lá o vinil, colocava e tocava junto. A primeira foi uma música do Judas Priest, Blade, que tem uns riffs mais diretos. Aquela coisa mais do heavy metal mesmo. Mas eu sempre estudei violão. Eu nunca tive uma aula de guitarra. Guitarra foi meio que adaptação daquilo que eu aprendia no violão e, claro, escutando as bandas que eu curtia e tentando tocar igual.

JC: Com essa correria toda sobra tempo para a família?

Andreas: Ah, minha vida foi sempre assim, meu. Desde quando eu me casei, há 20 anos, sempre fazendo turnê, sempre tocando. Eu tenho três filhos também. E é o estilo de vida que eu tenho. Preciso viajar bastante. Minha profissão demanda isso. Não é fácil, mas eu tenho um tempo para eles, sim, sem dúvida.

O Jack Music Pub fica na av. Duque de Caxias, 8-56. Ainda há ingressos disponíveis para o show da banda. Eles podem ser adquiridos no Jack, Music Sound (Bauru Shopping) e The Kings Urban Store. Valores: R$ 40,00 (meia), R$ 60,00 (promocional antecipado) e R$ 80,00 (inteira). Informações e reservas: (14) 3245-3254

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