08 de julho de 2026
Geral

Te encontro na feira

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 7 min

Água de coco, queijo, pimenta, mel, doce em conserva, curau de milho. Peixe para a moqueca ou vivo para ornamentar o aquário. Amigos antigos na prosa na calçada, já que a rua é tomada por um tumulto de pessoas que sobem e descem a Gustavo Maciel. A calçada repleta de gente a saborear pastéis num canto organizado ao lado da barraca, como um restaurante com mesas e cadeiras plásticas.

 

Aceituno Jr.

A Gustavo Maciel, entre as ruas Júlio Prestes até a 1º de Agosto, é a passarela do povo em Bauru aos domingos

A céu aberto, uma mistura de gente e bancas, a feira de domingo no Centro parece uma bagunça. Lá no fim, no encontro com a feira do rolo, na rua Júlio Prestes, parece tudo organizado como uma escola de samba a passar na passarela. Frente a frente, vendedores e compradores barganham. Todos ganham e o cliente volta na semana seguinte para um novo embate.


No meio do caminho, na quadra 5, um furdunço aglomera gente em torno de duas caixas de papelão. Não é liquidação. Era doação de uma ninhada de filhotes de cães. Marília de Dirceu Araújo anuncia: “É mistura de policial com poodle. Todos estão vermifugados e com cerca de dois meses de vida”, responde às perguntas dos interessados. De brinde, os filhotes eram entregues com uma mantinha.


A feira livre é um lugar delimitado diariamente na geografia urbana. Para o cotidiano da cidade, é um “ser vivo pulsante”. As ruas adormecem como espaço para veículos, pedestres e moradores. Ao amanhecer, tudo é tomado pelos produtos expostos em barracas que variam de quatro a oito metros de extensão. A feira caminha dia a dia por diferentes ruas e bairros. Num mesmo dia ocorrem várias feiras, mesmo em períodos diferentes. Tem feira transferida do dia para a noite, como a do Jardim Colina Verde, das 16h às 20h. A “feira noturna” do Residencial Colina Verde é a 34ª feira livre instalada em Bauru, desde o último dia 9 de outubro. São oito feirantes com barracas de frutas, verduras, legumes, confecções, pastéis, caldo de cana, entre outros produtos localizada na rua Lazara Leoni Sant’Ana, conhecida como “Rua da Praça”.



Cultura renovada


Tem gente que se fez comerciante na feira livre, como Manoel Ulisses do Carmo, 79 anos, atualmente o mais antigo feirante em atividade e que não falta a uma feira. Há os filhos da feira. Gente que nasceu em meio a caixotes, bancas, armações e coberturas de lona, como os irmãos Fernando e Suellen, terceira geração de feirantes em Bauru.


Tem o pessoal que, de tanto ir à feira, acaba virando fiscal. O fiscal da Prefeitura de Bauru, advogado Francisco Rodolfo Ramos, 51 anos, é o linha de frente na Secretaria de Agricultura e Abastecimento (Sagra) nas feiras. Com a chegada do secretário Chico Maia, Ramos passou a ser chamado de Chiquinho.


Como chefe do setor de fiscalização das feiras livres da prefeitura, ele coordena uma equipe de seis fiscais que dão a retaguarda para as feiras acontecerem diariamente e simultaneamente em lugares diferentes. A fiscalização abre, conduz e fecha as feiras. “Na feira, é como se a pessoa tivesse em um calçadão. Ninguém espera que um carro passe. Se deixar a feira aberta, carros e motos entram com tudo. Os fiscais também não deixam o ambulante entrar na feira porque não paga imposto”, ressalta.  


Chiquinho confirma uma mudança evidente no perfil dos comerciantes de feira em Bauru. “Da metade dos feirantes, os filhos não seguiram a tradição”, pontua.


Para o feirante e para o cliente, a feira acaba. Para a fiscalização, o trabalho prossegue com a recolha das placas de sinalização das vias interrompidas, limpeza na rua e, se necessário, solicitação de tapa-buracos à Sear ou Obras.

 

Centro de compras

A feira do Centro é compromisso para muitos bauruenses nas manhãs de domingo. O centro de compras oferece aproximadamente 188 barracas distribuídas em sua maioria em quatro quadras da rua Gustavo Maciel - quarteirões 4, 5, 6 e 7. A feira do Centro tem ramificações para a quadra 2 da rua Marcondes Salgado e para o quarteirão 6 da Ezequiel Ramos, ambas esquina com a Gustavo.


Verduras, frutas e legumes predominam ao longo da feira. Aves, peixes, brinquedos, cereais, roupas de gente e para os animais, café, mudas de plantas, ervas medicinais, yakissoba, tortas, sucos, queijo, pamonha, garapae e pastel figuram entre quase duas centenas de possibilidades de bancas.



Netos da feira


Cruzar um oceano, de Portugal para o Brasil, comprar um sítio em Bauru e virar feirante. Esse é o resumo simplista de parte da história do casal português José Ribeiro Gordo e Conceição Oliveira Nazário. A trajetória deles é uma família de cinco filhos e oito netos, constituída com a produção e comercialização de verduras. Os filhos moram e trabalham no sítio, nas imediações do Núcleo Gasparini, nas proximidades da rodovia Marechal Rondon (SP-300).


“Você precisa ver a horta deles”, elogia Moisés Bastos, presidente da Associação dos Feirantes de Bauru. Os irmãos Luís Fernando e Suellen Fernanda Gordo Magri, netos do casal, fazem suas vidas há cerca de 15 anos na feira. Cada dia num canto de Bauru, atendendo toda freguesia com verduras saídas fresquinhas da horta iniciada há 50 anos pelos avós José e Conceição. Tem dia que Suellen não é vista ao lado de Fernando na banca. É quando faz entrega para grandes restaurantes e na Ceasa de Bauru.


Fernando e Suellen herdaram a tradição da feira do lado da família de sua mãe, Maria da Conceição Gordo Magri. Fernando, com apenas 11 anos ganhou de presente de seu pai Luiz Carlos Magri uma banca na feira. Suellen comenta que sua mãe começou na feira com 12 anos.

 

“Nasci e comecei na feira com 12 anos, de onde tiro meu ganho. Recebo o cliente sorrindo, brinco e atendo com a tradição, a qualidade, a honestidade e confiabilidade de todo dia”

Marquinho do Alho (Marcos Aro)

Idade: 56 anos

Feirante: há 42 anos

Feiras: Pq. Vista Alegre (3ª); Altos da Cidade (4ª); Bela Vista (5ª); Jd. Redentor (6ª); Vila Souto (sáb); Gustavo Maciel e Bela Vista (dom)

 

“É tudo na minha vida. Não falto um dia. Eu tinha 22 anos quando comecei a trabalhar na feira. Constituí a minha família. Sustentei e criei meus filhos graças ao trabalho na feira” 

Manoel Ulisses do Carmo

Idade: 79 anos

Feirante: há 55 anos

Feiras: Altos da Cidade (3ª); Altos da Cidade (4ª); Centro (6ª); Vl. Souto (sáb); Gustavo Maciel (dom)

 

“Trabalhar na feira me garante independência financeira. Produzo no sistema orgânico e tenho qualidade de vida porque como aquilo que planto. Somos 5 produzindo e 10 aprendendo a técnica”

Eneida Muniz Carrasco

Idade: 49 anos

Feirante: há 15 anos

Feiras: Independência (3ª); Altos da Cidade (4ª); Jd. Estoril (5ª); Jd. Redentor (6ª); Gustavo Maciel e Agudos (dom)  

 

“É minha profissão. Eu faço queijo fresco e dá para diversificar os produtos com doces em conserva e pimenta. Para anteder todo mundo, também busco produtos em Minas Gerais”

Richard Norato

Idade: 37 anos

Feirante: há 6 anos

Feiras: Independência (3ª); Bela Vista e Jd. Estoril (5ª); Vl. Souto (sáb); Gustavo Maciel e Bela Vista (dom)  

 

“O que mudou é que hoje as hortaliças são produzidas em estufas” - Fernando


Luís Fernando Gordo Magri

Idade: 27 anos

Feirante: há 15 anos

 

“Minha mãe conta que meu avô perguntou se queria estudar ou fazer feira. Naquela época era mais difícil estudar. Ela disse que preferia a feira” - Suellen

Suellen Fernanda Gordo Magri

Idade: 26 anos

Feirante: há 15 anos

Feiras: Geisel (3ª); Vila Falcão (4ª); Vila Cardia (5ª); Jd. Redentor e Sambódromo (6ª); Vl. Souto  (sáb); Gustavo Maciel e Gasparini (dom)  



“Sou de São Paulo e meu avô foi feirante até meus 16 anos. Tem gente que não gosta de feira na porta de casa. O feirante entende e não deixa sujeira, liga o rádio cedo e fica gritando”

Francisco Roberto Ramos (Chiquinho)

Idade: 51 anos

Fiscal: há 2 anos

Feiras: várias, diariamente

 

“Vender na feira é tudo para minha vida porque é a salvação do arroz com feijão. São das frutas que vendo que tiro meu sustento há muito tempo em Bauru”

Pedro Vieira Martins

Idade: 67 anos

Feirante: há 27 anos

Feiras: Gustavo Maciel (dom)