09 de julho de 2026
Articulistas

A lição do pneu

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

Noite. Barulho estranho no carro. Era o pneu. Vai para o acostamento. E agora? Sem equipamento adequado, chuva chegando, celular mortinho. Triângulo na pista. Espera. Que dura pouco. Caminhão passa e para. Desce um homem de cinquenta e poucos anos. Desce de cara fechada. E já chega com macaco pequeno em mãos. Alguém do carro explica o ocorrido. Ele só aponta com o indicador um pneu da frente, como se perguntasse: "É esse?". Era.

Vai lá o homem, faz o serviço e recebe um tapinha nas costas. Os ocupantes do carro se olham. O caminhoneiro volta para seu possante e bate forte a porta. Liga, engata, dá seta e arranca. Assim, sem falar nada. Só balbuciou algo ou resmungou ou fez por brincadeira.

Alguém quebra o silêncio: "Lá vai um homem de poucas palavras". Risos. Viagem que segue, e segue bem, e bem falante.

Aquele homem sisudo e bondoso foi o protagonista na noite feia. Protagonista de boa ação. Foi decisivo sem precisar histericamente gritar: "Gostem de mim".

Dificilmente, hoje, passados uns 15 anos, esse homem deve ter Facebook. Eu tenho. E gosto. A questão é que, como diz o psicólogo Cláudio Salviano, em matéria desta edição sobre o fenômeno "selfie" e afins, "vivemos bombardeados pela necessidade de ?atualizações?".

É a era máxima do exibicionismo em tempo real. Chega a ser débil. E, de tanta "conectude", desconexo.

Creio que vai passar. Já tivemos exemplos na história de toda a sorte de exageros: estéticos, comerciais, gerenciais, etílicos, familiares, comportamentais, sexuais, morais, etc.

Mas que fique o alerta a todos, a todos nós: de fato, não precisamos assim de tanta conexão, de tanta foto e fome de si, de tanto cotidiano compartilhado, de tanto de nós para nós mesmos.

Assim como no episódio do caminhoneiro calado, muitas vezes, fazer a diferença é isso: simplesmente fazer.

O autor, João Pedro Feza, é editor executivo do JC