08 de julho de 2026
Geral

Crack impede redução da mortalidade infantil

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 5 min

Arquivo/JC

Ainda que, historicamente, venha conseguindo combater a mortalidade infantil, Bauru não obteve grandes avanços neste aspecto, nos últimos anos.

Levantamento divulgado ontem pela Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade) demonstra que a taxa de mortalidade infantil na cidade vem aumentando desde 2010, contrariamente ao desempenho da média estadual.

Para especialistas consultados pela reportagem, a expansão do consumo de crack tem levado um grande número de gestantes a não adotar os devidos cuidados durante a gravidez, o que compromete a saúde do feto por diversos motivos.

Embora políticas públicas venham sendo instituídas na cidade com a finalidade de frear a expansão do uso do crack, os resultados ainda parecem ser tímidos diante do fácil acesso e do poder viciante que a droga tem.

Segundo as estatísticas da Seade, no ano passado Bauru registrou taxa de mortalidade infantil de 11,6 óbitos por mil nascidos vivos. Do total de 4.749 nascimentos registrados, 55 bebês morreram antes de completar um ano de idade.

Em 2011, o índice havia sido de 10,7 e, em 2010, de 9,3. Em sentido oposto, a média estadual vem sendo reduzida gradativamente. Em 2008, a taxa era de 12,6; em 2010, de 11,9; e, no ano passado, alcançou índice de 11,5, a menor da série que a Fundação Seade acompanha desde o século passado (leia quadro).

Em 2012, Bauru obteve desempenho pior do que outras cidades paulistas de mesmo porte, como Jundiaí (11,1), Piracicaba (11,4), Franca (8,7) e São José do Rio Preto (7,6). De acordo com a Fundação Seade, as causas perinatais – aquelas relacionadas a problemas na gravidez, no parto ou no nascimento – representam 57,94% das mortes infantis no País.

E, entre estes problemas, estão incluídos os decorrentes dos maus hábitos de vida da gestante, tais como o consumo de álcool, tabaco e outras drogas, bem como a alimentação desregrada que leva a mulher à hipertensão, à obesidade e ao diabetes.

“Muitas crianças nascem prematuras por conta das condições desfavoráveis em que foram geradas e o risco de morte, nestes casos, é bem maior”, comenta a médica sanitarista Cristiane Rosevelte e Silva, diretora da Divisão de Vigilância Epidemiológica do município.

Pré-natal

Ela destaca que mães usuárias de drogas tendem, na maioria dos casos, a viver em condições insalubres e a adquirir doenças sexualmente transmissíveis com maior frequência, condições que afetam diretamente a saúde do bebê. “Ele pode nascer já portador do vírus HIV, sífilis congênita, hepatite ou com alterações no desenvolvimento físico e neurológico decorrentes do consumo de drogas, álcool e cigarro”, enumera.

Outro agravante é que, por conta da própria condição em que vivem, estas gestantes que são dependentes químicas dificilmente procuram as unidades básicas de saúde para a realização dos devidos exames pré-natais – cujo acesso tem sido expandido na rede pública. “Muitas mães chegam em trabalho de parto sem nem saber que estavam grávidas”, lamenta a médica pediatra Natalie Camillo Amaral, coordenadora da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) neonatal e do berçário da Maternidade Santa Isabel.

Entre outras vantagens, os exames periódicos poderiam detectar se o feto foi infectado por doenças como a sífilis e a aids, que poderiam ser tratadas e curadas ainda durante a gestação. “Com o uso da medicação, estas enfermidades que podem levar à morte seriam bloqueadas antes do nascimento do bebê, o que acaba não acontecendo, em muitos casos, por displicência da mãe”, lamenta.


O que é

A taxa de mortalidade infantil – número de óbitos de crianças de até um ano de idade por mil nascidas vivas – é um dos indicadores mais utilizados para aferir as condições de saúde da população, em especial das crianças menores de um ano. No Estado de São Paulo, para o cálculo desse indicador, a Fundação Seade realiza pesquisas junto aos Cartórios de Registro Civil, em parceria com a Secretaria Estadual de Saúde, que repassa as informações produzidas pelas Secretarias Municipais de Saúde.


Abrigamento

Por conta do avanço do consumo de crack, são cada vez mais comuns os casos em que a Justiça precisa intervir para garantir a integridade física de recém-nascidos, cujas mães são dependentes químicas.

Segundo a médica pediatra coordenadora da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) neonatal e do berçário da Maternidade Santa Isabel, Natalie Camillo Amaral, neste ano, houve semanas em que três a quatro crianças precisaram ser abrigadas por conta dos problemas enfrentados por suas genitoras.

“Em uma época, o abrigo que recebe recém-nascidos chegou a ficar sem vagas. Mas, temos tido respaldo da Vara da Infância e Juventude, da Secretaria Municipal de Saúde e do Conselho Tutelar para analisar quando estas crianças poderão retornar para suas mães em segurança”, detalha.


Em 12 anos, taxa cai 37% nos 68 municípios abrangidos pelo DRS

Embora os resultados recentes de Bauru não sejam otimistas, historicamente, a região vem conseguindo reduzir os índices de mortalidade infantil. Nos últimos 12, anos, a queda da taxa foi de 37% nos 68 municípios abrangidos pelo Departamento Regional de Saúde 6 (DRS-6).

Segundo informações da Fundação Seade, as causas perinatais e as malformações congênitas representam 80% da mortalidade de crianças brasileiras com menos de um ano de idade, destacando-se que 50% dos óbitos infantis ocorrem na primeira semana de vida.

As causas perinatais – aquelas relacionadas a problemas na gravidez, no parto ou no nascimento – representaram 57,94% das mortes infantis. Já as malformações congênitas respondem por 21,81% dos óbitos. Essas últimas estão entre os problemas médicos de prevenção e cura mais difíceis, por serem decorrentes de diversos fatores, como anomalias do sistema nervoso central e do aparelho respiratório.

Por sua vez, as mortes infantis por doenças do aparelho respiratório e por doenças infecciosas e parasitárias, que na década de 1980 eram as principais causas de mortalidade infantil no Estado, têm hoje peso relativamente pequeno. Em 2012, responderam por 5,27% e 4,70% dos óbitos infantis, respectivamente.

Neste sentido, grande parte das mortes se concentra nas primeiras idades, uma vez que é nesse período inicial da vida que se manifestam, prioritariamente, as causas perinatais. De fato, em 2012, observou-se que 69,09% dos óbitos infantis concentraram-se nos primeiros 28 dias de vida (período neonatal) e, destes, praticamente 50% ocorreram na primeira semana (período neonatal precoce).

     Taxa de mortalidade infantil  

                  2008    2009    2010    2011    2012    

    Bauru    13,0     11,2       9,3    10,7     11,6   

Estado   12,6     12,5     11,9    11,5     11,5