10 de julho de 2026
Articulistas

Papai Noel no Mundo das Maravilhas

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Mais complicado no Natal é a escolha do presente às pessoas queridas. Roupas e sapatos podem não servir. O que me agrada é brega para os outros. Somente as coisas muito caras, objetos unânimes do desejo irão atingir o alvo com poucas possibilidades de erro. Um anel de brilhantes para a mulher amada ou um carro novo para o filho vão agradar, com certeza. Meu amigo confessa-se num dilema terrível nesta antevéspera do Natal: a filha pediu seios siliconados. A clínica de cirurgia plástica ainda divide em seis pagamentos, no cartão... Procuro confortá-lo. Se for isto o que pode fazer sua filha feliz neste Natal, que assim seja.

Li na web do Times que Bill Gates recebeu de uma garota americana o pedido de um iPhone, porque o seu celular era muito simples, nem recebe mensagens do Face o que lhe causa constrangimentos perante os colegas melhor equipados. Diz a notícia que o homem mais rico do mundo mandou para a menina uma vaquinha de pelúcia. Na mensagem de Feliz Natal informava que a vaca verdadeira, em nome da garota estava sendo doada a uma família da Eritreia que não tinha o que comer. A vaca iria proporcionar leite para as crianças famintas e, se não pudesse ser alimentada por falta de pastagens, ainda assim a carne serviria para uma farta ceia na comunidade. Foi uma lição contra o consumismo, da parte de quem ficou biliardário com o consumo dos produtos da Microsoft. Gates teve a sensatez de doar metade do que acumulou, cerca de 40 bilhões de dólares, à fundação dirigida pela esposa e destinada a ajudar os miseráveis.

Lembro-me de uma crônica intitulada "Para Maria da Graça", de Paulo Mendes Campos. No texto, redigido em forma de carta, o autor se dirige à adolescente de 15 anos presenteando-a com o livro Alice no País das Maravilhas. "Para ser usado como um manual de sobrevivência" - advertia. Uma história amalucada. Mas ressalta que nosso cotidiano muitas vezes também pode ser louco. É que o segredo do bem viver está em encontrar um sentido para a vida, mesmo quando ela joga insanidades no nosso caminho. Caso contrário corremos o risco de ficarmos malucos. Ou de perdermos a cabeça, sendo atingidos metaforicamente pelo obsessivo decreto da rainha má contra aqueles que a desgostam. O cronista lembra a Maria da Graça que há momentos em que nos sentimos pequenos, tristes e deprimidos. Corremos o risco de nos afogar nas próprias lágrimas - do mesmo modo que quase acontece com Alice quando ela diminui de tamanho e tem de atravessar a nado o lago de lágrimas que ela mesma havia chorado enquanto estava "gigante". Quem leu o livro ou assistiu ao filme lembra que Alice, após cair na toca do coelho teve de sorver a bebida que a torna minúscula para passar pelo pequeno portão do País das Maravilhas. Nós, às vezes, também precisamos descer do pedestal e sermos humildes para poder abrir a porta do mundo de nossos sonhos.

Como não vivemos no Mundo das Maravilhas o espírito natalino se consubstancia em presente, bebida e comida. O aspecto religioso e espiritual ficou para trás. O dinheiro é a parte mais interessante. O governo petista abraçou a tese de que gastar é bom, move a economia e gera riqueza. Quando você compra está beneficiando quem lhe vendeu. A poluição gerada pelo consumo é outra discussão. Mesmo ao guardar o dinheiro no banco empresta-se para que alguém desenvolva o seu negócio em algum lugar. Empregos são gerados. Impostos recolhidos. Você fica com os juros. Mesmo quem guarda dinheiro sob o colchão dá a sua contribuição para que os preços baixem. Dizem que Papai Noel se veste de vermelho porque é a cor símbolo da Coca-Cola. E que seu sorriso é falso. Exagero. O contrário dessa estratégia liberal estaria em Ebenezer Scrooge, personagem do conto de Dickens que não dava esmolas nem no Natal. Como defendia Feuerbach, inspirador dos teóricos do anarquismo, dar, dado, só atrasa o momento em que as classes operárias vão se apoderar do Estado. Deve ser por isto que até hoje não aconteceu. Scrooge também tinha um raciocínio dialético: mesmo com poucos recursos físicos ou mentais, sempre haverá algo que a pessoa possa fazer. E sempre será melhor para ela que ganhe por seu trabalho, em vez de inspirar dó nos outros. Mesmo porque, depois do Natal a bondade se transforma em euforia pela balada da virada do ano.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC