08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Então é Natal


| Tempo de leitura: 4 min

Então, é Natal. O ano desliza suavemente e pensamos que o Natal é uma data distante no calendário, até que topamos com o primeiro Papai Noel, de vermelho e sorridente, tocando sininho no corredor de um shopping center qualquer. Ao mesmo tempo, as vitrines se enchem de cores e beleza, decorações natalinas invadem as ruas e o comércio. Nosso alarme interno é acionado: mais um ano se foi. Em toda parte, John Lennon insiste em perguntar:

So this is Christmas

And what have you done?...

O que você fez?

A busca por esta resposta muitas vezes cria um sentimento incômodo. No mais profundo do nosso ser, queremos ardentemente uma resposta positiva. Pensar que, de alguma forma, mudamos o mundo, contribuímos para que algo de bom acontecesse. Mas às vezes só encontramos o vazio de nossas incertezas, fragmentos de sonhos esquecidos, abandonados ao longo do caminho.

O que você fez? Começamos o balanço do que foi nossa vida no último ano. O espírito natalino traz uma dualidade. De um lado ficamos mais humanos, emotivos, solidários. Participamos de campanhas de Natal, doamos brinquedos, presentes, damos gratificações a colaboradores, etc, etc, etc. Mas em meio às celebrações, uma angústia camuflada dói lá no fundo, uma insensata solidão, que Chico Buarque assim define: "solidão é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pela nossa alma". Procurar pelo sentido da vida muitas vezes traz à tona um vazio existencial e, mesmo com tantas realizações, sentimos falta de uma felicidade com F maiúsculo, mais genuína, aquela que sai de nós mesmos e alcança a coletividade.

"Eu pensei que todo mundo fosse filho de papai Noel". Talvez esteja aí o ponto nevrálgico, onde está a nossa dor. Ninguém quer sair na rua e encontrar malabaristas nos sinaleiros num espetáculo que ninguém pediu pra ver. Ninguém quer ver crianças maltrapilhas mendigando. Ninguém aguenta mais ouvir tanta tragédia na TV e nos jornais, a violência engatilhada apontando para nós, criaturas indefesas tomadas pela perplexidade. Quem pode explicar tanta insanidade?

As perguntas sem resposta são as mais perturbadoras. Como ser parte de um mundo melhor, quando parece que caminhamos pela contramão, subindo por uma escada rolante pelo lado errado? Por que a sensação de estar sempre em débito? Será que a felicidade é mesmo um brinquedo de papel? Nesta época do ano, é natural tropeçarmos nesta matemática, pois a própria simbologia do Natal nos induz a isso. O nascimento de Jesus, que se celebra no dia 25, traz a ideia de redenção, da possibilidade de começar tudo de novo. É mais do que compreensível que se faça então um balanço na hora de recomeçar, de planejar o ano seguinte. Este movimento de reflexão deve servir para voltarmos ao ponto de partida e, a partir dele, seguir em frente.

É hora, então, de parar de se autoflagelar e se punir porque o mundo está ruim, até porque a autopunição não serve de remédio. No saquinho do Papai Noel não vem soluções prontas. É hora, sim, de aproveitar o balanço e sair da inércia, começar a moldar nossos pensamentos e ações. Claro que tudo deve ser feito dentro de uma mensuração realista, alcançável, pois de nada adianta planejar algo que está além de nossas possibilidades, mas compreendendo nossa real capacidade e nosso potencial de ação. Podemos sim, neste momento em que se fala tanto de tanta esperança, sair da inércia e aprender a pensar de forma mais produtiva, tentar ver o ano como ele realmente foi, o que poderíamos ter feito e não fizemos - mas que ainda poderemos fazer.

Tudo começa a acontecer quando aprendemos a desenvolver mecanismos de persistência, de fortalecimento, de autodeterminação, de fé na vida e no homem, quando buscamos o melhor em nós, nossa humanidade, nossa firmeza de caráter, o repúdio ao mal, a esperança que se renova como a resplandecente aurora de cada dia. Como diz a canção: ?se a gente é capaz de toda essa magia, eu tenho certeza que a gente podia, fazer com que fosse Natal todo dia.? Por que não? Afinal, o sonho de um mundo melhor repousa dentro de nós e se renova na eterna dança do recomeço.

Quanto a mim, sou aquela que desanima muitas vezes e chora de tristeza. Confesso que minha fé às vezes vacila, mas continuo arrebatada pelos sonhos, mesmo sabendo que não conseguirei realizar todos. Vou seguindo, procurando transformar os obstáculos em oportunidades. Encho meu coração de amor e esperança, respiro fundo e começo outra vez. Esta é uma forma de não me deixar derrotar, de cultivar as utopias - afinal, elas nos mantém caminhando.

E sei que tenho um ano inteirinho para preparar uma resposta para quando John Lennon fizer a mesma pergunta no próximo Natal.

Marta Helena Meireles de Resende ? assistente social