As ruas de terra vermelha eram separadas das calçadas pelo sulco mantido pelas águas da chuva. Nas calçadas tinha grama e trilhas de pés; nas ruas, areia e marcas de rodas! A capela em frente de casa era torre com sino e bangalô: hoje sei que pequenos, mas eram monstruosos para minha pequeneza de 6 anos. A garrafa era verde, o rótulo branco e o escrito dizia "guaraná paulistinha". Pela tampa de lata furada por um prego, pouco saía e o guaraná de maça durava o dia inteiro de Natal numa mistura de saliva e algo doce.
O único presente de Natal de criança foi de madeira, suas rodinhas também. Um caminhão com um palmo de comprimento era o presente de Noel. E durou anos ... pena que não tenho mais! À noite, passava um "trenó" iluminado com sinos tocando a musica típica: um Noel dirigia o trator. Panetone não conheci tão cedo, pão doce sim! Um saquinho de passas, figos secos e prensados, algumas nozes e um pacote de macarrão comprido em papel azul compunham a compra do Natal. Acabou o almoço e a rua esperava-me para exibir o presente! Triciclos, carrinhos de lata e bonecas falantes: os mais sortudos tinham seus triunfos e trunfos. Admirava-se sem a inveja, mas inevitável era pensar: um dia vou ter um desse! Reclamar jamais!
Assusta-me, hoje, a firmeza das metas: quando crescer terás o que quiser, para isto basta estudar! Estude e conseguirás o que quiser pelo seu trabalho. Oh meu pai, por que dissestes estas palavras: não consigo me livrar delas! O presente que me deste foi uma verdadeira tatuagem em meu coração e no cérebro: dignidade a qualquer custo, honestidade sempre, o valor do nome e o vencer pelos seus esforços.
Não tinha como ficar triste, ao lado estavam outras crianças sem qualquer presente. Nos natais anteriores eu fiquei assim, sem nenhum carrinho, sem uma bola fina de plástico ou que fosse um cata-vento qualquer. Sem conhecer o mar, aprendi cedo a surfar nas ondas das emoções amigas e aliadas. Só bem mais tarde aprendi que é muito mais fácil congratular-se das tristezas alheias do que das alegrias. Talvez porque deve ser mais fácil dividir a compaixão ou o dó! Deve ser difícil, não sei ao certo pois nunca tive esta dificuldade, mas reconheço que deve ser difícil, dividir a alegria e o prazer do outro, a inveja mora ao lado e te ameaça o tempo todo a lhe tomar o comando d?alma.
Me lembro, estava feliz! Pensava que era pelo carrinho de madeira: não era! De março a novembro de meus 6 anos frequentei a escolinha da primeira série, ao lado da oficina do aeroclube. Nada me tira a lembrança da escolinha quando minhas narinas são invadidas pelo cheiro de tinta fresca usada nas funilarias dos pequenos aviões!
A professora no último dia me presenteou com uma paisagem muito simples em papel comum, sem moldura. Na frente da turma, entregava-me em nome de todos, pois tive um desempenho muito bom durante o ano. No verso dizia: Recordação da sua professora: estude sempre para ser no futuro um homem de valor. Que Deus o proteja. Profª Cleusa Sanches.
Meu único presente de Natal foi no ano que fui agraciado pela minha professorinha. O que meu pai e mãe diziam em sua simplicidade era verdade: a professora escreveu o mesmo no verso de minha paisagem! Não sei quanto custou, se foi muito ou pouco, mas exigiu muito esforço. O carrinho que ganhei e a recordação da professora cravou em minha alma a mensagem: seja um homem de valor! Neste dia 24, meu pensamento durante a virada para o dia 25, estará voltado para a gratidão aos que me deram um Natal que posso chamar de inesquecível e tal qual se fez tatuagem em minha alma!
O autor, Alberto Consolaro, é professor titular da USP e articulista do JC