No Brasil, é crescente o número de jovens que se interessam por artes, desde balé até dança de rua. Será que existe alguma maneira de fazer com que essas produções artísticas movimentem a economia do País, gerando emprego e renda? É justamente esse o foco da economia criativa. Segundo Juarez Tadeu de Paula Xavier, professor da Unesp, economia criativa é produção simbólica, que gera renda e trabalho, que tem foco na criatividade e pode articular economia, tecnologia e cultura.
Pensando assim, o Ministério da Cultura (MinC) lançou o Plano da Secretaria da Economia Criativa (SEC) em 2011. A ideia foi implementar e monitorar políticas públicas e investir em setores criativos, que envolvam não só os culturais, como música, dança, teatro, mas outros, como novas mídias, design, arquitetura. Surgiu então o Plano Nacional de Cultura, que estabeleceu pontos de cultura em várias cidades, os quais receberam recursos financeiros para investirem na área.
Em Bauru, dez ONGs se tornaram pontos de cultura (confira a relação no quadro). Desde 2011, elas recebem investimento anual de cerca de R$ 60 mil, que são destinados para a organização de projetos (oficinas e aulas abertas à comunidade) e a execução de produções artísticas (gravação de CDs e clipes e apresentações).
Grupo de estudos
O NeoCriativa, Núcleo de Estudos e Observações em Economia Criativa, é um grupo de pesquisa vinculado à Unesp que estuda a economia criativa de Bauru desde 2011. O professor responsável pelo projeto é Juarez Tadeu de Paula Xavier, que vê Bauru como uma cidade criativa. O objetivo é ter um grupo de ação e atuação no município que estude, principalmente, as formas de economia criativa subalternas locais, ou seja, aquelas que não estão inseridas no grande mercado, mas que geram renda e trabalho.
De acordo com Juarez, existem quatro metas principais, que estão sendo alcançadas aos poucos. A primeira é fazer um mapeamento dos arranjos produtivos locais (tentar localizar todos os grupos culturais e mensurar a influência na economia da cidade). A segunda é definir uma identidade cultural desses grupos (analisar o que eles têm em comum). A terceira é criar mecanismos de conexão entre eles e, por último, contribuir com o município na elaboração de políticas públicas.
Pontos de vista
O Instituto Acesso Popular foi contemplado como ponto de cultura e tem o objetivo de fomentar o movimento hip hop. Renato Magú, coordenador geral do ponto, diz que a sede conta com estúdios de gravação de CDs e clipes, uma vez que o foco se dá justamente na produção de conteúdos. O Instituto utiliza o dinheiro recebido do MinC para as gravações. “Assim os artistas não pagam nada para produzirem, podem vender seus CDs e, com o dinheiro, investir na carreira e em novas produções”.
Segundo o coordenador, uma das maiores dificuldades é fazer com que as produções circulem pela cidade. Para isso, eles têm dois projetos: o Ensaios, que são apresentações quinzenais na periferia da cidade, e o Rap Hour, que são apresentações mensais no centro.
Magú afirma que a ONG tem muito mais estrutura para realizar o que deseja por ser um ponto de cultura. Há pouco mais de um ano, a equipe conseguiu criar uma lei municipal que torna obrigatória a Semana do Hip Hop, que aconteceu no começo de novembro. “Agora, o investimento financeiro parte da Prefeitura”, diz.
O Instituto Cultural Aruanda é outro ponto de cultura de Bauru. Desenvolve atividades culturais e sociais, com interesse de disseminar a cultura afro-brasileira. Em 2011, a ONG deixou de investir somente em oficinas e passou a exercer outras atividades de produção, tais como gravar CDs, realizar peças, etc. O presidente do Instituto, Rodrigo Vieira, conta que eles têm “boa equipe capaz de produção”.
O grupo é composto por músicos, atores, produtores, profissionais audiovisuais, dentre outros. As principais atividades são de capoeira, teatro, artesanato e exibições de filmes. De acordo com Renato, o investimento do MinC colaborou para manter a boa estrutura do projeto.
O Consórcio Intermunicipal da Promoção Social (CIPS) também é um dos pontos da cidade. Com a quantia recebida do MinC, organiza oficinas semanais de circo, redes sociais, coral, flauta e violão. De acordo com Rivanesia Diniz, assistente social, a principal vantagem de ter se tornado um ponto de cultura é o fato de os alunos se interessarem mais pelas atividades que foram criadas, como as oficinas de circo e música. Dessa maneira, o projeto mudou o comportamento dos jovens, que hoje são bem mais interessados e disciplinados.
Segundo ela, o principal objetivo do CIPS é tirar os jovens das ruas, trazê-los para o ambiente artístico e, principalmente, prepará-los para o mercado de trabalho. “Recebemos desde crianças de três anos a adolescentes de 17”, conta. O edital do Plano termina em setembro do ano que vem. “Esperamos de verdade que o MinC abra outro edital, queremos muito continuar com as atividades e precisamos de investimento”, diz Rivanesia.
Panorama Nacional
Como os estudos em economia criativa ainda são recentes no País, ainda não existem dados específicos. Juarez destaca a importância de se ter acesso a dados concretos e diz que “a ausência de políticas públicas pode ser o reflexo da ausência de dados, o que não permite a realização de políticas públicas”.
O Ministério da Cultura publicou documento explicativo sobre o que é Economia Criativa e como ela se dá atualmente no Brasil. De acordo com ele, a contribuição dos setores criativos ao PIB do Brasil em 2010 foi de R$ 104,37 bilhões (2,84% do PIB). E o crescimento anual do setor criativo nos últimos cinco anos, relativo ao PIB, foi de 6,13%. Além disso, o documento diz que o número de pessoas exercendo ocupações formais no núcleo dos setores criativos é de cerca de 3 milhões, quase 9% do total de empregados no Brasil.
Os dados revelam que a área ainda está se consolidando e mostra a importância de novos investimentos por parte do governo. Afinal de contas, existe o lado bom: a renda dos trabalhadores “criativos” chega a ser 40% superior à média de renda de outros trabalhadores formais.
A Oficina Unesp-JC
A matéria na edição de hoje do JC Cultura foi fruto de uma oficina sobre jornalismo cultural, realizada durante a Semana de Comunicação da Unesp – SeCom 2013, evento que teve parceria com o Jornal da Cidade.
Cerca de dez estudantes participaram da oficina, que tinha como objetivo discutir sobre a editoria de jornalismo cultural, os desafios, a produção jornalística e promover troca de ideias.
PONTOS DE CULTURA EM BAURU
Fundação Inácio de Loyola/Família de Nazaré – Projeto Gente Legal
CIPS – Projeto CIPS - O mundo da cultura
ACAÊ ALFA – Associação Comunidade em Ação Êxodo – Projeto Locus Cultural
Instituto Acesso Popular – Projeto Acesso Hip Hop
Instituto Cultural Aruanda – Projeto Amostras e Mostras da Cultura Popular Brasileira
Clube da Viola de Bauru – Projeto Acordes de Viola
Casa da Esperança – Projeto Esperança em Dança
Cineclube Aldire Pereira Guedes – Projeto Cinema para todos
Instituto Cultural Olorokê – Cultura Yoruba e Candomblé – Projeto ORUN AYE: Caminho para compreensão da África
ONG de Educação, Cultura, Esporte e Lazer Periferia Legal – Projeto Hip Hop Legal
Fonte: Secretaria Municipal de Cultura