08 de julho de 2026
Cultura

Intocável só no nome


| Tempo de leitura: 5 min

Um calhamaço de 864 páginas, com uma exaustiva pesquisa na contabilidade, nos tribunais, nos acordos comerciais, nos prontuários médicos do biografado. Poderia ser uma história sobre um banqueiro ou um especulador de Wall Street, mas é com base nesse substrato de pesquisa minuciosa no lado financeiro que se monta um retrato até então inédito de um pop star.


“Intocável - A Estranha Vida e a Trágica Morte de Michael Jackson”, um dos livros mais controversos da temporada, do norte-americano Randall Sullivan, chegou ao Brasil pela Companhia das Letras. A biografia foca nos caóticos quatro últimos anos da vida de Jackson, que morreu no dia 25 de junho de 2009, aos 50 anos, vítima de uma parada cardíaca causada por um coquetel de medicamentos, alguns de uso médico restrito.


Randall Sullivan sustenta que Michael Jackson provavelmente morreu virgem, sem ter consumado nunca uma relação sexual (embora tivesse sido casado duas vezes); que foi ostensivamente explorado pela família a vida toda (chegaram a cobrar dele US$ 250 mil cada um para aparecer ao seu lado no Madison Square Garden).


Ao ser lançado, o livro foi violentamente atacado no site de vendas da Amazon, no Facebook e no Twitter por um grupo que se autointitulava Rapid Response Team to Media Attack. Os fãs de Michael Jackson o acusavam de “fazer de tudo para desumanizar, destroçar e destruir, contra todos os fatos objetivos” o mito do cantor.


“A campanha na internet foi organizada, uma saraivada de falsos comentários de um mesmo grupo. Era uma posição difícil para se estar no meio”, afirmou na sexta, em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo, o biógrafo Randall Sullivan. Mas o livro também recebeu uma traulitada da crítica Michiko Kakutani, do New York Times, que o chamou de “dispensável”, Sullivan ri e rebate dizendo que, com a crítica, entrou em um clube de autores notáveis que a crítica, por força do hábito, tentou destruir.

 

Fascinação pelo ‘Rei do Pop’

Randall Sullivan tem sido editor e colaborador da revista Rolling Stone por mais de duas décadas. Autor de “The Miracle Detective” (livro que inspirou a série televisiva homônima), mora no Oregon, nos Estados Unidos. Disse que não tem planos de vir ao Brasil para o lançamento do volume.


Sullivan não rebate a principal crítica que fazem a seu livro, a de que aborda muito pouco o legado musical de Michael, e explora muito sua vida privada. “Eu não quis escrever sobre a música de Michael Jackson, mas sobre a pessoa”, afirmou.


As histórias de excessos que permeavam o mito o fascinavam. Por exemplo: para promover o disco “HIStory”, Michael gastou cerca de US$ 30 milhões, o que incluiu mandar fazer 30 estátuas de 10 metros de altura (uma das quais flutuava no Rio Tâmisa, em Londres).


Há pequenas revelações no livro, especialmente sobre drogas e sexualidade, mas também sobre a mágoa de MJ a respeito de críticas negativas e até a história de que um dos filhos de Michael (que todos supõem adotivos) desenvolveu vitiligo, que o artista também tinha.


A tentativa de suicídio de Paris Hilton, a filha de Michael Jackson, em junho, mostrou que essa é uma história em progresso, que nunca acaba. A luta pelo legado de Michael ainda vai levar muito tempo. As forças em torno disso brigam pelo que resta, pelo que pode ainda haver, e nós ficamos no meio disso. Confira a entrevista com o autor:


Quando você aceitou o desafio de fazer esse livro, quais eram suas principais preocupações?


Sullivan - A maior preocupação era que as pessoas primeiro lessem o livro. Porque a campanha que foi colocada em marcha por esse grupo de fãs, esse falso grupo de fãs, foi iniciada muito antes de o livro ser publicado, eles nem sequer leram. Era uma campanha baseada em informações totalmente falsas, então era muito difícil estar no meio disso como autor, ser atacado por pessoas que não tinham lido o livro, que reclamavam de coisas que não estavam de fato no livro. Então, minha preocupação era primeiro que se formasse uma massa crítica.


No seu livro, Michael parece ser uma vítima do sistema. Quem você diria que foi o maior culpado por sua tragédia? O pai dele, Joe, ocupou um papel muito central na trama. Ele foi o maior culpado?


Sullivan - Ninguém é culpado. Mesmo Joe Jackson, que é quem tem mais culpa e, ao mesmo tempo, foi o maior incentivador de Michael. Foi ele quem primeiro farejou o talento de Michael, que o forjou para ser um astro. Ele o ensinou, lhe deu as primeiras noções de palco na idade mais tenra. Ele seria descoberto de qualquer modo, mas Joe o levou a Barry Gordy, imaginou o que ele seria no mundo do show business. É claro que o explorou, assim como todo mundo. Todo mundo sabe como explorar um ovo de ouro.


Sobre a sexualidade de Michael: ele era gay ou não?


Sullivan - Não, eu não acredito que ele fosse gay. Na verdade, tenho certeza que não era.


Mas também não era heterossexual, era?


Sullivan - Ele não teve relacionamentos sexuais convencionais. Em diversas ocasiões, ele se mostrou atraído por mulheres. Olhava muito as garotas, uma vez me falou de como se sentia atraído por determinada garota. Mas nunca se mostrou atraído por nenhum homem. Ele teve encontros físicos com mulheres, mas não os consumava.


Esse é um ponto dos mais contestados por fãs de Michael na internet, suas conclusões sobre a sexualidade, a hipótese de que tenha morrido virgem. Como você vê isso?


Sullivan - O grupo que me atacou acreditava que a sexualidade de Michael era perfeitamente normal, saudável, que tinha namoradas. E isso não era verdade. Ele nunca teve nenhum contato físico com Debbie ou Lisa Marie (suas ex-mulheres). Michael beijou muitas garotas, mas era algo que fazia apenas para consumo público.


Há muitos médicos em sua história, assim como desperdício de dinheiro. É espantoso: você descreve como ele ganhou US$ 40 milhões de dólares com o primeiro disco, e depois descreve como ele ficou sem dinheiro para pagar o hotel por três dias...


Sullivan - Não acredito que, na história da raça humana, alguém tenha conseguido ser pior do que ele em gerir as próprias finanças. Mesmo após a morte, ele gastou meio milhão de dólares com os funerais. Nos últimos dias de vida, os cartões de crédito foram cancelados, ele não tinha dinheiro para pagar as contas nos últimos tempos.