Os 45 mil moradores de Humaitá, 675 km ao sul de Manaus (AM), em plena selva amazônica, estão em guerra declarada contra os índios. A presença ostensiva de 500 homens do Exército, Força Nacional e Polícia Federal desde sábado, 28, na região tem evitado novas ações, mas não serenou os ânimos.
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Força-tarefa faz operação na área dos índios tenharim, em Humaitá, sul do Amazonas |
Desde o Natal, quando pelo menos duas mil pessoas, revoltadas com o desaparecimento de três moradores na reserva, incendiaram a sede da Funai, a Casa de Saúde do Índio, veículos e um grande barco usado para atender essa população, os indígenas foram banidos da cidade.
Os 1.446 índios das etnias tenharim, parintintin e mura, que habitam Terra Indígena Tenharim Marmelos, com 474 mil hectares, eram presença constante nas lojas, restaurantes, praças e locais de diversão de Humaitá. Eles vinham de carro ou moto, faziam compras, iam a restaurantes e lanchonetes. Desde os incidentes, em que também os pedágios dos índios na rodovia Transamazônica foram queimados, não se vê um índio sequer pelas ruas. Eles estão acuados nas matas da reserva, enquanto um grupo de 140 indígenas permanece asilado no Batalhão de Infantaria de Selva de Humaitá.
Ontem, a Polícia Federal rastreava a floresta com helicópteros, navegadores de selva e cães farejadores em busca dos desaparecidos, ainda sem resultados.
A população não faz concessões. “Enquanto não houver uma resposta para o que aconteceu lá, é melhor que os índios não apareçam por aqui”, diz o garçom Edemilton Silva Palheta, de 27 anos. Segundo ele, os índios frequentavam o restaurante Palhoça, onde trabalha, em grupos ou em famílias.
A funcionária pública Marlene Souza conta que uma menina índia se tornou amiga de sua filha, numa escola particular. “Temos índio aqui que é professor, a gente respeita como seres humanos, mas como podemos confiar neles depois do que aconteceu? Por mim, eles podiam voltar e acabar com tudo isso, mas não sei quanto à população. Revoltada, a população é capaz de tudo”, alertou.
O almoxarife Edvan Fernandes Fritz, de 29 anos, admite que não gosta dos índios da reserva. “Eles vêm na cidade, fazem a baderna que querem e fica por isso. Agora que o povo reagiu.” Segundo Fritz, o desaparecimento dos três amigos foi o estopim.
Para o madeireiro Elias Trepak, 60 anos, morador de Humaitá, a cobrança de pedágio na Transamazônica está na raiz dos conflitos com os índios. “Temos dois brasis, um, esse em que a gente vive, o outro, um brasilzinho que o governo reservou para os índios, mas o brasilzinho é que manda, porque o governo dá asa para eles.” Segundo ele, há mais de seis anos os índios controlam a Transamazônica nos 140 quilômetros da reserva e não se faz nada.
Ameaças
Os mais de cem moradores da cidade que trabalham com os índios estão assustados, pois passaram a receber ameaças. Uma enfermeira que pediu para não ser identificada disse ter recebido uma ligação para tomar cuidado, pois sua casa também pode queimar. Segundo ela, há índios doentes sem assistência na reserva.
Representantes da Funai que atendem o grupo abrigado no batalhão do Exército não quiseram se manifestar, alegando que o órgão já emitiu uma nota.
A assessoria do prefeito de Humaitá, José Cidinei Lobo do Nascimento (PMDB), informou que ele está empenhado numa solução para o conflito, mas acredita que o fim da discórdia passa pelo esclarecimento da morte do cacique e do desaparecimento dos civis e, ainda, pela solução do problema do pedágio.
Procurado, o cacique Ivanildo Tenharim, que acompanha os índios no batalhão do Exército, disse que não estava em condições de falar com a imprensa.