Onde está o outro indivíduo no espaço público? Aquele que tem seus anseios, seus direitos e seus deveres que lhe permitem incorporar ? ou não - o conceito de cidadania. Contudo, não responda a questão antes de aproximar o olhar para as salas de cinema, um local onde o brilho dos celulares disputa a atenção durante a projeção de um filme. Onde falar ao telefone é uma autoconcessão que visa anular aos que compartilham desse espaço.
Depois, que tal ir ao supermercado e observar as vagas reservadas aos idosos e aos portadores de necessidades especiais? Você verá que ambas são continuamente desrespeitadas. Lá estão presentes muitos subterfúgios como, por exemplo, a tentativa em atenuar a ausência de respeito ao acionar as luzes de alerta ou de correr para as compras, semelhante a uma autoimunidade concedida por aqueles que tratam de seus próprios interesses.
Nas escolas, a ?fila dupla? instituída antagoniza o que se apregoa e o que se vive no mundo real. Entre a regra e o modelo a seguir ? não raro - estão presentes os pais, que referendam o ?ego? de seu filho que repetirá tudo em algum momento, pois aquilo que os pais fazem é mais forte se comparado ao que eles dizem. Além de repetir os gestos, a criança repercutirá tudo o que foi apreendido de maneira intensa e constante, já que a população é crescente e a cada instante são emplacados mais carros. Todos dividirão o mesmo espaço público.
Para o contexto atual, é uma pretensão esperar mudanças oriundas de campanhas frágeis e de curta duração. Soma-se ao fato de que vivemos num modelo de sociedade onde tudo o que exige mais tempo para ser modificado somente receberá investimentos se for de extrema necessidade ou rentável.
Muitos esquecem de que o território de ?um indivíduo? é constituído por ?muitos indivíduos?. Dentro desse enredo não são as máquinas ou as tecnologias as responsáveis pela exacerbação desse individualismo, mas uma cultura que entrelaçou as máquinas e as tecnologias para manifestar algo inerente ao humano.
Diante dos vínculos sociais que retroalimentam o individualismo no espaço coletivo, é possível notar a inexistência de políticas públicas e privadas capazes de gerir a transição da cultura. Uma cultura onde o outro tenha um valor profundo. A propósito, se o termo ?transição? significa passar de um lugar para outro, isso significa que a ausência de políticas ecoa as dúvidas sobre qual direção seguir e como mudar um espaço em que o público é concebido de modo individualista.
O autor, Renato Dias Baptista, é doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP e docente da Universidade Estadual Paulista/Unesp. E-mail: rdbapt@gmail.com