Uns olham para trás para rememorar as coisas boas que o ano que se finda lhes proporcionou e alimentam o desejo que o ano novo seja igual, ou melhor. Outros querem esquecer o passado, que em algum aspecto não foi bom, como se lembrá-lo prejudicasse a esperança de dias melhores. E há os que olham o passado para planejar o futuro, tirando lições de atitudes e decisões das quais se arrependem e de outras que gostariam de ver repetidas e, mesmo, melhoradas para uma vida mais próspera. Roberto Campos, diplomata, ministro e senador, aos 75 anos olhou para trás e, em mais de 1.300 páginas, relatou sua experiência, com os acertos e desacertos. Com modéstia escreveu: "Nunca tive profundidade, inteligência ou poder para erguer um farol que lançasse um facho de luz para as futuras gerações. Estas memórias são apenas uma Lanterna na Popa de um pequeno barco."
Olhar para trás não muda nada, a não ser na ficção do túnel do tempo. Apenas pode despertar sentimento de orgulho, de vaidade, ou de tristeza. Mas, se analisado com a preocupação do futuro, pode ajudar a vencer dificuldades e tornar a vida melhor. Se o ano que passou trouxe dissabores, não será lamentando que serão preparados dias melhores, mas com o ânimo firme de começar de novo, lembrando que ?começar de novo? é lição da própria Natureza, que se renova a cada dia. Também não será apenas contemplando os feitos do passado, mas concentrando energia em projetos para os dias que virão. Isso vale para moços e velhos. Os moços têm uma perspectiva maior, com tempo para projetar e construir ? preparar-se para a vida profissional, fazer carreira, constituir família, criar bens. Os que já passaram dessa fase também podem contribuir para dias melhores com atividades intelectuais, artísticas, recreativas, para as quais possuem condições ou ajudando os que os ajudam ? familiares, médicos, cuidadores, com acatamento, paciência e gratidão.
O mesmo raciocínio também vale para as organizações privadas e públicas. Elas podem ter tido um ano bom, de sucesso ou podem ter contado com algum fracasso. A lanterna de popa pode ajudar na análise dos projetos, mostrando as ondas e vagalhões que o barco venceu sobranceiro e aquelas ocasiões quando entrou água e precisou de socorro para não afundar. Eike Batista, considerado grande empreendedor e almejando ser o homem mais rico do Brasil, teve um ano péssimo. Usou farol de proa muito alto, enxergou tão longe que não viu o mar próximo. Com lanterna de popa deve estar olhando as ondas cobertas de espuma que foi deixando para trás. Com os novos investidores, analisando as causas do malogro, quem sabe recomece concebendo projetos mais realistas. Por sua vez, Jorge Paulo Lemann, que já é o homem mais rico do Brasil, só tem usado farol de proa regulado para distâncias alcançáveis. Em depoimento sobre sua carreira, prestado na consultoria do professor Falconi e publicado pela Exame, ele conta o sucesso que teve no banco Garantia e depois na aquisição da Lojas Americanas, da Brahma e a formação da AB Inbeve, a maior cervejaria do mundo. Textualmente ele diz: "Aprendemos que, para construir algo duradouro, você tem de pensar sempre no que vai dar resultado no longo prazo, e não simplesmente no próximo semestre ou no próximo ano."
Como estamos entrando em novo ano, que também é eleitoral, e vamos ouvir muita louvação do que foi feito no passado, ocultando o que deveria ter sido feito e não foi, e de muitas promessas que desrespeitam a nossa inteligência, pela evidência do absurdo, vale a pena ler o que Roberto Campos escreveu em Lanterna na Popa: "Há países naturalmente pobres, mas vocacionalmente ricos. Há outros que têm riquezas naturais, porém têm vocação de pobreza. Às vezes fico pensando, com melancolia, que talvez estejamos neste último caso. Não nos faltam recursos naturais, mas sua mobilização exige abandonarmos nossa grave e renitente tradição inflacionária e um grau maior de abertura internacional. Nossa pobreza não pode ser vista como uma imposição da fatalidade. Parece antes uma pobreza consentida, resultante de mau gerenciamento e negligência na formação do capital humano." Que o novo ano seja iluminado com farol de proa, mas não muito alto, para não ficar infeliz se não atingir o alvo colocado muito distante.
O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru e membro da ABLetra