10 de julho de 2026
Bairros

Bairros diferentes, dificuldades parecidas


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De olho no tempo  

“Não preciso nem falar quais são as dificuldades de quem vive em uma rua de terra, basta olhar. Por aqui, temos promessas. E só”, relata o aposentado Bento Pacífico de Camargo, residente da quadra 3 da rua Ezequiel de Mendonça, no Parque Santa Cândida.

Ele ressalta que nem ambulância chega para atender os moradores da quadra onde vive, porque a areia se acumula em grande quantidade e impede que veículos por ali transitem. Isso sem falar na erosão que se forma nas quadras de cima. “Era para o ônibus circular passar por aqui, o que não acontece. A linha faz ponto no quarteirão de trás. Não tenho carro, mas já perdi a conta de quantos automóveis eu ajudei a empurrar nesse areião todo. Imagine como fica isso tudo com muita água”, projeta.

Entrou lama

Vizinho de “seo” Bento, o casal Maria Cristina e Antônio Joaquim da Silva já colheu dezenas e dezenas de assinaturas para tentar trazer asfalto para o bairro, mas o areião em frente ao imóvel do casal ainda preocupa, principalmente quando há sinal de chuva.

“Já entrou água em tudo aqui, por isso, antes que a chuva venha com força, colocamos sacos de areia e tábuas para impedir a enxurrada. A areia desce de toda a rua e fica aqui depositada. O pessoal da prefeitura vem, joga terra dentro dos buracos das quadras de cima e a água empurra essa terra para baixo. Mas o IPTU vem aí e temos de pagar, independente de termos ou não infraestrutura”, indigna-se Maria.

Receber mercadorias para o bar é outro desafio diário para o casal. De acordo com Antônio, devido aos buracos e areião, os caminhões não chegam até o endereço. “Eles param há muitos metros daqui, na esquina, porque se vierem, ficam presos”. 


Acessibilidade zero

Se não é fácil para a população em geral transitar por ruas de terra, imagine para quem tem algum tipo de deficiência física. Impedido de desfrutar do seu direito constitucional de ir e vir. Assim se sente o aposentado Jorge Munhoz Morales, de 57 anos, morador da quadra 2 da rua Vidal Ignácio Rodrigues, uma das vias sem asfalto da Vila Ipiranga. Para se locomover, há três anos Jorge trocou as muletas por uma cadeira de rodas motorizada por causa da paralisia infantil. 

“Vivo neste endereço há 25 anos. Quando não chove, eu consigo andar por aí sozinho. Não gosto de ficar em casa, sabe. Vou ao supermercado, farmácia, enfim, gosto de me cuidar e passear. Entretanto, quando a chuva vem, a falta de infraestrutura me deixa ilhado dentro de casa e dependo de outras pessoas para tudo. Já tive promessas até mesmo do prefeito, que já esteve em minha casa. Mas nada foi feito até agora”, desabafa.

Sem sair de casa, não são somente as compras no supermercado, o pagamento de contas ou o passeio que ficam prejudicados. A fisioterapia também. “Imagine, se eu pensar em tentar transitar sobre o barro, corro o risco de estragar a cadeira, cair... E este não é um problema exclusivo da rua onde moro. Bauru praticamente não tem acessibilidade nos bairros e isso se estende para muitos trechos da região central, onde faltam até rampas, infelizmente”, diz.


Esgoto e entulho

Além de terra para todos os lados e erosão, as ruas sem pavimentação muitas vezes ainda apresentam outra realidade bastante desagradável: o esgoto que corre a céu aberto. E é isso que vem tirando o apetite dos habitantes de algumas quadras da rua Milton Dias de Carvalho, no bairro Tangarás.

O auxiliar de almoxarifado Júnior César Barbosa, por exemplo, há 26 anos reside na quadra 4 da referida rua. Segundo o morador, a rede de esgoto estourou há pelo menos dois meses e poças se formam em frente à sua casa. “Já ligamos para o Departamento de Água e Esgoto (DAE), mas até agora nada foi feito. Eles dizem que vão mandar uma equipe para ver o que está acontecendo... E fica nisso. O cheiro é insuportável, com esse calor, então... Não dá gosto nem de almoçar”, reclama.

Entulho nos buracos

Também na rua de Júnior, verdadeiras montanhas de entulho de construção civil foram colocadas dentro das imensas crateras ali existentes como uma tentativa dos moradores para amenizar a erosão. Entretanto, tal medida não resolve o problema e a aparência e o tráfego da rua ficam ainda pior. “Quando chove bastante, os buracos aumentam, carros não passam por aqui e tudo só piora”, lamenta.   


‘Quando chove, parece enchente’

Sem asfalto e, portanto, sem calçadas, quem passa pela rua Maurício Pereira de Lima, na Pousada da Esperança II, precisa transitar pelo meio da rua e desviar do esgoto que corre livre e deixa toda a região malcheirosa. Por ali, crianças brincam, idosos passam e nada parece mudar com o passar dos anos. Ao menos é o que sentem os moradores, como a dona de casa Meiryellen Lopes Pinheiro, que habita a quadra 1.

“A situação se repete em muitos lugares da Pousada. A areia das ruas entope o esgoto e ele escorre feito um córrego pelas ruas oferecendo perigo de contaminação para quem vive por aqui, principalmente as crianças. Mas esse não é o nosso único desafio”, enfatiza.

De acordo com a dona de casa, as chuvas de verão, que já começam a cair, retomam o anual problema de quem vive em ruas de terra: buracos, lama e até pequenas enchentes. “A prefeitura vem com as máquinas, dá uma melhorada nas vias, mas dura pouco, até a próxima chuva. Quando a água vem forte, a enxurrada vem ladeira abaixo com tanta força que até parece uma enchente, represando a água em alguns trechos”.

E quando isso acontece, Meiryellen conta que o carro não sai da garagem, não dá para fazer supermercado ou ir ao posto de saúde... “E assim a gente vai vivendo”.


Buracos e escuridão

Com ou sem chuvas, a rua Antônio Souza Noschese, no Parque Industrial Manchester, tem nos buracos verdadeiros obstáculos no caminho diário de crianças e adultos. E para deixar o trajeto ainda pior, boa parte da via fica no escuro, já que existe apenas um poste de iluminação para um extenso trecho da rua onde vivem as donas de casa Gislaine Aparecida Moraes dos Anjos e Vanda Alves, moradoras da quadra 7.

“Como se não bastasse os buracos de sempre, que aumentam muito quando chove, a rua é pouco iluminada, praticamente sem luz à noite porque temos apenas um poste na rua. Por causa disso, não é difícil encontrar quem já tenha caído por aqui”, conta Vanda.

No inverno ou no verão, viver em uma rua sem capa asfáltica é um desafio. Com a estiagem, o transtorno é a poeira que invade as casas e agrava ainda mais os problemas de saúde típicos da época. “Quando vem a seca, portas e janelas vivem fechadas. A chuva ajuda a cessar o pó, mas transforma a terra em lama e agrava os buracos na rua. Conclusão, carros não passam por aqui e as crianças precisam andar mais para pegar o ônibus escolar”, acrescenta Gislaine.