08 de julho de 2026
Articulistas

O que pode dar certo

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

O filme "A vida secreta de Walter Mitty" (em cartaz) tem um valor especial para quem trabalha com meios de informação. Aborda diretamente a transição de veículos impressos para o ambiente on-line. Como em todas as mudanças de processo acontecem as pequenas tragédias do desemprego. O que era considerado poderoso e influente, um dia acaba. Anos de dedicação, profissionalismo e lealdade às empresas são simplesmente atirados no lixo. Os babacas encarregados da transição ainda se fingem entristecidos e se fazem de vítimas pela dura missão de pôr na rua tantos chefes de família. O filme conta a história fictícia da última edição da revista Life, que de fato existiu. Foi a maior publicação informativa do mundo no formato magazine; aquele que privilegia o visual com textos curtos de interesse geral. No seu auge chegou a 8 milhões de exemplares em várias línguas. O forte eram as imagens belíssimas e impactantes flagradas pelos maiores fotógrafos, que viajavam o mundo todo. Onde houvesse conflitos humanos, belezas naturais, exotismos, miséria e riqueza, sensações, sempre havia um repórter da Life por perto. Fundada em 1936 por Henry Luce, editor da Time, desapareceu em 1972, paradoxalmente ainda como sucesso editorial, mas sem perspectivas face à concorrência da televisão. Como competir com imagens imediatas em movimento, som e cores? A Life se transformou em suplemento de outros jornais com arquivos históricos e aderiu ao jornalismo em rede. O átomo (papel) foi substituído pelo dígito. Todos os grandes acontecimentos do século 20 e as maiores personagens na política, no esporte, nas ciências e multidões de anônimos sem história passaram pela revista. O importante na foto é "capturar o espírito das pessoas e das coisas". A "quintessência da vida". O que está por trás das paredes.

Na tela, os derradeiros dias da revista acontecem pelo prisma de Walter Mitty (Ben Stiller, também o diretor), que é o responsável pelos arquivos de cromos e negativos. O cargo já é arcaico na era digital. No tempo da Life, o seu trabalho era fundamental. Afinal, sem fotos a revista não existiria. Ele recebe um pacote de negativos de um famoso fotógrafo, com a indicação de uma foto para ser utilizada na última capa da revista. Mas tem um problema, tal foto não está no pacote e ele é obrigado a procurar o misterioso fotógrafo Sean O?Connel (Sean Pen) que não tem telefone e vive em lugares perigos em busca de grandes imagens. Quando o encontra, ele está numa montanha gelada do Afeganistão, de campana para fotografar um raríssimo leopardo das neves. Quando o felino está no visor da máquina ele não dispara o obturador. Prefere apreciá-lo com os olhos livres sem se preocupar em congelar o momento. O longa tem muito do design de revista, com photoshops, efeitos digitais e peripécias do tipo Forrest Gump. Há uma piada sobre o filme Benjamin Button - aquele em que o personagem nasce velho e vai ficando cada vez mais jovem até desaparecer num orgasmo. Walter Mitty (mittyesque, em inglês significa indivíduo fora do tempo) é um sonhador que não tem nem história para completar o cadastro de um site de relacionamento. Não é lá um grande filme, mas os cenários, a fotografia e os efeitos visuais fazem a diferença. Há uma belíssima cena musical com "A Space Oddity", clássico de David Bowie.

A lição que o filme deixa para os profissionais da mídia é de que atravessamos tempos de mudanças de estratégias. Novos tipos de conteúdo surgem mais adequados para audiências em movimento. O celular de Mitty funciona nos mais inóspitos cumes de montanhas. Quem não se pluga não arruma nem namorada. Em nenhum outro tempo a informação foi tão importante e valorizada e também nunca foi tão abundante e democratizada. O acesso é farto e fácil, mas não estamos felizes: quanto mais informações encontrarmos disponível, maior a sensação de que em algum lugar existe alguma coisa muito importante que deveríamos estar sabendo, mas desconhecemos. É o mal da angústia da informação. O trabalho do jornalista continua importante. Pode ser ele o filtro necessário para separar o realmente relevante. Para isso precisa de credibilidade. A overdose de informação será sucedida pelo poder do conhecimento, e o importante de fato não será mais o quanto sabemos, mas o que podemos fazer com o conhecimento adquirido. Como diz o compositor Torquato Neto: "Só quero saber o que pode dar certo. Não tenho tempo a perder".

O autor, Zarcillo Barbosa é jornalista e articulista do JC