08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Uma vida diferente


| Tempo de leitura: 2 min

Assisti a novela "Amor à Vida" e um personagem me chamou a atenção, quando menciona a saudade que tinha de ser o Gentil. E me perguntei: mas ele não é o Atílio? Sim, ele também é o Atílio. Resumindo uma estória comprida, Atílio perdeu a memória em um acidente e passou a viver uma outra vida. De executivo bem sucedido, passou a ser simplesmente Gentil, um sem eira nem beira. Conheceu Márcia, uma ex-chacrete muito simplória, e com ela foi morar. Começou a vender cachorro quente e, pasmem vocês, estava feliz.

Acontece que ele recobra a memória e volta a ser o executivo, mas sente falta do Gentil, das coisas simples, genuínas, das emoções à flor da pele, da falta de normas que tudo definem.

Acredito que todos nós alimentamos um desejo secreto de uma vida diferente, em outro lugar, sem o peso da bagagem, e no caso sem o peso do Atílio. Normalmente, esse desejo aflora em momentos de crise, quando a pressão é grande, e fugir parece uma alternativa sedutora.

Será que realmente precisamos de uma situação limite para buscarmos uma vida diferente? Precisamos abandonar o que fomos até então? Não tenho as respostas, pois sei que rupturas são difíceis, demandam coragem e até uma certa dose de insanidade. Mas muitas vezes essas rupturas são necessárias, principalmente quando o jeito que vivemos tira de nós o entusiasmo, a alegria, o prazer de viver.

Convenhamos que viver não é coisa para amador. As dificuldades estão aí todos os dias. Mas também viver apenas para vencer os desafios torna tudo muito árido e sem graça. Por isso, é preciso algo que nos alimente de energia e disposição para enfrentar os obstáculos no caminho.

Para encontrar essa energia e disposição, não é preciso abandonar Atílio e ser Gentil ou vice-versa. Sendo nós mesmos (e sendo os dois), podemos buscar algumas mudanças não tão simples, é verdade, mas importantes e capazes de nos trazer uma vida diferente e, quem sabe, até feliz: um executivo estressado se transformando no escritor que no íntimo sempre desejou ser ou a advogada que sempre brincou de professora e, finalmente, encoraja-se para ser uma.

É início do ano. Após as festas, percebemos que nada mudou, apesar do ano novo. Talvez seja uma hora apropriada para pensar naquela vida que secretamente desejamos e o que é necessário para torná-la realidade. Se demorar muito, pode ser que não tenhamos oportunidade de viver aquela que sonhamos nem a que temos hoje.

Antonio Augusto