10 de julho de 2026
Geral

Geração ?canguru? estica gasto de família

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 9 min

Malavolta Jr.

Carol Benedetti, Ana Claúdia Spinelli e Isabela Farias acabam de concluir o colegial e sabem que o custo do cursinho ou da faculdade  vai continuar pesando no bolso dos pais 

Na flor da idade, eles estão cheios de energia, ávidos por ferramentas digitais, são mais consumistas que seus antepassados, querem antecipar liberdades dentro e fora de casa e continuam dependentes do bolso dos pais por mais tempo que outras gerações. A chamada “geração canguru” repete em Bauru o fenômeno econômico-social apontado por economistas como um dos principais motivos do nível de desemprego continuar baixo no País, apesar do pífio crescimento da economia.

Beneficiados pelo aumento da renda familiar e uma espécie de “compensação emocional” dentro dos lares, jovens com idade para alimentar a estatística da população economicamente ativa estão procurando emprego cada vez mais tarde. Boa parte continua grudada no contracheque dos genitores até a formação superior.

Em Bauru, os jovens de 15 a 19 anos somavam 26.699 cidadãos pelo censo de 2010, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Mas, ao contrário da geração de seus pais, 16.762 bauruenses desses estavam sem trabalho. E, segundo a pesquisa, 4.464 eram da turma apelidada de “nem nem’: nem trabalho nem estudo. Já entre os com idade de 20 a 24 anos, sendo 17,2 milhões em todo o País e 29.742 em Bauru, a situação se acomoda. 9.274 foram identificados como  sem trabalho, embora 21.560 estivessem fora da escola, conforme o IBGE.

São jovens apontados por estudos em economia como os responsáveis em boa dose pela estagnação da População Economicamente Ativa (PEA), embora tecnicamente estejam em idade de geração de trabalho, produção e renda. Bancados pelos pais, eles ajudam na dinâmica de mercado que minimiza os indicadores de desemprego, apesar do Produto Interno Bruto (PIB) continuar em nível abaixo do necessário para dar vazão à iminente demanda social por trabalho.

De outro lado, cada vez mais as famílias bauruenses (e brasileiras) geram menos filhos e os mantêm por tempo mais prolongado sob a custódia financeira dos pais. “É a combinação de famílias com menos filhos com um contingente que já tem mais de 18 anos, mas vai procurar emprego mais tarde, o que interfere diretamente na redução da pressão sobre a taxa de desemprego”, define o economista Wagner Smanhoto.

 

Conceito de desemprego

Wagner Smanhoto lembra do conceito de desemprego para avaliar o quadro. “O conceito de desemprego é de alguém que procura e não encontra vaga por falta de experiência ou de capacitação ou porque não tem mesmo oferta para contratação no mercado. Nós estamos falando de menos gente procurando emprego exatamente na idade de buscar emprego, ingressar no mercado”, cita.    

O economista se inclui no raciocínio do tema para ponderar que, além de serem bancados pelos pais por mais tempo na fase adulta, esses jovens são pertencentes a famílias de poucos filhos. “Os pais da minha geração tiveram mais de cinco filhos, muitos geraram bem mais que isso, o que apressou a buscar por emprego logo cedo para ajudar na divisão das contas da família. Mas a taxa de natalidade despencou de uma geração para a outra e nossos filhos já são de núcleos familiares onde poucos pais arriscam gerar mais de dois. Com isso, os novos pais estão destinando recursos para a formação dos filhos por mais tempo, o que retarda da busca pelo mercado”, aborda.

Ou seja, a “vida mais cara” mudou o comportamento e a consciência das famílias, com os casais povoando menos os lares brasileiros. “Isso também ajuda na baixa taxa de desemprego, como o adiamento da busca pelo contrato de trabalho”, reforça Smanhoto.

A economista Naiara Fracaroli aponta um elemento adicional nesse histórico. “Mudou a faixa de entrada real da massa de trabalho na equação da população economicamente ativa. Não é mais os 18 anos das gerações anteriores, mas a partir da formação do curso superior para uma boa parte desse contingente. É mais tarde que antes, com certeza. E o fato é que isso despressuriza a taxa de desemprego e não teria trabalho para todos, até porque a economia cresce menos do que o necessário”, pontua.

Naiara acrescenta que o contexto tem influência sobre a ansiedade desses jovens. “Se antes a pressão estava mais sobre o fim do colegial, a pressa em ganhar dinheiro para sobreviver até, hoje esses jovens ficam mais tempo ansiosos porque convivem com a busca da vocação no curso superior e o maior tempo sem condições de se sustentar. Pensa a ansiedade que precisa ser cuidada porque o jovem quer tudo para ontem, quer entrar no primeiro emprego já abalando, ganhando bem e isso só vem após alguns anos”, completa.   

 

Compensação emocional

 

Pais que vieram de uma geração que teve de trabalhar muito cedo podem, agora, adotar uma espécie de compensação emocional em relação aos filhos, como se a extensa jornada dedicada ao emprego tivesse de ser compensada pelo pouco tempo de relação com a próxima geração.

 

Este é um dos ingredientes levantados pela gestora de pessoal e relacionamentos humanos Alexandra Fabri. “Os jovens da chamada geração “y” e “z” são, em boa parte, filhos de pais que tiveram de trabalhar muito cedo, ralaram ainda na adolescência para ajudar em casa e se viraram sozinhos ainda adolescentes. Seus filhos estão sendo poupados, seus pais colocam o estudo como prioridade e nisso está embutido o sentimento de que esses pais não querem que eles enfrentem as mesmas batalhas”, argumenta.

 

A consultora, entretanto, aponta para o risco da compensação desmedida. “Uma questão é investir na felicidade dos filhos através do estudo, bancando esses jovens por mais tempo durante a fase de emancipação. Outra questão é tratar isso como uma compensação emocional. O pior é quando isso inclui certa dose de culpa pelo tempo que esses pais não tiveram para conviver com os filhos. Há questão comportamental, sociológica, psicológica e de reflexos de mercado envolvidos nisso. Se houver exagero, esse filho perde referência sobre responsabilidade e não amadurece”, aborda.

 

Alexandra Fabri adverte para a forma como empresários estão “vendo” essa questão. “Alguns empresários reclamam que essa é a geração que não quer nada, não está nem aí. Na verdade esses jovens querem sim escolher seus destinos, mas essa compensação retardada amadurecimento e decisões e o que está acontecendo é que os empresários estão recebendo jovens sem experiência e só com formação mais tarde”, cita.

 

Assim, é uma geração que chega com maturidade de mercado retardada em relação à prática. “São jovens com 20 anos mais imaturos para o mercado por falta de vivência, com amadurecimento tardio e mais despreparados para as rotinas competitivas do mercado. Mas isso não significa que não estão em aí. É o processo pelo qual são submetidos esses jovens. Portanto, a reflexão para os pais é se é bom poupar o jovem do trabalho com esses elementos. O pai que trabalhou para dar conforto aos filhos em sua fase de formação não tem de compensar nada”, posiciona Fabri.

 

 

Não somos como nossos pais

 

Os perfis são parecidos, a ansiedade pela indefinição na escolha do curso superior e a vontade de ganhar seu próprio dinheiro é igual. Mas os jovens que concluíram o ensino médio para abrir as portas da “geração canguru” não querem o sacrifício enfrentado pelos pais, embora coloquem na lista de reivindicação familiar a liberdade de comportamento.

 

Para Ana Cláudia Spinelli Honorato, Carolina Benedetti Gonçalves e Isabela Moço de Farias a carta de alforria ideal é “eu decido o que fazer e os pais pagam a conta”. As três concluíram no último mês o ensino médio e convivem, exatamente neste momento, com as dúvidas das escolhas a serem feitas até o pôr do sol dos próximos dias. “Pensei em trabalhar para ajudar a pagar a faculdade, mas é caro. Independência seria ter o próprio dinheiro e assumir sozinha todas as responsabilidades”, profetiza Ana.

 

Carolina também convive com as dúvidas naturais dessa fase. “Tentei biologia e direito, mas não sei como vai ficar se eu passar. Vou tentar prestar concurso para ter meu dinheiro e não precisar ficar mais pedindo, mas sei que não vou conseguir responder por tudo sozinha. Ter o próprio dinheiro agora reduziria bem a pressão”, arrisca.

 

Isabela reconhece os obstáculos. “Eu queria ter meu dinheiro, por mim e por minha mãe, mas também quero fazer minhas escolhas. Meu pai vai pagar a faculdade, mas penso em ter algum dinheiro meu para não depender tanto deles”, lança.

 

Todas disseram sentir a pressão da fase. “Tem a pressão pelo trabalho e a pressão pelo cursinho se eu não passar, a pressa para entrar logo em uma faculdade, mas a insegurança por decidir a carreira agora e também a dificuldade para conseguir emprego sem experiência”, pontuaram, em síntese, as três jovens. Carolina ponderou que o apoio dos pais lhe trouxe maior tranquilidade: “Eu estava preocupada, mas conversei e vou tentar a faculdade se entrar e, se não gostar, vou pedir para parar e começar outra”, acrescenta.

 

Outra informação vinda do trio: “muita gente da nossa turma não está nem ai, não pensa nem em trabalhar e só fala em morar sozinha e esperar pelo papai pagar”. O que “pega” na cabeça dessas jovens é o paradoxo entre liberdade e dependência financeira. Elas não escondem que o “desejo de consumo” é poder sim ter algum dinheiro, mas se ele não vier agora poder, desde já, exercer o ir, vir e fazer sem prestação de “contas” em casa.

 

 

Pais reconhecem: prioridade é estudar

 

Vanda Maria Moço de Farias é mãe de Gabriela, 21 anos, e de Isabela (17 anos) e, em casa, diz que leva em conta que “cada filho tem sua personalidade e perfil”. “Um filho é diferente do outro. Muda o perfil, muda o foco da preocupação. Com a Gabriela tive menos preocupação porque ela gosta de leitura e escolheu fazer Direito. Com a Isabela a indefinição é maior agora. Mas isso é normal. O importante é se preparar, estudar”, comenta.

 

A própria experiência de Vanda fomenta bons fluídos para as filhas. Ela foi fazer curso técnico em técnica de edificações e já está no mercado chefiando construções. “Não me preocupa a Isabela estudar fora, porque isso vai ser incentivo para amadurecimento. Eu sai para estudar e isso me amadureceu muito. No aso da Gabriela ela já estuda e trabalha desde a faculdade, então está encaminhada. Mas eu reconheço que muitos pais sofrem com cobrança dos filhos porque não estão prontos, mas acham que já podem tudo e isso gera conflito. Tem de lidar, isso passa”, indica Farias.

 

A assistente social Daniella Benedetti se vê nas dificuldades da filha Carolina. “É sem dúvida uma fase difícil para os filhos e os pais. São dúvidas o tempo todo, pela indefinição da escolha profissional, pela vontade de querer antecipar etapas e dar conta de tudo sem ter estrutura própria e pela reação ansiosa de querer ser independente mas sem ter nem como cuidar das próprias despesas”, enumera.

 

Ela aposta na mesma direção de Vânia. “Tem de dialogar, é normal, eu também vivi essas incertezas. É próprio da idade já se achar adulta. O importante no caso da Carol é que ela tem apoio para tentar a faculdade, se ela passar, e se não passar, começar tranquila e com foco o cursinho para corrigir a defasagem, o que faltou. Mas que essas meninas aborrecem com querer fazer o que entendem e sem dar satisfação, aborrecem”, confessa, com humor.