08 de julho de 2026
Bairros

Os desafios e cuidados para quem trabalha sob o sol

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 7 min

Malavolta Jr.

O agricultor urbano Mário Passeto trabalha em horta até 17 horas: chapéu não falta

Eles trabalham ao ar livre, livres também das quatro paredes dos escritórios. Mas, no verão, é o sol escaldante e as altas temperaturas que desafiam profissionais como carteiros, vendedores de picolé, trabalhadores da construção civil, servidores da equipe de varrição da prefeitura, agricultores... E como driblar o calor nessa rotina? Será que eles usam as roupas adequadas, óculos de sol e o fundamental protetor solar? (Leia nas próximas páginas)

Segundo a dermatologista Eliana Molinari de Carvalho Leitão, o uso de protetores solares com fator acima de 30 é fundamental para todos, principalmente para quem se expõe com frequência aos raios solares. “Qualquer marca é válida, desde que a pessoa se adapte à cosmética do produto. Para o couro cabeludo, é aconselhado o uso de filtro em spray, porque penetra melhor entre os fios, tem fácil aplicação e não deixa o aspecto de oleosidade. Isso também serve para o caso de braços e decotes de homens, que costumam ter pelos nessas regiões”, acrescenta.

Entre as áreas do corpo que mais ficam expostas e, portanto, estão mais propensas ao ressecamento, queimaduras e câncer de pele estão o rosto, couro cabeludo (principalmente em pessoas calvas), orelhas, nuca, lábios, região do decote e dorso das mãos.

A reaplicação do filtro solar garante proteção contra a radiação durante todo o dia, defende a dermatologista. Isso porque os filtros têm degradação natural com o passar das horas na pele, por causa do suor e da própria luz. “O ideal é passar o produto 30 minutos antes da exposição solar e reaplicá-lo a cada duas horas, no máximo três horas. Isso em qualquer parte do corpo sem roupa”, orienta.


Pés no asfalto quente

Quem trabalha diariamente sobre o asfalto quente deve atentar, além de todos os cuidados com a pele, hidratação e alimentação, também para a saúde dos pés. Os efeitos de tanta andança por necessidade de trabalho pode gerar consequências nada agradáveis, que vão desde inchaços, calos e alergias até fortes dores. O alerta é da podóloga Elisabeth Rodrigues de Castilho.

O mais indicado, de acordo com ela, é o uso de calçados flexíveis, ou seja, modelos que permitam que os pés fiquem à vontade fazendo a distribuição da sua estrutura corporal, e meias de algodão, de prefêrencia as sem costuras.

“O sapato errado pode causar desconforto, inchaços, dores, joanetes, calos e unhas encravadas”.

Quantos aos cuidados, uma boa higienização diária e suave é fundamental. “Depois de lavar os pés, uma hidratação deve ser feita com um produto à base de água, indicado para todas as pessoas, mesmo as que têm pés diabéticos. O bom é massagear os pés com movimentos leves e colocá-los para cima, em repouso”, aconselha Elisabeth.


Proteção é fundamental

Ele tem 83 anos e uma vontade de trabalhar que dificilmente se vê por aí. Há quase duas décadas, “seo” Mário Passeto dedica suas manhãs e tardes cultivando alface, couve, cebolinha, salsinha, brócolis e outras hortaliças e legumes na horta comunitária do Núcleo Habitacional Presidente Geisel, na quadra13 da rua Alziro Zarur. E garante: “O trabalho é o segredo da minha disposição”.

E para tanto trabalho de sol a sol, o sombreiro não sai da cabeça do aposentado e agricultor. “Nem o chapéu, nem a camisa de manga longa, que deve ser fina. Eu aprendi todos esses cuidados ainda menino, na roça”. Mas, e o protetor solar? “Eu uso, mas às vezes esqueço”, confessa, disciplinando a si mesmo. À noite, para o nariz não descascar, o hidratante é o segredo.

“Seo” Mário acredita que o ofício na agricultura alonga a vida, por isso, mesmo na cidade, não deixou a enxada de lado. “Eu levanto da cama às 5h e me deito às 21h, 21h30. Meus segredinhos de saúde. Sempre fui da roça e gosto muito desse trabalho. Tenho força para subir em árvores”, diz, e sorri.

 

Picolé a todo vapor

Quem também sente o cansaço do trabalho exaustivo é o vendedor de picolés José Antônio Januário, que tem as vendas aquecidas nessa época do ano. Camisa de manga longa e chapéu com aba e proteção na nuca são uniformes para ele, e a água, o combustível.

“Nossa, eu trabalho muito nesses dias quentes. Abasteço o carrinho e logo ele fica vazio. As pessoas querem um picolé para espantar o calor. Eu não posso porque tenho diabetes, caso contrário, tomaria meu estoque todo”, brinca. 


‘Deixo os setores de sombra para as horas mais quentes’

Enquanto trabalha, a gari Josiane Oliveira Borges observa todo o vai e vem de Bauru. Mas, sob o sol ardente, toda essa movimentação faz subir ainda mais a temperatura no Centro da cidade. Protegida com mangas longas, boné e luvas, ela afirma que o protetor solar tem sido sua companhia diária nesses dois anos de trabalho.

“A água é outra acompanhante. Não dá para fugir do sol, a gente precisa trabalhar. Mas é claro que temos nossos truques para amenizar a sensação terrível do calor. Um deles é deixar os setores de sombra para os horários mais quentes. Varrer embaixo da sombra de uma árvore é um verdadeiro alívio”, desabafa.   


Dá-lhe água!

Quantos litros de água você chega a beber em dias de calor extremo? A Secretaria de Estado da Saúde alerta sobre o consumo de água no verão, que deve ser abundante, pois o organismo perde muito líquido para controlar a temperatura. E quando o trabalho é realizado sob o sol escaldante...

Reinaldo Cerci, por exemplo, trabalha como pedreiro há cerca de sete anos. No momento da reportagem, ele estava com seus companheiros de trabalho em uma obra de reforma e ampliação de residência na quadra 4 da rua Sady Amorim, no Jardim Marambá. Pesado, o trabalho na construção civil exige força física e disposição. E, com o calor, a água é a aliada do trabalhador, que perde grande quantidade do líquido pelo suor. “A garganta fica seca o dia todo. Então, só a água mesmo para refrescar”.

E para mantê-la sempre geladinha, Reinaldo e os companheiros carregam sempre um garrafão térmico, que é reabastecido várias vezes ao longo do dia. Além da água, o pedreiro usa boné para se proteger sol, mas confessa que o protetor solar não faz parte de sua rotina: “Eu sei sobre os perigos, principalmente do câncer de pele, mas acabo me descuidando”.


Cortar grama o dia todo e deixar as vias públicas da cidade mais bonitas. Este é um dos trabalhos de Luiz Paulo da Silva, que atua há cerca de oito meses como ajudante geral na Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma). Quando falou com Luiz Paulo, a equipe do JC nos Bairros o encontrou sob o sol escaldante de uma típica tarde de verão bauruense, na avenida  Rodrigues Alves, altura do Horto Florestal.  

Todo equipado com proteção especial para o trabalho, com direito a botas, luvas, óculos de proteção, entre outras medidas, ele diz que a proteção também se estende contra os raios solares. “Protetor solar todos os dias, chapéu com abas e água, muita água. Nossos companheiros de trabalho são os galões de água. Acho que chego a beber oito litros diariamente. Isso é essencial, porque o suor não para de escorrer”, mostra.

 

De porta em porta

Contas e diversos tipos de correspondências chegam diariamente nas residências pelas mãos dos carteiros. Ligeirinhos, em poucos instantes eles percorrem quadras e mais quadras para não atrasar as entregas. Faça chuva ou faça sol. E que sol!

“Estamos sempre bronzeados, mas somente em algumas partes do corpo, como o rosto e as mãos”, diz o carteiro Adnan Camargo, com bom humor, enquanto trabalhava na quadra 3 da rua Anceto Abelha, no Jardim Gerson França.

Blindado com o equipamento de proteção fornecido pelos Correios (que desde 2001 distribui filtro solar aos empregados, além de acessórios como óculos de sol, camisas com mangas longas, bonés e chapéus), ele comenta que perde a conta de quantos litros de água bebe por dia. “Deve ser uns sete. Temos depósitos nos bairros para agilizar o trabalho. Abasteço lá, mas muitas vezes acabo enchendo a garrafinha nas casas. Tomo água quase como a frequência com que respiro”.