Mantido em estado vegetativo desde 2006, após décadas de controversa carreira política e militar, o ex-premiê israelense Ariel Sharon morreu ontem, aos 85 anos, deixando como legado a fama de belicista e, na contramão, a histórica retirada da faixa de Gaza que liderou durante seu mandato.
A morte ocorreu na manhã de ontem, conforme informações do hospital em que ele era tratado. Sharon deixa uma viúva, dois filhos e a herança de ter participado de toda a história militar do país nas fileiras da liderança.
Apelidado “Arik”, Sharon nasceu em 1928 no vilarejo de Kfar Malal. Aos 14 anos, juntou-se às fileiras da Haganah, a versão embrionária das Forças de Defesa de Israel. O início de sua biografia é um apanhado de sucessivas promoções no Exército, incluindo ter comandado uma companhia de infantaria na guerra de independência de 1948 e ter fundado, em 1953, uma unidade de elite responsável por retaliar ataques árabes.
Sharon estudou na Universidade de Tel Aviv, onde graduou-se em direito, em 1962. No Exército, ele comandou, nos anos 1960, tanto as regiões norte quanto sul, tendo também ocupado o posto de líder da divisão de treinamento militar. Suas vitórias nas guerras de 1968 e 1973, como elogiado estrategista, lhe renderam os títulos hiperbólicos de “rei de Israel” e “Leão de Deus”.
A carreira de Sharon tomou a senda política na década seguinte, em uma breve passagem pelo Parlamento, em 1973, seguida de sua renúncia. Em 1975, ele assessorou o primeiro-ministro Yitzhak Rabin no campo de segurança e, dois anos depois, foi eleito parlamentar, após o que se juntou ao partido de direita Herut que mais tarde se tornaria o Likud.
No governo, Sharon foi ministro da Agricultura e, em 1981, assumiu a pasta da Defesa durante o período crítico da Guerra do Líbano. Retirado da Defesa, Sharon foi realocado, em 1984, como ministro da Indústria. Em 1990, liderou o Ministério da Construção e da Habitação. Ele também teve a si, nessa mesma década, as pastas de Infraestrutura Nacional e de Relações Exteriores.
Na década seguinte, em uma provocativa visita à Esplanada do Templo de Jerusalém, local sagrado disputado por judeus e muçulmanos, Sharon desencadeou uma onda de revoltas que culminaram na Segunda Intifada, levante palestino com graves consequências políticas e centenas de mortos em ambos os lados.
Meses depois, responsável por reformular o partido de direita Likud, Sharon foi eleito em 2001 para o cargo de primeiro-ministro com a maior margem de vitória na história de Israel. Ele foi reeleito em 2003, após ter convocado eleições antecipadas.
Na liderança do país, em seu último grande feito como político e militar, Sharon manobrou governo e Parlamento a aprovar a retirada dos assentamentos israelenses na faixa de Gaza, em um gesto de grande dano entre o eleitorado colono.
Em 4 de janeiro de 2006, o premiê Sharon sofreu um derrame com hemorragia cerebral, pelo qual esteve por anos em coma. Em 2013, médicos haviam detectado atividade cerebral, em uma última fagulha de sua resistência.
Lideranças de territórios palestinos criticam Sharon
Os movimentos que governam os territórios palestinos aproveitaram a morte do premiê israelense Ariel Sharon para criticá-lo. Na Cisjordânia, o secular Fatah, ao qual pertence o palestino Mahmoud Abbas, o presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), classificou o israelense de “criminoso” e o culpou pelo assassinato do líder palestino Yasser Arafat.
“Esperávamos que ele (Sharon) comparecesse perante o Tribunal Penal Internacional como um criminoso de guerra”, disse o líder do Fatah, Jibril Rabub.
O Hamas, movimento radical islâmico que governa a faixa de Gaza, classificou a morte do premiê israelense de “momento histórico”. “Nós nos lembraremos de Sharon como o homem que matou, destruiu e provocou sofrimento a diversas gerações palestinas”, disse o líder, Khalil al Hayya.
Em Israel, o presidente Shimon Peres, que foi amigo e rival de Sharon, disse que o premiê foi um “corajoso soldado” e um “querido líder” que amou seu país e foi amado por ele. “Ele foi um dos maiores protetores de Israel e também um dos seus mais importantes arquitetos, que não conhecia o medo.”
O atual primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, disse que Sharon viverá “para sempre no coração da nação”. Em comunicado, ele expressou “profundo pesar”.