Começo de ano é assim. Aproveitamos o marco temporal da mudança de calendário para prometer a nós mesmos finalmente fazer aquele regime, voltar à ginástica, arrumar a estante, aprender outra língua, saldar as dívidas. A intenção é das melhores. Pena que a maior parte das resoluções dure tão pouco. Caso contrário não teríamos autopromessas a fazer no ano seguinte. O banco manda agenda de brinde, dependendo do volume de dinheiro aplicado. Esses livros calendários são projetados para organizar a nossa vida. Nos primeiros dias anotamos tudo. Depois... Como diziam os romanos, fica para as calendas gregas - eles gozavam os gregos dizendo que só observavam os três primeiros dias do calendário. Nelson Rodrigues odiava os cabeças de planilha. Aqueles editores do jornal onde trabalhava que, mal terminadas as festas convocavam reuniões na redação para "planejar o ano" e projetar as mudanças, como se tudo fosse se resolver na esfera dos fatos e das fórmulas. Com sua língua venenosa chamava-os de "idiotas da objetividade". Dizia-se um saudosista da "velha imprensa", na qual "as manchetes choravam com o leitor". Ainda temos resquícios. "Falta d´água em Bauru será resolvida em 2019". Não é de chorar? Até lá estaremos todos mortos, de sede.
Gosto de agendas, sobretudo pelas saborosas informações inúteis das primeiras páginas. Assim não fora, como saber que um galão britânico corresponde a 4,56091 litros? Descubro que 3 de outubro será o dia do cirurgião-dentista latino-americano; que São João Batista nasceu no dia 24 de junho, embora naquele tempo ainda não existisse o calendário gregoriano. Também marca o dia do mel, da ufologia e do migrante. Uma delícia. Uso as agendas vencidas para anotar aforismos, com os quais tropeço nas minhas leituras. Projeto até um livro sobre eles. Goethe dizia que tudo parece mais verdadeiro quando escrito sobre a forma de aforismos, definidos por Nietzsche como "formas de eternidade". "A minha ambição - revelava o filósofo alemão - é dizer em dez frases o que outro qualquer diz num livro -, o que outro qualquer não diz num livro inteiro..." Exemplos: "Jornalismo é a segunda mais antiga profissão" (Paulo Francis). "Sexo não é só bacanal. É muito mais profundo" (Erasmo Carlos). "Se homossexualismo fosse normal... Deus teria criado Adão e Ivo" (Gilberto Braga, novelista).
Uma vez li num desses murais de empresa, que só falam em coisas que interessam ao patrão: "Um objetivo sem um plano não é mais que um desejo". Certamente o chefe, num laivo até poético tenha pretendido incentivar os subordinados a cumprir os objetos... Dele, ou da empresa. As palestras motivacionais ensinam estratégias para se chegar lá. Um programa motor ou mental, como uma sequência de passos em direção a um horizonte. Sem desejo não há objetivo; sem meta não há um plano; e sem plano só se chega ao objetivo por acaso. O problema é que o chefe pretende estimular desejos com frases no mural. Esquece que o mais eficiente é pagar melhor.
Mando um e-mail com pedido de socorro ao meu amigo de adolescência, hoje neuropsicanalista no Rio de Janeiro, o dr. Osvaldo. Ele ensina que desejo, objetivo e estratégia são produtos de três sistemas diferentes do cérebro, que operam de maneira bastante autônoma, porém integrada. Antecipar prazeres, caber de novo naquele vestido, saber falar a língua do país que você vai visitar ou ter um dinheirinho sobrando no banco é função das estruturas do sistema de recompensa e motivação, "como o estriado ventral, a área tegumentar ventral e o córtex orbito frontal". Essas regiões sinalizam para o resto do cérebro aquelas informações ou ideias que são mais interessantes que as demais e, portanto, vale a pena serem seguidas. Estudei uma resposta a altura do cientificismo do meu amigo: "Você provocou meu córtex singulado anterior a soar todos os alarmes. Rssss".
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC