10 de julho de 2026
Articulistas

Se não têm carne, que comam lagosta

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 4 min

Já se disse que a escravidão foi um avanço da inteligência, quando o homem aprendeu que era mais vantajoso pôr o vencido para trabalhar para ele do que devorá-lo. A antropofagia, comum nas guerras entre tribos primitivas, servia para eliminar o inimigo e como alimento. Escravizar era mais vantajoso e, por isso, incorporou-se ao comportamento egoísta do homem, acompanhando-o até os dias atuais. A escravidão, com motivos e formas variados, acompanha a história da humanidade. A literatura e a cinematografia têm explorado bem o assunto, reproduzindo as formas clássicas de escravidão, como as galés romanas, histórias bíblicas e a escravidão negra. E hoje, com frequência, estamos tendo notícias de trabalho em condições semelhantes ao trabalho escravo e de tráfico de mulheres e homossexuais, que são explorados em outros países. Qualquer que seja a motivação e a forma, é sempre uma coisa ignóbil.

Existe uma forma de exploração humana que não é considerada escravidão, mas tão ignóbil quanto ela ? são os governos que, para sustento e boa vida de seus componentes, exploram a população, cobrando pesados tributos e deixando de dar a ela as mínimas condições de bem estar. Também aqui a literatura e a cinematografia colheram farto material. Quem não se entusiasmou com ?Robin Hood?, que na época de Ricardo, Coração de Leão, na Inglaterra, roubava da nobreza (governo) para dar aos que viviam na miséria, porque eram extorquidos? E com ?Maria Antonieta?, mulher de Luiz 15, que estranhando a revolta do povo francês, pela insuportável pobreza, teria dito: "Se não têm pão, que comam brioches."? Na África atual, vários países vivem na miséria, enquanto os grupos que disputam o poder compram armas e uísque com os impostos recolhidos. Na Coreia do Norte o povo empobrecido continua mantendo a dinastia Kim, que em vez de usar os recursos para o desenvolvimento, como a Coreia do Sul, usa para manter o poder com força armada e armas cada vez mais poderosas.

E o que dizer do Brasil, com esses milhares de trabalhadores que são despejados de uma favela para outra, enquanto o governo, apesar da pesadíssima carga tributária, não pode dar mais casas populares do que vem fazendo, e nem melhorar as condições de saúde, de educação, de transporte e segurança, porque a máquina pública, a corrupção e a propaganda consomem a maior parte do que é arrecadado. Para este ano está prevista uma arrecadação de perto de dois trilhões e meio de reais, mas, com certeza, os problemas se agravarão. O que também pode ser tido como certeza é o início de muitos projetos, que servirão para municiar a campanha da reeleição da presidente, mas que depois serão deixados à matroca, como vem acontecendo com as obras do PAC.

Neste arquipélago chamado Brasil, uma ilha federativa que se destaca por belezas naturais, é dominada, há 50 anos, por uma oligarquia formada sem nenhuma tradição patrimonial antes de ocupar o governo. No folclore dessa ilha há uma lenda. "Um inglês que fazia parte da companhia inglesa de estradas de ferro tinha o sobrenome Ney. Um típico sobrenome inglês medieval. O povo chamava o britânico, respeitosamente, de "Sir Ney" e se referia a um de seus empregados como o "José do Sir Ney". Com o passar do tempo, ficou José "Sirney" e o filho, também chamado José, ao entrar na política resolveu adaptar e incorporar o sobrenome, ficando José Sarney." Dominando o Estado, que além das belezas naturais já foi o maior produtor de arroz e algodão do Brasil, nesse meio século só tem por mérito mantê-lo abaixo da linha de pobreza nacional, Enquanto isso, sua governadora, como Maria Antonieta, surpresa com o horror das decapitações no presídio da Capital e com a miséria da população, motivou as notícias, que vêm frequentando a mídia, como esta da Folha (08/01): "O banquete de Roseana - Com os presídios em chamas, o Maranhão escolherá nesta semana as empresas que abastecerão as geladeiras de Roseana Sarney (PMDB) em 2014. A lista de compras da governadora inclui 80 kg de lagosta fresca, uma tonelada e meia de camarão e oito sabores de sorvete. As iguarias deverão ser entregues na residência oficial e na casa de praia usada pela peemedebista. O Estado prevê gastar R$ 1 milhão para alimentar a família Sarney e seus convidados até o fim do ano." Só faltou dizer: se o povo não pode comer carne, que coma lagosta.

O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru e membro da ABLetras