09 de julho de 2026
Internacional

ONU acusa Igreja de ocultar pedofilia

Folhapress
| Tempo de leitura: 2 min

Arquivo/Reuters

Tomasi negou que Vaticano abafe casos, mas admitiu que não publica o número de punidos

Na primeira vez em que o Vaticano foi confrontado em sessão pública sobre acusações de abuso sexual cometido por sacerdotes contra menores, representantes da Santa Sé disseram que não há desculpas para o crime , mas negaram obstruir investigações policiais.

A sessão ocorreu em Genebra (Suíça), na primeira reunião que o Comitê da ONU para os Direitos da Criança fez para a discussão do assunto.

A participação do Vaticano sinaliza a nova diretriz do papa Francisco, que defendeu “atuação decisiva” contra escândalos e mudou leis penais do Vaticano para tornar crime as ofensas sexuais.

A igreja é acusada, principalmente desde o início dos anos 2000, de encobrir escândalos de abuso. Com isso, a ONU abriu inquérito sobre a suspeita de violação, pelo clero, da Declaração Universal dos Direitos da Criança - da qual o Vaticano é signatário.

Na sessão de ontem, o representante do Vaticano na ONU, monsenhor Silvano Tomasi, disse que há abusadores em todas as profissões, incluindo o clero, e que esse crime nunca deve ser justificado, seja onde for - “em casa, nas escolas, no esporte ou nas organizações religiosas”.

Tomasi prometeu a ajuda da Santa Sé - que, segundo ele, se dispõe a receber sugestões de como coibir a prática -, mas criticou a comissão da ONU por ter acusado a igreja de obstruir a investigação: “Ao contrário, queremos que haja transparência e que a igreja siga seu curso”. Silvano negou que Vaticano abafe casos, mas admitiu que não publica o número de punidos.

Em 2013, a Santa Sé se negou a dar mais informações à ONU sobre seus procedimentos canônicos para punir padres acusados. O Vaticano diz fazer isso devido às diferenças entre os direitos laico e canônico e defende que os casos sejam julgados nos países onde os abusos ocorreram.

Para a responsável pela comissão da ONU, Sara Oviedo, a Igreja Católica tem de dar o exemplo. “Os castigos aplicados nunca parecem refletir a gravidade dos fatos”, disse.

Os primeiros casos de sacerdotes que abusaram de menores foram denunciados nos EUA, no início da década passada; em 2003, após 500 processos, a Arquidiocese de Boston aceitou indenizar as vítimas em US$ 85 milhões.

Em seguida, escândalos atingiram igrejas de vários países da Europa. Na Irlanda, relatório acusou líderes eclesiásticos de proteger abusadores por mais de três décadas; na Alemanha, centenas acusaram padres de abuso sexual ou físico desde 2010.

Houve denúncias também na América Latina. O acusado mais notório foi o fundador mexicano do movimento Legionários de Cristo, Marcial Maciel, morto em 2008.

Papa

Em missa ontem pela manhã, o papa Francisco disse que os escândalos da igreja são tantos que não podem ser citados individualmente e são a vergonha da instituição, sem mencionar explicitamente as acusações de pedofilia.

Essas pessoas não têm uma ligação com Deus. Tinham apenas uma posição na igreja, uma posição de poder, afirmou ele.