09 de julho de 2026
Geral

Quase 3 mil cães já passaram na frente de Véio

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 6 min

Fotos/Éder Azevedo

Mensagem em parede do CCZ sugere adoção dos animais abandonados; Véio é um deles

Ele ganhou roupas e até apelido por parte dos funcionários do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) de Bauru, mas ainda busca alguém que lhe dê o conforto de um lar e garanta nada mais do que um cantinho com um pano limpo, comida, amor e carinho. Véio, um vira-lata de 8 anos que foi recolhido das ruas de Bauru, aguarda desde 2010 por sua adoção no CCZ.

O caso é curioso, já que o local possui uma rotatividade média de cães que não supera duas semanas, entre chegadas e adoções. Para se ter ideia, quase 3 mil cães foram adotados desde o período em que Véio foi resgatado das ruas, segundo dados do CCZ.

Além disso, existe ainda o alto risco de contaminações por vírus devido ao grande fluxo de animais no local, fato que não foi suficiente para fragilizar a saúde de Véio – mesmo após tanto tempo de espera no local, o cão permanece “firme e forte” todos os dias na missão de encontrar um dono.

Olhos castanhos escuros, estatura pequena e pelos com cores indefinidas que se aproximam do marrom. Assim é Véio, o cão que cativou alguns funcionários do CCZ e se tornou o macho alfa entre os cães que chegam e saem da instituição.

“Ele é tão dócil e nunca ficou doente, mas como já é velhinho e não é de raça, ninguém se interessa, tadinho. Até os cegos, banguelas e amputados já foram adotados, e ele continua aqui”, comenta Aline Peral, agente de combate de endemias.

“A vida dele é ficar no paninho e perambular pelo corredor. Ele é bonzinho, mas é metódico, não deixa os outros cachorros bagunçarem o paninho dele. Gosta das coisas limpas e organizadas. É sempre o primeiro a comer e, apesar de ser pequenininho, é bem respeitado pelos outros cachorros”, completa a também agente Gracieli Mukoyama.

Mensagem em parede do CCZ sugere adoção dos animais abandonados; Véio é um deles

‘Sem lenço, sem documento’

Como diria o trecho da composição de Caetano Veloso, “sem lenço e sem documento”, a história de Véio é também desconhecida.

Resume-se apenas em alguns espaços preenchidos em uma básica planilha de registro dos animais que entram e saem do CCZ.

Segundo o documento, Véio foi capturado pelo caminhão do CCZ em agosto de 2010 na quadra 2 da rua Valente Marchioni, no Jardim Ferraz, após uma moradora denunciar o abandono ao órgão público.

Consta que, na ocasião, ele estava saudável e foi capturado apenas por ser considerado um animal errante.

No CCZ, ele seguiu tomando as vacinas necessárias corretamente, inclusive os medicamentos para sua castração química, que ocorreu em 2012.

Atualmente, ele divide a ala dos cães no Centro de Zoonoses com mais 25 cachorros, entre adultos e filhotes.

“O Véio sabe certinho a rotina do CCZ. Fica esperando o passeio da manhã no sol e volta sozinho para sua cela. Não nos dá um pingo de trabalho”, detalha Gracieli.

Nos últimos dias, por conta do longo tempo deitado e da idade avançada, Véio tem andado mancando por conta de um calo ósseo em uma das patas da frente.

“Algumas pessoas acreditam que os cães que chegam ao CCZ são exterminados. O Véio é a prova viva de que isso não acontece. Enquanto ele estiver bem e saudável, será tratado. Temos esperança de que alguém o adote”, ressalta a chefe da seção de controle de zoonoses, Nathalia Salvadeo Parizoto. 

A adoção de cães e gatos pode ser feita no Centro de Controle de Zoonoses, de segunda a sexta- feira, das 8h às 17h. Os interessados devem estar munidos de CPF, RG e comprovante de residência. O CCZ fica na quadra 2 da rua Henrique Hunzicker, no Jardim Bom Samaritano. Mais informações: (14) 3103- 8050.


Posse responsável: é preciso ter compreensão e paciência

Algumas medidas simples podem ajudar a contornar e compreender os “problemas de comportamento” dos cães para evitar o abandono.

Cuidador de 38 cães, o empresário Richard Civita, autor de livros que incentivam a posse responsável, orienta: “o cão estabelece um vínculo muito forte com quem o adota, ele quer ser amado. Já o humano é capaz de abandoná-lo só porque ele rói os móveis, late demais ou por conta de uma viagem. As pessoas têm que entender que ter um cão é estabelecer uma relação de amor, que cachorro não é objeto, não pode ser descartado ou abandonado só porque não é mais bonito ou faz xixi no lugar errado”.

Segundo ele, os problemas de comportamento são uma das principais causas para abandono. A maioria dos problemas ocorre devido à dificuldade dos donos em entender que o animal vive em uma estrutura social diferente, com atitudes instintivas e outras necessidades.

Cães e gatos vindos de centros de zoonoses ou abrigos, por exemplo, geralmente possuem um histórico de maus-tratos e precisam de tempo para criar um vínculo de confiança com o novo dono e o ambiente.

Algumas ONGs estimam que, em períodos como das férias de verão, os casos de abandono chegam a aumentar até 70%.

Antes de se tornar dono de um bicho, deve-se pensar na rotina diária e analisar o ambiente para onde ele será levado. A dica é dar uma volta com o cão ou gato em um ambiente externo, para ver como ele reage e se está de acordo com as condições que lhes serão providenciadas.

Os gastos futuros com alimentação e saúde precisam considerados, ainda mais nos casos que envolvam um animal idoso ou com necessidades especiais.


Projeto de lei

Tramita na Câmara Federal o projeto de lei 2833/2011, do deputado Ricardo Tripoli (PSDB). O documento criminaliza atos contra a vida, saúde ou integridade mental e física de cães e gatos.

Segundo a advogada Mônica Grimaldi, o projeto já está em andamento, mesmo diante da falta de consenso entre os parlamentares.

“Alguns relatores discordaram do aumento de pena, mas advogados e ambientalistas foram a Brasília e explicaram que seria um retrocesso se isto não ocorresse”, comenta a advogada.


Adoção em baixa

Ao mesmo tempo em que o final e início de cada ano são considerados como os períodos que mais registram casos de abandono de animais, são também a época de maior baixa das adoções, segundo as ONGs protetoras dos animais.

Um exemplo claro é o resultado da última feira de adoção do ano de 2013 realizada pelo CCZ, em 15 de dezembro.

Na ocasião, o evento, que costuma movimentar famílias, não registrou nenhuma visita e os 90 animais preparados, inclusive com lacinhos, voltaram para suas celas habituais no CCZ.

Após o período de festas e férias, contudo, a perspectiva do órgão é de que a população volte a frequentar o local para prestar uma boa ação aos animais. A primeira feira de 2014, por exemplo, efetivou 19 adoções no dia 11 de janeiro.

Antes de serem expostos às visitas, os cães e gatos dispostos à adoção passam por uma avaliação clínica.

Adotados, os animais são acompanhados por um fiscal do CCZ por meio de visitas domiciliares, para evitar situações de maus tratos por pessoas mal intencionadas.

Capturado em agosto de 2010 no Jardim Ferraz, o vira-lata Véio é dócil e nunca ficou doente