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Divulgação/Internet |
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Higiene: pesquisa da Unesp de Botucatu feita com 5 mil pacientes mostra que 1.468 deles podem ter sido contaminados no ambiente hospitalar |
A chegada das altas temperaturas traz um inimigo invisível que pode colocar em risco a vida de pacientes internados em hospitais. Segundo estudo realizado pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu, nesta época do ano a incidência de infecções hospitalares aumenta em até 57%, o que acende um importante alerta às unidades de saúde.
A pesquisa foi realizada entre 2005 e 2010, período em que foram analisados exames de sangue de 5 mil pacientes infectados por bactérias. Destes, 1.468 apresentaram indícios de que a contaminação ocorreu no ambiente hospitalar.
Por meio de testes executados por sotwares estatísticos, os pesquisadores descobriram que as chamadas bactérias gram-negativas, principais causadoras de infecção hospitalar, possuem comportamento sazonal. No caso das bactérias do gênero Enterobacter, responsáveis por infecções urinárias e da corrente sanguínea (septicemia), o aumento de casos foi de 57% entre outubro e março em relação ao período de abril a setembro.
Já os casos de Acinetobacter baumannii, a bactéria mais comumente encontrada no Hospital das Clínicas da Unesp de Botucatu, tiveram crescimento de 41% no período mais quente. “Na média, as infecções por bactérias gram-negativas apresentaram aumento de 20% a 25% durante o verão, ou de 13% para cada um grau a mais na temperatura média mensal”, explica o professor da Faculdade de Medicina da universidade, Carlos Magno Fortaleza, que coordenou o estudo.
Esta foi a primeira vez que um levantamento do tipo foi realizado em um país de clima tropical. A partir da descoberta, a pesquisa sugere que campanhas passem a ser realizadas no verão, entre dezembro e março.
Atualmente, elas ocorrem em maio, quando são comemorados o Dia Nacional de Combate à Infecção Hospitalar e o Dia Mundial de Higiene das Mãos. “Entre as medidas mais importantes, além da lavagem correta das mãos entre profissionais, pacientes e acompanhantes, é preicos reforçar a necessidade de isolamento de pacientes portadores de bactérias de maior risco e o cuidado redobrado de higiene de superfícies hospitalares”, enumera Fortaleza.
Sazonalidade
De acordo com o professor, são várias as hipóteses que podem explicar a sazonalidade das infecções hospitalares. Entre elas, está a possibilidade de algumas proteínas da bactéria se expressarem mais no verão, tornando-a mais agressiva.
Com a presença de mais umidade, a proliferação dos micro-organismos seria favorecida. Outro agravante é o fato de as bactérias aumentarem a capacidade de invadir tecidos corpóreos quando expostas a temperaturas altas. Há, ainda, a hipótese - já aventada em outros países - do chamado subdimensionamento de enfermagem, ou seja, de poucas enfermeiras cuidando de muitos pacientes.
“No verão, há mais funcionários em férias e esta redução de pessoal, certamente, acaba levando o profissional a trabalhar com mais rapidez e dando bem menos atenção às medidas de prevenção”, comenta Fortaleza. E, mesmo em ambientes climatizados, o risco de infecção permanece o mesmo durante o verão, já que existe a possibilidade de os profissionais de saúde e acompanhantes de pacientes trazerem as bactérias – mais abundantes no ambiente externo – nas mãos ou roupas quando chegam ao hospital.
Próximo passo
A pesquisa é resultado da tese de doutorado da professora do curso de enfermagem da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu, Silvia Caldeira. A próxima etapa, segundo o professor orientador Carlos Magno Fortaleza, será analisar dados de hospitais de outras regiões do país para verificar se, nesses locais, há sazonalidade semelhante à verificada no Hospital das Clínicas.
Pacientes com internação longa são os mais vulneráveis
Os quatro tipos de infecções hospitalares mais comuns no Brasil são as pneumonias, as infecções urinárias, as septicemias (infecções da corrente sanguínea) e as infecções cirúrgicas. Nesta época do ano, a tendência de aumento é verificada principalmente entre estas duas últimas.
Pacientes internados por tempo prolongado ou que fazem uso de dispositivos invasivos como cateter ou ventilação mecânica são os que correm maior risco de sofrer infecção hospitalar, segundo aponta o infectologista César Barros, médico responsável pelo serviço de infectologia do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo (HRAC/Centrinho/USP). “A condição clínica do paciente e a presença de doenças que prejudiquem a defesa do corpo, como a aids, o câncer e a desnutrição, também podem favorecer este tipo de problema”, acrescenta.
Doentes que fazem uso de antibióticos também têm a imunidade do organismo reduzida e, consequentemente, se tornam mais vulneráveis a bactérias resistentes à ação deste tipo de medicamento. “E, quando este paciente é infectado, se torna um grande disseminador dessas bactérias, já que, segundo estudos, ele é tocado, em média, 57 vezes por dia por profissionais e familiares”, completa o professor da Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu, Carlos Magno Fortaleza.
Centrinho não registra aumento
Por ter um perfil diferente dos hospitais gerais, que recebem pacientes graves, o Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo (HRAC/Centrinho/USP) não registra aumento considerável de infecções hospitalares durante o verão. É o que garante o médico responsável pelo serviço de infectologia da unidade, César Barros.
“O Centrinho é um hospital cirúrgico pediátrico em que os pacientes, quase sempre, apresentam ótimas condições para que possam ser submetidos às cirurgias. Embora não tenhamos dados estatísticos, posso afirmar que a quantidade de infecções, no ano todo, é bem menor do que a média dos demais hospitais”, pontua.
Mesmo diante da menor incidência, o Centrinho informa que mantém um controle rigoroso sobre o risco de infecções hospitalares, por meio de campanhas de conscientização entre seus funcionários, alunos, pacientes e acompanhantes. Entre as medidas adotadas, está a distribuição de folhetos e cartazes sobre a importância da higienização das mãos e o isolamento de pacientes que estejam infectados por bactérias super-resistentes.
“Nestes casos, os profissionais e visitantes devem colocar luvas, máscaras e fazer a lavagem antes e depois do contato com aquele doente“, observa Barros. Procurada, a assessoria de imprensa da Fundação para o Desenvolvimento Médico e Hospitalar (Famesp) - que administra os hospitais de Base, Estadual, Manoel de Abreu e Maternidade Santa Isabel - não localizou um responsável que pudesse falar sobre o assunto.
No dia da reportagem, o JC também não conseguiu contatar o secretário municipal de Saúde, Fernando Monti, para informar se o risco de infecções também aumenta durante o verão nas unidades básicas e de pronto-atendimento, que são gerenciadas pelo município.