“Filme de terror”. É assim que a cena do ônibus circular sendo arrastado e quase caindo no rio Bauru é definida por um dos 14 passageiros que viveram os momentos de tensão dentro do veículo. O fato aconteceu por volta das 7h na avenida Nuno de Assis, próximo ao Terminal Rodoviário, e só não resultou em tragédia porque voluntários pararam para ajudar a socorrer os passageiros com ajuda de cordas.
Além dele, outros sete circulares, de acordo com informações da Associação das Empresas do Transporte Coletivo Urbano de Bauru (Transurb), ficaram ilhados. Um deles ficou submerso na Nações Unidas e o Corpo de Bombeiros precisou usar um bote salva-vidas para retirá-los do local (leia mais abaixo).
O circular que quase caiu no rio Bauru era conduzido por Mauro Lima de Araújo. O veículo fazia a linha Araruna-Gaivota/FIB e levava 14 pessoas, entre elas, apenas um homem. O motorista seguia pela avenida Nuno de Assis, no sentido bairro-Centro, quando, no cruzamento com a avenida Nações Unidas, acabou parando por conta do alagamento no local. “Quando vi a enxurrada freei e, de repente, o circular começou a ser arrastado em direção ao rio”, conta Araújo.
A força da enxurrada fez o veículo atingir o canteiro central e avançou pelo barranco, parando somente após bater contra uma árvore. “As mulheres gritavam por socorro. Não tinha o que fazer e nem como acalmá-las”, lembra o motorista.
No mesmo momento, um motociclista passava pelo local e decidiu parar para ajudar. Robson Gilberto da Silva, 23 anos, pediu uma corda ao dono de uma marmoraria para auxiliar no resgate dos passageiros.
Sob chuva e em meio à enxurrada, o motociclista amarrou a corda em uma placa de sinalização e jogou a outra ponta para o motorista, que a prendeu na barra de direção do coletivo.
Em seguida, como em uma cena de filme, os passageiros se agarraram à corda e fizeram a travessia pela avenida, sempre com a ajuda de Mauro. “Eu me arrisquei no meio da água e acompanhei todos durante o percurso. Graças a Deus que todo mundo saiu bem”, agradeceu.
Todo o trabalho de resgate foi acompanhado por Robson e pelos funcionários da marmoraria, que acolheram a todos no estabelecimento. “Nunca vi algo assim”, finaliza o motociclista.
Motorista e herói
Motorista do circular, Mauro Araújo foi considerado herói pelos passageiros, que o agradeceram. Antes de voltar ao trabalho, ele recebeu abraços de cada uma das pessoas que ajudou a descer do ônibus.
“Ele salvou a gente. É um herói”, disse a dona de casa Jennifer Bandeira, 23 anos. Para ela, vai ser difícil esquecer a cena do ônibus sendo arrastado em direção ao rio. “Uma mulher entrou em estado de choque”.
O único passageiro homem no circular, Murilo César Azevedo de Oliveira, 34 anos, também ajudou no resgate e será lembrado com carinho pelo restante das vítimas. “Fizemos uma fila indiana e servi como apoio para que as mulheres atravessassem a avenida. Fico feliz que tudo terminou bem”, comemora.
20 circulares quebrados
Além dos circulares ilhados, vários outros coletivos foram atingidos pela enxurrada e precisaram ser substituídos.
De acordo com a assessoria de comunicação da Transurb, 20 circulares apresentaram problemas e foram recolhidos ao pátio.
Cancelas
O primeiro grande teste do plano emergencial de contingência contra enchentes elaborado pela prefeitura mostrou que o projeto ainda precisa ser aperfeiçoado. Várias falhas no esquema estabelecido para interditar pontos críticos de alagamento como a avenida Nações Unidas contribuíram para que veículos fossem novamente tomados pela água e vidas colocadas em risco. O plano foi concluído no ano passado por exigência do Ministério Público Estadual e do Poder Judiciário.
Umas das estratégias que não surtiram o efeito esperado foi realizar a interdição da Nações por meio de barreiras de solo e agentes do Grupo de Operações de Trânsito (GOT) da Emdurb. Com a forte correnteza da enxurrada, os “azuizinhos” tiveram de retirar as barreiras e abandonar seus postos, como medida de segurança.
Por consequência, os acessos deixaram de ser sinalizados e ônibus e veículos continuaram ingressando na avenida, que já estava tomada pelo caos. Agora, o prefeito Rodrigo Agostinho estuda implantar cancelas – como as que isolam a linha férrea durante a passagem de trens – que serão acionadas sempre que houver tempestades.
“Qualquer coisa que for colocada no chão vai ser levada pela água. Precisamos ter uma barreira fixa na calçada, que atravesse as ruas de acesso para bloquear a passagem de veículos nos principais pontos de inundação. É algo que dá para ser feito ainda neste verão”, diz o prefeito.
Outra falha, segundo Rodrigo, foi o fato de o Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) não ter lançado o alerta de tempestade à Defesa Civil, que, por sua vez, também não acionou a Emdurb. Como a chuva para o período da manhã não havia sido prevista no dia anterior, os agentes que iniciaram o turno de trabalho às 6h se mobilizaram apenas quando a tempestade já havia começado.
‘A água subiu em segundos’, conta motorista
Próximo ao local onde o coletivo quase caiu no rio Bauru, outro veículo também passava momentos de muita tensão. Com seis passageiros, o circular ficou praticamente submerso no viaduto da Nações Unidas, nas proximidades do Terminal Rodoviário. Mesmo com a vida em risco, quem estava no ônibus conseguiu usar um guarda-chuva para tirar um homem que havia caído na água. O motorista Leandro da Silva Mota, 31, alega que estava raso quando tentou fazer a travessia.
Jornal da Cidade - O senhor achou que dava para passar?
Leandro Mota - Eu estava chegando no viaduto e a água estava baixa. Estava raso quando tentei passar. Tanto que um Corsa estava atravessando. Na hora que eu fui, entrou água no motor e o circular “morreu”. Tentava ligar e não ligava.
JC - E depois?
Leandro - Quando o motor morreu, veio uma tromba d’água de repente. A água subiu em segundos. Tanto que começou a trazer o Corsa para trás.
JC - O que o senhor pensou?
Leandro - Pensei em Deus. Pensei e pedi misericórdia. Sorte que só tinha seis passageiros. Eu e outros homens quebramos a saída de emergência e subimos no teto do ônibus. Subimos e fomos ajudando os outros passageiros a subirem.
JC - E foi aí que os bombeiros chegaram?
Leandro - Não. Antes disso, o Corsa foi sendo trazido mais para perto do ônibus. Quando já estava quase afundado, saíram três pessoas. Duas mulheres conseguiram sair nadando. Elas disseram que nem sabiam nadar. Um senhor também saiu e não conseguiu nadar.
JC - Quem o salvou?
Leandro - Por sorte, uma das passageiras tinha um guarda-chuva. Conseguimos estender o guarda-chuva e esse senhor pegou. Foi assim que ele foi salvo. Nunca tinha passado por algo assim.
‘Foi a primeira vez em que me deparei com uma situação dessas’, diz bombeiro
Sargento do Corpo de Bombeiros, Paulo Eduardo Plana participou diretamente do resgate das oito vítimas que ficaram ilhadas sobre o teto do ônibus coletivo que foi tomado pelo alagamento que se formou na avenida Nações Unidas, na altura do viaduto da antiga Fepasa. Apesar de sua longa experiência no socorro a vítimas nas situações mais adversas, Plana diz que ficou espantado quando chegou ao local da ocorrência.
Calma
“Foi a primeira vez em que me deparei com uma situação dessas”, comenta. Plana relata que a primeira medida adotada pela equipe foi acalmar as vítimas – três mulheres e cinco homens, sendo um deles o motorista do ônibus e outro condutor de um Corsa que foi totalmente coberto pela água.
“Fomos até o viaduto para fazer esta primeira orientação e evitar que elas viessem a cair na água. Em princípio, cogitamos colocar uma escada a partir de onde estávamos para fazer o resgate, mas, como o ônibus não parou exatamente sob a linha férrea, o melhor foi agir por terra”, relembra o sargento.
Com um bote, Plana e outro bombeiro socorreram quatro vítimas por vez. Como a correnteza já estava fraca, ele conta que não houve dificuldade para concluir o resgate. “Conseguimos tranquilizar todos que estavam ali. Amarramos o bote no ônibus e, uma a uma, as vítimas desceram até o barco utilizando a janela como escada”, detalha.
Ao todo, sete homens do Corpo de Bombeiros participaram da ocorrência e a retirada de todas as vítimas, a partir do momento em que o bote foi colocado na água, ocorreu em cerca de dez minutos.