08 de julho de 2026
Articulistas

Cara de Pau

Alfredo Enéias Gonçalves d'Abril
| Tempo de leitura: 3 min

Com o próprio dinheiro, ganho no trabalho da iniciativa privada, o presidente da Fiesp e do Senai, Paulo Skaf, deu um "tapa no visual" reaparecendo na publicidade que vem fazendo pela televisão das entidades que dirige, exibindo, aparentemente, um bem sucedido implante capilar. O resultado do enxerto a ser imaginado pela imagem da televisão, onde o presidente engrandece as entidades comandadas e aparece com os cabelos implantados entrelaçados com a sobra dos originais das têmporas, após um banho de revigoramento por tintura de tonalidade bem escolhida, transparece do conjunto da obra, discreta jovialidade e imperceptível cirurgia estética, isto para os que antes acostumaram a vê-lo com a calvície reluzente no alto da cabeça. A repaginada melhorou a fachada do presidente da Fiesp e do Senai, quem sabe despertando do sonho convencido que a atual aparência será um cabo eleitoral eficiente nas apresentações públicas da campanha para governador do Estado de São Paulo, como candidato certo do próximo pleito.

Com o dinheiro público haurido do trabalho dos brasileiros pagadores de tributos, o senador Renan Calheiros, com idêntico objetivo do presidente da Fiesp e do Senai, viajou em avião da FAB por ele requisitado com a exclusiva finalidade de conduzi-lo à capital pernambucana a fim de submeter-se a um implante capilar na esperança de recompor os cabelos perdidos no cocuruto. Se o implante deu certo para o presidente da Fiesp e do Senai, por que não daria para o senador?

Ressurgiu na televisão uma semana depois de ter passado pelo implante capilar e receber correção nas pálpebras para retirá-las do indesejável desalinho, discursando para o público televisivo brasileiro numa ensaiada combinação entre a timidez do sorriso e o garbo no relato do exaustivo trabalho dos senadores da República, sob seu comando, naturalmente, durante o ano de 2013, a par da exaltação da fidelidade mantida aos princípios constitucionais dirigidos a todos os que funcionalmente servem o País, dentre os quais a moralidade pública, na verdade, lembrando desse dogma jurídico apenas de relance, ainda assim, no rescaldo dos três últimos escândalos protagonizados pelo senador.

O discurso do político não logrou esconder o que pretendia: 1ª) A tentativa de minimizar os efeitos do burburinho que voltou a causar seis meses depois de praticado o mesmo ato de improbidade, do qual ousadamente reincidiu; 2ª) O fracasso do implante o manteve careca e nem mesmo um fio de cabelo é identificado como novo para compensar o ônus da incursão no território da frivolidade. Sem cabelo, a nova afronta no uso de aeronaves à satisfazer vaidades pessoais ficaria amoitada e da forma como o jato foi requisitado ? a serviço do Senado ? inclinava a favor do senador a grande possibilidade do caso não aflorar, porém, as pernas curtas da mentira caminharam rápidas ao encontro da verdade.

O senador, que foi ministro da Justiça do governo Collor de Mello, cargo que exige de seu titular um admirável conhecimento do direito público, na cínica tentativa de salvar a pele consultou a Aeronáutica para informar se a viagem enquadrava na noção de serviço público ou na de serviço particular. E, conforme a resposta recebida, pagaria a despesa.

Mais uma vez consumido pela repercussão da desvirtuada viagem, recolheu o valor calculado do passeio deixando a certeza de que no ano que se fechou foi a última vez que cometeu ato de esperteza, todavia, sobrando a dúvida se, no ano recém inaugurado será capaz de puxar o freio inibitório e dominar o impulso de usufruir dos prazeres que o mau uso do cargo proporciona.

O autor, Alfredo Enéias Gonçalves d´Abril, é professor universitário, aposentado)