Ariane Queiroz Sá teve paralisia infantil e passou a fazer uso da cadeira de rodas há seis anos. Dentro da casa adaptada para as suas necessidades ela faz tudo sozinha, aliás, ela mora sozinha em uma casa na quadra 24 da rua Alves Seabra, no Jardim Progresso. Entretanto, basta os portões se abrirem para que ela encontre os primeiros obstáculos da falta de acessibilidade do bairro: as calçadas.
Com a cadeira de rodas motorizada, Ariane ainda é um pouco “mais ousada”, como ela mesma descreve. Mesmo assim, chegar até a única padaria do bairro, sem rampas de acesso, é um desafio diário que ela precisa superar andando mais para encontrar uma guia rebaixada de garagem para ter acesso à calçada.
“Há uma praça na quadra de cima e neste bairro vivem outras duas cadeirantes. É claro que não podemos desfrutar da sombra das árvores, porque não há rampas de acesso. Além disso, o mato alto e o piso irregular tornam o passeio ainda mais distante”, diz enquanto mostra a dificuldade para a equipe do JC.
Embora Ariane, que é coordenadora do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência (Comude), não consiga transitar com dignidade por seu bairro, ela aponta que consegue fazê-lo nas ruas centrais de Bauru, principalmente na Batista de Carvalho e seu entorno. Contudo, por lá o problema vai além. “Esbarramos na falta de consciência dos lojistas. Eu sou uma consumidora e não consigo transitar em grande parte das lojas”.
‘Nada sobre nós, sem nós’
Outro desafio são os caixas eletrônicos dos bancos. Ariane também é membro da Comissão Permanente de Acessibilidade (CPA) de Bauru. Ela destaca a altura desses equipamentos como um empecilho para o seu uso. “Sou correntista de um banco onde, por incrível que pareça, não há caixas (eletrônicos) para cadeirantes. Eu não consigo acessar o teclado ou ver a tela devido à posição dos mesmos. E detalhe, os caixas estão dentro das normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), ou seja, dizem que não há o que fazer”, indigna-se.
A coordenadora do Comude coleciona histórias geradas pela falta de infraestrutura para pessoas com deficiências. Uma delas diz respeito à frota de ônibus circular. “Está adaptada? Sim! Mas não há uma logística para isso. Não há manutenção. Já fiquei horas dentro de um ônibus porque a rampa não fechava e, com isso, o veículo não podia seguir e eu não tinha como descer”, denuncia.
Para Ariane, muito do que é feito ou pensado para os deficientes não tem o aval ou a consulta de órgãos e grupos engajados na luta pelos direitos dessa parcela da população. “O Comude, por exemplo, é apenas consultivo e, às vezes, nem somos consultados para saber se determinada obra é boa, onde ela deve ser feita... Nos bairros da cidade não temos nem os direitos básicos”.
Se cada um fizesse o seu...
Quem também é impedida de fazer um simples passeio pelas ruas perto de casa é a aposentada Gercy Lima Sanches, 78 anos, moradora da quadra 2 da rua Sidnei Borro, Geisel. Dentro de casa ela é independente, mas fora, por causa dos desníveis e do mato nas calçadas, não consegue se locomover. “Uso cadeira de rodas há uns 15 anos por causa de uma lesão medular. Para passear, dependo da minha filha”.
A legislação em vigor atribui a obrigação dos cuidados com as calçadas, desde a instalação à manutenção, ao proprietário do imóvel. “Se cada um fizesse o seu, nossa vida seria melhor. Cabe ao morador fazer, mas cabe à prefeitura orientar e fiscalizar”, finaliza Ariane.
Além de rampas e calçadas
Segundo os próprios deficientes, quando se fala em acessibilidade, as pessoas comumente focam em rampas e calçadas para cadeirantes, entretanto, as barreiras arquitetônicas representam armadilhas e obstáculos para uma gama bem maior da população. É difícil encontrar gôndolas em supermercados com braile ou pisos táteis nas vias públicas para orientar os deficientes visuais, por exemplo.
Quem sente a dificuldade na pele é o professor de informática para deficientes visuais do Lar Escola Santa Luzia para Cegos de Bauru, Jorge Herrera Lopes. “Semáforos sonoros fazem muita falta, principalmente nos cruzamentos da região central. E é claro, as calçadas nos bairros são desafios para nós, principalmente quando há terrenos baldios, como alguns que existem onde eu moro. Sem pavimento, é quase impossível andar”, destaca o morador da quadra 8 da avenida do Hipódromo, no Jardim Carolina.
Porém, apesar das dificuldades, o professor aposta em melhorias, e defende que muitas já estão chegando. Como exemplo, ele cita o piso tátil construído ao lado da Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) Geisel/Redentor, utilizada por ele como orientação para pegar ônibus.
“Aos poucos as coisas vão melhorando. Eu acredito nisso. Mas temos um caminho longo”.