A buzina ecoa dentro de casa, mas logo o som se dissipa no entorno. É o carrinho do sorveteiro passando na rua... O ruído hermético do bagaço moendo misturado ao cheiro, em geral, ativa a glândula papila gustativa e a garganta pede um gole de caldo de cana gelado... A vizinha faz “ti ti ti” todas as manhãs no quintal e, sem avisar, todo dia uma bípede escandalosa anuncia em altos cacarejos a chegada do ovo no ninho. No caso dos galinheiros, a questão sanitária em detrimento ao trabalhoso manejo na criação torna o negócio tão arriscado que a margem de lucro não compensa.
As breves descrições referem-se a ofícios que ainda sobrevivem aos adensamentos urbanos, cada vez mais raros nas cidades médias. Em Bauru, o JC percorreu bairros da periferia para localizar exemplos de personagens que têm na vida de sorveteiro, garapeiro e criador de galinhas a forma de gerar renda.
Desses, o mais pressionado pela urbanização é o criador de galinhas. E por motivos operacionais, de segurança e sanitário. Criar galinhas em áreas residenciais é vedado pela legislação. Além disso, a incidência de furtos e de morte do bichinho em via é frequente. Ainda assim, nos bairros bem periféricos, aonde a infraestrutura ainda não chegou - e, por isso mesmo, as ruas são de terra e muitos terrenos convivem com mato natural de antigas chácaras -, galinhas ainda ciscam por quintais e ruas.
Mas mesmo esta cena está se tornando rara. Wagner Fonseca, morador do Parque Roosevelt, se considera um daqueles “últimos caipiras urbanos”. Ele conta que cria galinhas há uns 20 anos. Mas já sente saudade delas. Sem camisa, botina no pé e calça rancheira, mas tipo jeans, ele conta: “Quando eu comecei a criar galinhas aqui não tinha nada, nem gente (sorri). Aqui falta tudo, asfalto, água, o esgoto estourou na rua de baixo há muito tempo e ninguém vem consertar. Tem muito lixo por aí, o ônibus demora para passar. Eu criava frango caipira, mas estou abandonando. A prefeitura já veio aqui e quis me multar. Deu prazo para parar. Então no Natal comemos as galinhas que havia e vendemos as que sobraram”. Ele vai ficar só com a funilaria.
Outra dificuldade é o manejo. “Acabaram com minha horta (as galinhas). E a caipira leva uns seis meses pra ficar boa para venda e o frango de granja fica pronto em 30, 40 dias. A ração a R$ 2,50 o quilo e a venda do frango a R$ 20,00 dificulta muito. É muito trabalho e tempo para pouco retorno e ainda com risco de ser multado”, opina.
Perto dali, Marcos Leite conta desolado sobre a readaptação, agora ao silêncio no quintal de sua casa e nos terrenos vizinhos. “Eu tinha umas 60 cabeças. Mas é muito difícil. Eu criava solto, mas o povo rouba muito. Se fechar elas roubam mais ainda porque é mais fácil de levar. Eu paguei mais de R$ 100,00 em um galo-índio muito bom. Mas tive de me desfazer dele. Estou há quatro anos aqui e não é fácil não encontrar galinhas. Antes era”, diz.
O galo-índio mencionado por Marcos foi produto de escambo. Ele o trocou por um casal de pato com Maria Eronita Dores, do Parque Santa Edwirges. Moradora em uma casa simples, com tapumes se misturando a arames como cerca, ela decidiu criar galinhas em cativeiro. “Eu troquei os patos pelo galo e uma galinha e já tenho pintinhos da primeira chocada. Vou ver no que dá. Mas se tiver problema com fiscalização eu paro. Vendo e paro. É uma tentativa de ganhar uns trocos”, cita.
Maria Eronita, gaúcha de Santa Maria e em Bauru há 22 anos, diz que a galinhada caipira pode ajudar na renda. O marido trabalha como pedreiro. “Nós viemos para Bauru quando estava construindo o Hospital Estadual. Ficamos sabendo que estava precisando de mão de obra. Estamos há dois anos no Santa Edwirges. Eu vou ver na feira quanto pagam por essas galinhas que já estão no ponto de comer. Eu não tenho coragem de comer. É só para venda, porque me apego a elas”, fala a dona de casa, sem saber o preço de comércio das galinhas.
No Jardim Eldorado II, Joana Rosa também tem um galinheiro no quintal. Mas boa parte dos bichinhos vive solta. Em frente à área é mato. “Eu crio fechado. Soltei hoje porque está muito calor e tem mato e espaço na frente de casa. Eu crio para comer. Vai matando e dando pros filhos. Ajuda bastante. O marido tem um bar, então isso também sai lá através dos clientes e amigos dele. Eu vendo a R$ 20,00”, informa.
Garapeiro de primeira viagem
Raimundo Caetano, 71 anos, decidiu não ficar parado após ser aposentado por invalidez. Há poucas semanas ele decidiu montar seu carrinho de garapa no Jardim Chapadão, em uma área de interligação de bairros.
“Eu fui mestre de obras por 46 anos, mas passei por cinco cirurgias para arrumar o braço que quebrou feio depois que caí de um andaime. Fiquei um ano e três meses cuidando disso. Agora fiquei bom e resolvi montar o carrinho de garapa. O movimento está mais ou menos ainda. Acho que vai melhorar quando se acostumarem com meu ponto aqui”, observa.
Pai de sete filhos e no terceiro casamento, o mineiro que já mora em Bauru há mais de 20 anos, diz que em sua área não tem vendedor de frango caipira. “Mas agora tem garapeiro”, diz, seguido de uma gostosa gargalhada. “O primeiro casamento durou 28 dias. Não deu certo. O segundo durou 29 anos, foi quando tive os sete filhos. E o terceiro há tem 20 anos. Eu gosto de casar”, resume Raimundo.
Ele vende o copo de garapa a R$ 2,00 (200 ml), R$ 3,00 (300 ml) e R$ 4,00 (400 ml). “Eu também vendo água de coco. O frango compro na feira, o coco pego em um depósito na Nuno de Assis e a cana compro no assentamento Aimorés”, diz.
Na baixada do Santa Luzia, logo no início do trecho que leva para o Mary Dota, Sadi Lourenço de Moura, 72 anos, aposentado como motorista, estaciona todos os dias sua Kombi para esperar a clientela cativa.
Em Bauru há 23 anos e natural de Reginópolis, ele é garapeiro de bairro. “Na cidade já tem um no Centro e nos bairros têm pouco. Eu já tenho gente acostumada comigo aqui e o movimento é bom. No inverno eu não trabalho”, menciona.
Segundo ele, os garapeiros tradicionais compram a matéria prima do “seu Toninho de Pederneiras, que traz em uma caminhonete”.
Sobre se o negócio é rentável, ele conta: “Quando teve aquela matéria nacional, há alguns anos, da região de Camboriú (SC), que levantou que tinha cana contaminada pelo barbeiro, da Doença de Chagas, piorou. Mas o tempo mostrou que não tinha nada a ver. Naquele caso, o garapeiro deixava a cana cortada embaixo de uma árvore. O barbeiro vinha e defecava em cima da cana raspada e isso pode ter contaminado. O barbeiro chupa o sangue quando a pessoa dorme e aí coça a ferida. Como o barbeiro defeca nesta parte do corpo isso cai na corrente sanguínea e dá a doença. Mas não tem nada a ver o problema com a cana”, explica.
Sorveteria sobre duas rodas
Adailton José da Silva, 42 anos, estava embaixo de uma árvore, na divisa do Santa Luzia com o Beija Flor, quando foi abordado pela reportagem. Em pé, amparado pela bicicleta, ele degustava um sorvete de abacaxi. “Parei aqui na sombra para tomar um sorvete. Está muito calor. Eu cubro essa região aqui do Santa Luzia, Beija-Flor, Mary Dota e Bauru 2000 até. Há oito anos eu vendo sorvete por aqui”, conta o morador do Jardim Ivone. Para dar cobertura no extenso trajeto, ele comprou uma bicicleta usada, adaptou a extensão da garupa, com uma correia maior, para instalar a caixa térmica na garupa.
“Com a bicicleta melhorou porque eu percorro muito mais que com o carrinho. Eu pego o sorvete a R$ 0,50 no Nova Bauru. O de palito vendo a R$ 1,00. Em um mês bom, com calor, como dezembro, eu chego a fazer R$ 80,00 no dia”, revela. Um código natural de comportamento é seguido pelos sorveteiros. Quando um deles ouve a buzina nos arredores o outro já muda o trajeto. “Não adianta dois sorveteiro buzinando para chamar cliente no mesmo bairro. Então quem ouve o outro parte para outro endereço”, conta.