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Malavolta Jr. |
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Chella já viajou por quatro países e 17 Estados brasileiros |
Foi com uma mochila nas costas que o aventureiro profissional Luís André Chella chegou para a entrevista. Apaixonado por bicicleta desde criança, ele fez do hobby uma atividade profissional, em 1995, com o projeto Pedal na Estrada, pelo qual já viajou por quatro países e 17 Estados brasileiros. “De tudo o que já vi com o passar dos quilômetros, as paisagens e a cultura do povo, que vão mudando com a distância, são os elementos mais interessantes”, define.
A última viagem por ele percorrida foi a Estrada Boiadeira, que margeia a antiga Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. Foram duas etapas e mais de 500 quilômetros de aventura e história registradas em fotos. “Fiz o que considero uma ‘arte’ por causa da minha idade, mas o espírito de aventura me levou a isso. Eu fiquei tentado a atravessar a ponte Francisco de Sá, uma das últimas etapas. E o fiz”, relata sobre o percurso.
Fora da estrada, ele tem um negócio inusitado: uma pizzaria itinerante. “Funciona da seguinte maneira: o cliente me contrata e eu monto a pizzaria no local desejado. Tenho uma perua/pizzaria e faço aniversários, batizados, casamentos”, detalha. Conheça muitas outras histórias do entrevistado de hoje, a seguir.
JC - Como funciona o seu projeto de cicloturismo?
Chella - Eu o fundei em 1995. De lá para cá já realizei várias viagens nacionais e internacionais. Na verdade, este é um projeto aberto e qualquer pessoa pode participar desde que cumpra algumas regras. Não regras do projeto, mas regras necessárias para se fazer uma viagem de bicicleta. É preciso ter tempo disponível, estar preparado fisicamente, seguir as leis de trânsito e ter os equipamentos de segurança. É necessário preparo e opinião. Não é só o fator físico que conta, o psicológico também. Até hoje, duas pessoas viajaram comigo. Eu não ganho dinheiro com o projeto, esta é uma satisfação minha. Eu tenho patrocinadores que custeiam a viagem, os gastos com a bicicleta, essas coisas.
JC - Quais foram os países já percorridos sobre as duas rodas?
Chella - Já estive na Argentina, Bolívia, Paraguai e Uruguai, além de 17 estados brasileiros. O tempo máximo de viagem foi o trecho que percorri de Natal, no Rio Grande do Norte, até Bauru. Fui de avião, levei a bike e voltei para Bauru pedalando. Com o avião eu levei pouco mais de cinco horas para chegar lá. Para retornar: dois meses e meio. Vi lugares que dificilmente eu veria sem a bicicleta.
JC - Muitas aventuras?
Chella - Toda viagem é uma aventura. Graças a Deus minhas histórias boas e descobertas superam e muito os perrengues da estrada. Nunca fui assaltado ou coisa assim. Estou sempre saindo e sempre chegando e, muitas vezes, as pessoas não entendem o que eu faço. Sempre escuto que sou maluco (risos). Agora, as paisagens são as mais incríveis possíveis. O interessante mesmo é vê-las mudando com o passar dos quilômetros, assim como a cultura do brasileiro que vai mudando no percurso. Esta é uma das vantagens da viagem feita de bike, você tem tempo para sentir tudo isso. De carro, muitas vezes a pressa tapa os olhos. Uso o sol, bússola para me orientar, sabia? Minha forma de viajar é primitiva e tenho orgulho disso. A minha última etapa foi a Estrada Boiadeira.
JC - Foi uma viagem histórica, de certo modo.
Chella - Ah, sim. Inclusive, uma das funções desse meu projeto foi registrar a ferrovia Noroeste. Fui margeando-a totalmente pela Boiadeira. Revivi o passado que por ali passou. Fotografei todas as estações antigas desativadas. Nesse percurso de mais de 500 quilômetros, eu passei por mais de dez estações desativadas e vi duas delas restauradas: a de Guaiçara e a de Andradina. A primeira é um museu e a segunda, um espaço que abriga teatro, oficinas de artesanato... Lindas! São exemplos. Na primeira etapa, eu percorri 247 quilômetros. Saí de Bauru, com destino a Araçatuba, e passei por diversos municípios, como Avaí, Presidente Alves, Cafelândia, Coroados, entre muitos outros. Na segunda etapa, eu fui de Araçatuba até o Posto 512, em Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul. Foram mais 251 quilômetros percorridos e cidades como Guararapes, Muritinga, Castilho, Andradina, Jupiá e muitas outras, no destino.
JC - Um momento inesquecível do percurso...
Chella - Fiz o que considero uma “arte” por causa da minha idade, mas o espírito de aventura me levou a isso. Eu fiquei tentado a atravessar a ponte Francisco de Sá, uma das últimas etapas. Ela é a ponte da ferrovia e liga os estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul. Tem 1.200 metros de extensão e foi feita para trem. Há os dormentes e o trilho acima uns 20 metros do rio, e eu a atravessei com a bicicleta. É complicado. Fiquei com muito medo quando cheguei ao meio. Mas havia 600 metros para frente ou para trás. Segui. Olhava para baixo e via a corredeira do rio. Não aconselho ninguém a fazer isso (risos).
JC - Qual será a próxima estrada?
Chella - O próximo projeto pode ser posto em prática talvez no segundo semestre deste ano. O estado mais próximo de Bauru onde eu ainda não pedalei é Tocantins. E eu tenho vontade de subir o rio Araguaia até onde der, talvez chegar até o Amazonas. Mas, por enquanto, é só uma ideia, que vou tentar concretizar. É como eu sempre digo, não dá para ostentar o troféu antes de conquistá-lo. A estrada sempre me fascinou. Eu a vejo como um outro mundo. Na estrada, há mais fraternidade. As pessoas param, perguntam se está tudo bem, se estou precisando de alguma coisa. Fico até emocionado ao falar sobre isso. Eu nunca fiquei na mão na estrada; na cidade, já.
JC - Lembra-se da sua primeira bicicleta?
Chella - Sim (risos). Meu pai tem uma foto guardada até hoje. Essa paixão nasceu comigo. Eu não sabia nem andar quando ganhei meu primeiro triciclo. Lembro-me dele, por incrível que pareça. Ele era o meu brinquedo. Meus pais contam que eu não largava dele, caía, porque não sabia andar, vivia cheio de graxa (risos). O fato é que nunca fiquei sem bicicleta. Já maiorzinho, vivia nas ruas com a magrela. E eu gostava de pedalar para longe, demorava a voltar. Dei muito trabalho e preocupação para os meus pais. Para você ter ideia, a bicicleta esteve comigo até mesmo no meu primeiro emprego. Aos 14 anos de idade, eu arrumei um trabalho de entregador de remédios. Claro, de bike (risos).
JC - Você já pedalou profissionalmente?
Chella - Já competi com speeds, que são aquelas bicicletas de pneu fino, e algumas competições de mountain bikes. E, quando eu tinha uns 18 ou 19 anos, surgiu o desejo de viajar de bicicleta. Fui para Araçatuba. E foi muito difícil, porque eu não tinha experiência, não sabia o que comer, beber, como me proteger do sol, o que levar... Mas depois dessa viagem nunca mais parei. Consegui fundos com patrocinadores, profissionalizei as viagens e vou seguir até quando Deus permitir.
Perfil
Nome: Luís André Chella
Idade: 45 anos
Cidade: Bauru
Filhos: Giulia Nascimento Chella
Hobby: Pescar
Livro de cabeceira: “No ar rarefeito”
Filme preferido: Gosto de filmes de aventura
Estilo musical predileto: Rock ‘n’ roll
Time: Palmeiras
Para quem dá nota 10: Para minha filha
Para quem dá nota 0: Para os políticos corruptos