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Para o jovem que por volta dos 14, 15 anos detestava samba e só queria saber de rock, até que ele se deu bem no samba. O próprio ironiza o seu gosto musical da adolescência, bem no estilo “cospe para cima e cai na cara”.
Ele é hoje um dos porteiros do Hospital de Base. Lourival Custódio de Lima, 64 anos, já foi bancário, mas em suas veias corre mesmo o sangue de compositor e sambista. Mais do que Lourival, ele é Val da Vila, nome artístico. A vila em questão é a tradicional Vila Dutra.
Com o ano da Copa do Mundo no Brasil começando, Val da Vila fala feliz da vida dos inúmeros sambas que compôs desde que se rendeu, ainda nos anos 70, ainda lá na Vila Dutra, aos apelos dos amigos para fazer um samba para a escola da vila, a Flor da Vila Dutra. Fez por insistência mesmo. Deu tão certo que nunca mais parou de compor sambas.
E claro que num ano de Copa do Mundo, com o amor pelo samba e com o gosto pelo futebol, Val da Vila não iria deixar de compor algo para a Copa. Não deu outra, saiu uma homenagem ao Fuleco, o tatu-bola, mascote da nossa seleção. Sob o título “Brasil, País do Futebol”, Val da Vila já está divulgando sua mais recente composição.
Roda de samba
E para cada música ele tem uma história. Desde que se rendeu ao gênero, de 1976 para cá, o amor pelo samba foi igualzinho ao amor ao futebol. Ele adora o Palmeiras e, também o Noroeste.
E lá se vão quase 40 anos de orgulho do que compôs. Val mostra tudo devidamente catalogado em pastas amareladas pelo tempo, que filho e amigos estão ajudando agora a resgatar e colocar em arquivos de computador. Mostra também os troféus que ganhou defendendo escolas de Bauru e da região, como a Arco-Íris de Jaú. Entrevistá-lo, na verdade, é diferente, é delicioso. Cada pergunta ele responde cantando, lembrando-se de uma música. E as horas de entrevista viram uma apresentação exclusiva.
Ou quase exclusiva. A apresentação é testemunhada por Cida, sua segunda esposa que, embevecida, vê o marido cantar e demonstrar romantismo. Ela sabe, quase que de cor, toda a “discografia”, por assim dizer, de Val. E juntos eles têm uma linda história de amor para contar.
A história de um fora muito bem dado
Aqui abrem-se parênteses para contar a história deles. Quase que tão linda quanto as composições que Val faz. Imagina que Maria Aparecida Brito Custodio de Lima, a Cida, esperou 30 anos para viver sua história de amor. Ele é seu primeiro marido. E foi também sua paixão de adolescência.
A entrevista é dele, mas é ela quem conta, bem-humorada, o “causo” de amor. Cida era jovenzinha e paquerava o então moço Lourival. Estava encantada por ele. E como mandava o costume da época, os casais marcavam encontro num point descolado.
No caso foi a lanchonete Skinão, então na esquina da avenida Rodrigues Alves com a rua Gustavo Maciel. A mais importante da cidade na década de 70.
Cida se arrumou e foi lá esperá-lo, cercada de amigas, como mandava a tradição. Moça de família não ia sozinha ao primeiro encontro.
“E não é que o safado me deu o cano? Não apareceu!“, conta ela, que recolheu seu amor e foi cuidar da vida. Os anos se passaram, Lourival casou-se, teve dois filhos e no fim separou-se. Foi morar no Mary Dota, na antiga rua 51. Cida, por sua vez, mudou-se foi para Rondonópolis (MT), “correu o mundo e correu de mim”, diz ele, hoje, brincando.
Cida voltou para Bauru na década de 90, para cuidar dos pais velhinhos. E de um sobrinho que criou como filho. Nunca se casou.
Com a morte dos pais, morando com o filho no Mary Dota, na rua 57 (por dez anos morou perto de Lourival, mas nunca o encontrou), e trabalhando na enfermagem no Lauro de Souza Lima, um dia ela perde a condução que a levaria para o instituto. Teve que pegar o circular normal. Foi quando se encontraram no ônibus.
Cida reconheceu o antigo amor na hora. Ele não e ainda lhe passou uma cantada ao que ouviu – “o tempo passou, mas você continua o mesmo safado”. Foi assim feita a reapresentação entre os dois. Esclarecidos os fatos, Lourival se achou no direito de se redimir do bolo que dera há tantos anos e a convidou de novo para um encontro, no mesmo local.
Só que daí veio o troco. Cida é que não foi. E ainda pegou um circular com as amigas e passou pela frente da lanchonete para ver se ele estava lá esperando.
Depois disso, Lourival não descansou enquanto não a conquistou. Isso foi em 1999. Em 2006 casaram-se “de papel passado e tudo o mais” e estão juntos até hoje. Ela exibe, orgulhosa, o álbum de casamento. E agora ambos trabalham no mesmo hospital, não se desgrudam como a recuperar o tempo perdido.
Enciclopédia do Carnaval
Conversar com Val é falar com uma verdadeira enciclopédia viva do Carnaval bauruense. O homem desfia histórias e histórias das principais escolas que Bauru já teve, citando especialmente a Mocidade Independente e a Cartola.
Mas fala também com saudade dos blocos e do tempo que o Carnaval era diferente. “Era na raça, não tinha esse dinheiro de hoje em dia, e era tudo feito com isopor e muita luta”.
O que ele não esquece mesmo é seu primeiro samba, e a ideia que tinha na cabeça. “Todo mundo tinha, até aquela época, a mesma batida. A gente precisava de uma coisa diferente, que fosse pioneira. Então o fato de eu ser roqueiro ajudou”, lembra ele. “Viemos para a avenida com algo diferente, uma música mais autêntica. Acho que foi o que deu certo”.
Ele conta também histórias familiares curiosas, como a da sua mãe, que lavando roupa no tanque cantava suas composições. “Daí eu ficava feliz que ela estava cantando um samba meu e ela cantava muito bem, e sabe o que ela dizia? Que não, que aquela música não era minha, que era do Jair Rodrigues”, diz, rindo. “Era tão legal, o povo gostava tanto que nem minha mãe acreditava que era minha música”, diz ele. (DK)
Samba do Fuleco na Internet
Para que o leitor do JC confira o seu mais recente samba, Val da Vila gravou um clipe, sozinho, com a música. Feito pelo repórter fotográfico e cinegrafista Aceituno Junior. Você pode conferir o vídeo logo abaixo. Val acha que quem ouvir vai gostar. É para contagiar e prestigiar a seleção. Bom dizer que ele também tem gabarito para compor músicas de futebol. Afinal, é dele também o único hino de time de futebol amador de Bauru, o do Independente Atlético Clube. Veja a letra para você acompanhar e cantar junto.