Uma espécie de ‘panelaço’ realizado exclusivamente por cerca de dez mulheres ocupou, ontem pela manhã, a Câmara Municipal de Bauru. Acompanhadas por seus filhos, com idade entre 1 e 9 anos, elas deixaram os bairros onde moram, como Fortunato Rocha Lima, Parque Jaraguá, Santa Edwirges e 9 de Julho, lotaram o saguão do Legislativo de forma pacífica e apresentaram aos vereadores o drama de sobreviver sem água nas torneiras, na sala da presidência.
Há quatro dias, são forçadas a pôr a mão no bolso para matar a sede da família, embora a renda de cada uma das integrantes do protesto seja escassa. Por conta do tempo transcorrido com o abastecimento completamente suspenso devido à substituição da bomba no poço Roosevelt 3, nem banheiro mais elas têm condições de usar na própria residência, onde todo o trabalho doméstico foi suspenso, assim como procedimentos básicos de higienização pessoal.
A situação caótica foi levada ao presidente do Departamento de Água e Esgoto (DAE), Giasone Cândia, que recebeu os parlamentares e duas organizadoras do protesto, iniciado no Fortunato Rocha Lima, na tarde de segunda-feira. Todos os presentes cobraram data para o restabelecimento da distribuição de água. Embora o responsável pelo DAE evite prazos, informou que, se tudo correr como o esperado, até amanhã à tarde a situação será normalizada.
Caso a expectativa não seja cumprida, as manifestantes prometem parar os circulares nos bairros onde moram enquanto, simultaneamente, outro grupo invadirá a sede do DAE, situada nos Altos da Cidade. Embora a situação tenha se agravado nos últimos dias, o problema é crônico na região há anos, onde a água geralmente chega somente de madrugada e depois acaba.
“Como aqui tem água, viremos para cá com a nossa família”, garante Patrícia Lima, moradora do Parque Santa Edwirges. Sua colega Marluci da Silva, representante de bairros como Fortunato Rocha Lima e Parque Santa Edwirges, foi além.
Problemas
De acordo com ela, se a promessa de ocupação for executada, permanecerão no DAE junto com os funcionários. “Ninguém entra, ninguém sai”, garante. As palavras foram proferidas no próprio DAE, em reunião em que estiveram presentes a vereadora Telma Gobbi (PMDB) e os vereadores Carlão do Gás (PR), Roberval Sakai (PP), Moisés Rossi (PPS), além de Sandro Bussola (PT), presidente do Legislativo, que ligou para Cândia para solicitar o encontro.
Durante a reunião, Fábio Manfrinato (PR) também se dirigiu à sede da autarquia, onde outros problemas foram apresentados. Entre eles, o fato das contas de água continuar alta, mesmo sem água no bairro. Problema vivenciado por Vilma Feliciano, que recebeu R$ 53,00 de cobrança. Ela mora apenas com o filho, que trabalha e estuda, portanto passa poucas horas em casa.
Como a queixa não foi exclusiva, Sandro Bussola, não só pediu para comunicarem o prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) sobre a manifestação, como encaminhou a ele um ofício, com várias contas de água anexadas, demonstrando valores ‘salgados’. O presidente da Câmara pede ao chefe do Executivo que informe os motivos pelos quais esses valores são cobrados e que a administração municipal se esforce para sanar o problema de falta d’água.
Já o presidente do DAE orientou as reclamantes a procurarem a sede do Poupatempo para registrarem oficialmente as queixas, que serão individualmente analisadas. Giasone também confirmou que é possível ar passar pelo hidrômetro, alterando a conta de água. O ideal seria que os aparelhos fossem substituídos por outros, com válvula bloqueadora de ar.
Serviço
Poupatempo fica na avenida Nações Unidas, 4-44.
Sem contato
As mulheres responsáveis pelo ‘panelaço” também se queixaram do 0800 do DAE. Alegaram que o sistema de telefonia não funciona ou que os funcionários são orientados a desligar a ligação. O presidente do DAE, Giasone Cândia, ficou de checar o problema, mas alertou que o 0800 não recebe ligações feitas por celulares, sendo que a maioria da população, atualmente, conta apenas com telefones móveis.
Neste caso, o interessado em fazer uma queixa deverá ligar para o número (14) 3235-6140, cuja ligação é cobrada. Já quem conta com telefone fixo pode acionar o 08007710195, cuja chamada é gratuita.
Boato provoca tensão em reunião no DAE
Depois que as mulheres organizadoras do protesto apresentaram aos parlamentares na Câmara o quão insuportável é viver sem água, surgiu um boato no meio político de que o ‘panelaço’ teria sido orquestrado por algum vereador. O comentário provocou tensão na reunião realizada no DAE e indignação dos vereadores que escutaram o grupo.
Marluci da Silva, inclusive, chegou a ameaçar de processo quem dissesse que o ato recebeu o apoio desta natureza. Disse ser mulher capaz de reivindicar seus direitos por iniciativa própria, sem qualquer tipo de manipulação. O próprio presidente do DAE, Giasone Cândia, também declarou durante o encontro descartar qualquer motivação política de bastidores para a realização do protesto. Foram provocados pelo vereador Carlão do Gás, que quis esclarecer o assunto para que não pairasse dúvidas.
Sem informarem de onde o comentário partiu, parlamentares demonstraram perplexidade com o comentário. Telma Gobbi (PMDB), por exemplo, desmarcou pacientes assim que soube da presença das mulheres no Legislativo. Quis recebê-las por ofício.
“Entendemos a dificuldade de gerir uma cidade como Bauru, de gerir uma autarquia como o DAE, mas tem que haver planejamento estratégico. Não dá para falar em solução para daqui dois anos. É possível ficar sem energia por alguns dias, mas não sem água”, comentou. De acordo com ela, esse tipo de garantia básica também é capaz de prevenir doenças, por exemplo.
Já Roberval Sakai (PP) acompanha o problema desde o ano passado, já que mora na região do Nova Esperança. Procurou o presidente do DAE várias vezes e sabe que o problema é crônico, embora agravado nos últimos dias. Garante estar pressionando o poder público para reverter a situação.
“Todo o nosso dinheiro foi gasto em água”
As mulheres que participaram do ‘panelaço’ ontem, em frente à Câmara, chegaram à sede do Legislativo sem pagar a passagem do circular que as levaram até o Centro da cidade. “Pressionamos o motorista e ele nos entendeu. Explicamos o que iríamos fazer. Não temos R$ 1,00 para comprar comida para nossos filhos. Gastamos com água para beber”, comenta Marluci da Silva. “Água é vida”, falou em tom forte na reunião.
O não abastecimento provoca inúmeros impactos, especialmente em dias tão quentes. Ontem, dependendo da região, os termômetros superaram os 33 graus. A filha de Flávia dos Santos, por exemplo, não foi à aula, sendo que o ano letivo nas escolas do Estado começou na última segunda-feira. “Não posso mandá-la. Ela está sem tomar banho. A culpa é da própria população, que é morta, não se mobiliza e vota errado”, comenta.
A situação também está difícil para Dorli Jacira de Moura, mãe de quatro crianças. A mais nova, Sofia Vitória de Oliveira, de 1 ano e 10 meses, foi ao ‘panelaço’ e mamou no peito durante a reunião com os vereadores. Matou a sede. Já as crianças restantes aproveitaram para tomar a água servida na Câmara. Mas não é porque Sofia tem à disposição o leite materno, que sua situação seja mais tranquila.
Desenvolveu uma alergia à fralda, que já não usava mais durante o dia. Dorli conta que recorreu às descartáveis porque todas as calcinhas da caçula estão sujas e ela não tem água, que é emprestada da vizinha, para lavar a roupa. Outro filho dela de 4 anos passou a usar apenas bermuda porque não tem mais camisetas limpas. “Comemos só macarrão instantâneo porque é mais fácil fazer e tomamos refrigerante”, lamenta.
Problema afeta cerca de 20 mil pessoas
Uma região com cerca de 20 mil pessoas foi afetada diretamente por conta os problemas na instalação da bomba definitiva do novo poço Roosevelt 3, conforme a reportagem divulgou no último domingo. Na ocasião, o deputado estadual Pedro Tobias (PSDB) foi inspecionar o início das obras de uma escola estadual e foi cercado por moradores desesperados com as torneiras secas.
Desde então, a assessoria de imprensa do DAE informa que o novo poço Roosevelt 3 entrou em pré-operação na véspera de Natal de 2013. Mesmo em teste, a bomba provisória instalada no local era capaz de produzir 139 metros cúbicos de água por hora, sendo que o volume aumentará para 200 metros cúbicos por hora quando for instalada a definitiva.
Há quase dez dias, a troca da provisória pela que ficará constantemente operando começou a ser feita. Enquanto isso, o poço tem de ser paralisado. Para contornar a situação, o DAE voltou a operar com o poço Roosevelt 2, cujo revestimento de aço foi rompido em 2012 e passou a garantir apenas 74 metros cúbicos de água por hora – menos que os 150 m³ de antes.
A expectativa do DAE era que a bomba definitiva do Roosevelt 3 passasse a operar na última sexta-feira, quando a fabricante fez a medição final, constatou isolação baixa e a retirou sob o risco de queimá-la.
A empresa, então, fez revisões técnicas em cabos e emendas para checar as razões do problema, saná-lo, para então reinstalá-la, procedimento iniciado ontem e que deverá ser concluído amanhã pela manhã. Já o restabelecimento da água foi previsto para quinta pelo presidente do DAE, embora técnicos tenham apontado para o final de semana.
Quando o Roosevelt 3 operar plenamente, o poço 2 será tapado, conclui a assessoria de imprensa.