|
Aceituno Jr. |
|
|
|
Ozélia e Francisco mostram gerador movido a gasolina que supre falta de luz |
É com um gerador de energia movido a gasolina que Ozélia, todo início de noite, põe a casa para funcionar. Mas, como o equipamento consome muito combustível, logo o imóvel volta ao silêncio. Máquina de lavar roupas, ventiladores e televisão só podem ser acionados num curto período de tempo.
Devido a um impasse legal (leia mais abaixo), o improviso e a economia passaram a fazer parte da vida da dona de casa Ozélia Matheus Bino há quatro meses, quando ela se mudou com a família para um terreno da quadra 2 da rua Olympio Avallone, no Parque São Judas.
A rede de energia não havia chegado ao endereço, mas, enquanto ela e o marido erguiam os primeiros cômodos da casa, a esperança era de que a situação mudasse.
Mas não mudou. Na casa quase pronta, Ozélia, aos 56 anos, continua dividindo o dia a dia às escuras com o marido Francisco Bino, 58 anos, a filha Camila, 31 anos, e o neto Pedro Henrique, 2 anos.
“Toda nossa rotina teve de ser reorganizada. Ninguém toma banho à noite, porque o chuveiro é frio. A comida tem de ser preparada na quantidade certa para não ter desperdício, porque não tem geladeira para conservar. E todo mundo janta cedo, para não comer no escuro”, relata.
O televisor se tornou um objeto decorativo e os ventiladores da casa, inertes, não servem para aplacar o calor intenso que castiga Bauru nesta época do ano. “Água a gente bebe na temperatura ambiente mesmo. Só ligo o gerador à noite para poder lavar roupa. Aí, aproveito para carregar o celular. E só isso já dá um gasto de R$ 15,00 por semana com gasolina”, reclama.
Sacrifício
Antes de se mudar, a família de Ozélia vivia em um imóvel maior no Vale do Igapó. Como os gastos excediam a renda de Francisco, que trabalha como funcionário público, o casal decidiu construir uma residência menor em outro lugar – o loteamento Parque São Judas, que, apesar de pouco habitado, já está regularizado há quase 60 anos.
“Vendemos a casa que a gente tinha e compramos o terreno e o material de construção. No início, ficamos numa edícula nos fundos, com muito sacrifício. Já tinha água e esgoto, mas ninguém falou que a luz ia demorar a chegar”, narra.
A dona de casa conta que a rede de energia passa a cerca de 200 metros de sua casa. No ano passado, ela diz que chegou a acionar a CPFL Paulista, empresa concessionária do serviço de distribuição de energia, que teria informado não haver previsão para a instalação de eletricidade no endereço.
“Eu soube que, para eles fazerem a instalação já, eu teria que pagar R$ 15 mil. Mas é claro que eu não tenho esse dinheiro. O jeito vai ser continuar esperando”.
A CPFL informou que não propôs qualquer negociação à moradora.
Regularização anterior a lei retarda urbanização de bairro
O Parque São Judas carece de melhorias porque foi regularizado em 1957, antes da lei municipal 6766/79. Pela norma, o município só pode aprovar novos loteamentos desde que contem com infraestrutura básica, como rede de água, esgoto e energia. Antes de 1979, portanto, esta exigência não existia.
A partir dela, para que tivessem seus loteamentos regularizados, os próprios empreendedores passaram a negociar e custear a instalação da rede de energia elétrica junto à CPFL Paulista. Por meio de nota, a concessionária do serviço informou que, de maneira gratuita, só é “responsável pela construção das redes de distribuição de energia em empreendimentos habitacionais urbanos de interesse social”, caso em que o lote de Ozélia Matheus Bino não se enquadra.
Da mesma forma, o dono da imobiliária que vendeu o terreno à moradora informou que a tarefa de garantir acesso à energia elétrica não seria dele, mas sim da prefeitura.
“É ela quem recebe tributos referentes àquela área há muito tempo. Já a pessoa que comprou estava consciente sobre as condições do terreno, porque mostramos qual era a infraestrutura existente no local”, considera o empreendedor, que preferiu não se identificar. A prefeitura, por sua vez, avalia que a atribuição de prover a iluminação seria da concessionária.