09 de julho de 2026
Cultura

Letras salvadoras


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Divulgação

Livro vendeu mais de 2 milhões de exemplares no Brasil e mais de 8 milhões pelo mundo

“Quando a Morte Conta uma História, você deve parar para ler” - e pode parar para assistir. Parafrasear o slogan do best-seller “A Menina que Roubava Livros”, que vendeu mais de 2 milhões de exemplares no Brasil e mais de 8 milhões pelo mundo, é a melhor maneira de descrever o resultado da adaptação cinematográfica homônima desse fenômeno literário que estreia hoje nos cinemas bauruenses (o drama “Álbum de Família” é a outra estreia).

Ainda que a narrativa audiovisual não apresente a mesma desenvoltura da Morte como narradora do livro do australiano Markus Zusak, o filme é instigante. Para a satisfação dos leitores, “A Menina que Roubava Livros” (2013), de Brian Percival, também traz, ainda que de forma mais discreta, a “ceifadora de almas” narrando a história de Liesel Meminger (Sophie Nélisse), a menina que despertou sua curiosidade quando foi buscar o irmão dela, morto em um vagão de trem na Alemanha nazista.

Os dois eram levados pela mãe, perseguida por ser comunista, para serem cuidados por um casal de meia-idade: Rosa (Emily Watson) e Hans Hubermann (Geoffrey Rush). No entanto, só chegam à rua Paraíso – tradução feita para a rua Himmel do original –, Liesel e o “Manual do Coveiro”, guia roubado pela garota durante o funeral do irmão, na primeira manifestação de sua bibliocleptomania.

Curiosamente, a menina, então com dez anos de idade, ainda não sabia ler, fazendo com que o carinhoso pai se esforce para ensiná-la. Saboreando o prazer da descoberta das palavras, ela não se furta da paixão pelos livros e continua a desfrutá-los e adquiri-los ilegalmente, sob os olhos e até a conivência do seu melhor amigo Rudy (Nico Liersch) e de Ilsa Hermann (Barbara Auer), esposa do prefeito da cidade.

A mulher é uma das clientes de Rosa, que lava e passa roupas para ajudar no sustento da família, já que o marido não consegue mais trabalho por não ser filiado ao Partido Nazista. Mesmo assim, os dois não medem esforços para abrigar e esconder, mesmo durante o auge da 2ª Guerra Mundial, o judeu Max (Ben Schnetzer), filho de alguém a quem Hans deve muito.


Do livro para a telona

Para transformar as quase 500 páginas do livro nas mais de duas horas de filme, o roteirista Michael Petroni – responsável por “As Crônicas de Nárnia: A Viagem do Peregrino da Alvorada” (2010) – alterou a ordem dos acontecimentos, omitiu algumas passagens e inflou um personagem, atribuindo-lhe ações de outros que foram suprimidos do script.

Os fãs xiitas possivelmente reclamarão das mudanças, mas elas são necessárias em qualquer adaptação, pois se trata de outra linguagem. Talvez só uma minissérie seria capaz de abordar todas as subtramas e detalhes da narrativa literária. Das alterações realizadas, a mais interessante é a troca de “Dar de Ombros” por “O Homem Invisível”, de H. G. Wells, como o livro roubado da fogueira, em uma irônica referência à entrada de Max no enredo.

As mais prejudiciais ao longa são a suavização no retrato dos horrores da guerra e a moralização excessiva ao omitir que Liesel e Rudy roubavam outras coisas além dos livros. Todo esse esforço foi feito para adequar a produção a uma classificação etária mais baixa.

Mesmo assim, pode-se dizer que Brian Percival, que já ganhou um Emmy por um dos episódios que dirigiu na série inglesa “Downton Abbey”, faz de tudo para honrar a memória dos leitores.


Elenco afinado

O elenco de “A Menina que Roubava Livros” também está afinado. Emily Watson convence no papel da mãe adotiva ranzinza, que, entre seus xingamentos, demonstra preocupação com a garota, enquanto o carisma de Geoffrey Rush serve perfeitamente para o papel deste pai afetuoso.

E a canadense Sophie Nélisse, estreante em Hollywood, segura bem a responsabilidade de dar vida a esta protagonista com uma boa interpretação, ainda que não tão impressionante quanto a da sua estreia em “O Que Traz Boas Novas” (2011), produção do Canadá que concorreu ao Oscar de filme estrangeiro em 2012. Além disso, ela e Nico Liersch fazem da relação de Liesel e Rudy algo muito próximo do que se imagina através das páginas do livro.

Apesar dos problemas e da sensação de que seu potencial não é totalmente explorado, o saldo ainda é positivo.