O beijo gay foi assunto muito mais importante para certos meios de comunicação do que a conta do bacalhau com vinho verde da presidente Dilma Rousseff, num restaurante de Lisboa; ou o 1 bilhão de dólares que o Brasil investe no novo porto de Cuba. Nem o milhão de reais arrecadado em horas por Delúbio Soares, o dirigente do PT condenado por corrupção, comportou maiores análises dos brasileiros. Predominou na pauta o beijo entre machos. Vai sobrar dinheiro para repassar a João Paulo Cunha e José Dirceu, companheiros de infortúnio de Delúbio, também castigados por penas corporais e pecuniárias. A única dúvida que sobrou foi sobre as olheiras da Dilma, visíveis na foto da visita ao companheiro Fidel. Se produzidas pelo cansaço da viagem ou se pela estafante tarefa de reformar um Ministério com 39 ocupantes, de dez diferentes partidos.
Tudo tem explicação científica. O pai da psicologia moderna Carl Gustav Jung descobriu, no início do século passado, que existem certas matrizes no inconsciente coletivo que são comuns a todos os povos. O culto ao amor, ao ódio, às intrigas, aos baixos instintos humanos, ao sexo, aos desejos incestuosos, assim como dezenas de outras estruturas cerebrais são herdadas dos nossos ancestrais. Permanecem incrustadas na camada mais profunda da psique. Esses conteúdos, que Jung chamou de "arquetípicos" chamam a atenção de qualquer ser pensante, atraem curiosidade e levam as pessoas a tomar partido. Ganham de qualquer outro assunto, por maiores que sejam as consequências imediatas ou futuras. A imprensa sensacionalista se apossou desses conteúdos arquetípicos, no século passado, porque conduziam a um sucesso implícito e vendiam jornais. A literatura, que já explorava o imaginário popular nos contos de fada, também correu atrás. Com o advento da televisão, com sons, imagens em movimento e depois cores, a incorporação da teoria de Jung caiu do céu. As novelas da Globo estão aí para ajudar na afirmação dessa verdade. Vendem no mundo inteiro. Milhões de telespectadores ficaram de olho na telinha para ver um beijo gay, considerado "histórico", por ser o primeiro da tevê brasileira. Se eu não tivesse dormido no sofá, também teria assistido. Um cronista especializado contou pelo menos trinta casos de conteúdos arquétipos utilizados pelo autor de Amor à Vida, para alavancar a audiência. Coisas que iam desde a discussão sobre obesidade até assédio moral, passando por discussões sobre virgindade, doenças graves diversas, transtornos obsessivos-compulsivos, amor entre árabes e judeus, mulher mais velha namorar homem mais novo. Tudo num ritmo alucinante, mudando de rumo ao sabor das pesquisas de audiência.
O beijo gay seria a azeitona no pastel recheado com dezenas de ingredientes picantes. Na Grécia antiga esse tipo de troca de carinhos entre homens jamais teria impacto no anfiteatro. Ésquilo, Sófocles e Eurípedes escreveram cerca de 300 peças. Pelo menos dez por cento delas chagaram a nós. Nenhuma delas tem beijo gay. Era coisa corriqueira na época. Jung já havia pontuado mudanças nesses delírios esquizofrênicos que se plasmam em imagens mitológicas. Nada é para sempre. A teoria da "individuação" (grosso modo, o desenvolvimento da singularidade pessoal de cada um) ajuda as pessoas a aceitarem-se como são. Trata-se de uma longa jornada de autoexame até as pessoas, finalmente decidirem o que querem ser. Hoje, descabe censura ao beijo gay. Voltamos dois mil e quatrocentos anos no tempo. Um autor lembrou a perplexidade do soldado expulso do exército norte-americano em 1970 por ser gay: "No exército, me condecoraram por matar dois inimigos; e me expulsaram por beijar outro".
Hoje se realizam mais de 200 Paradas LGTB no Brasil, inclusive em Bauru, com sucesso. Eles lutam por direitos humanos e políticas públicas afirmativas. A violência homofóbica é uma realidade. O Congresso Nacional, infelizmente, não aprovou sequer uma lei específica que contemplasse favoravelmente a comunidade LGTB. Ainda bem que o reconhecimento do Judiciário tem dado algum tipo de proteção. A opinião pública brasileira tem navegado a favor da corrente. Segundo pesquisas sociológicas, em 1993 somente 7% da população era favorável à união homoafetiva. Hoje são 55%. Haverá um tempo em que, como na canção do filme Casablanca, um beijo será simplesmente um beijo: a kiss is just a kiss.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC